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Não tem faltado trabalho, graças a deus
Continuo agradecendo como se não fosse um encargo
Tenho vendido a alma ao diabo
e o diabo passa bem
muito bem, muito bem
certamente melhor do que eu.

Por favor, senhor diabo
Corrija logo o relatório apocrifado
Desculpe a demora, sei que tudo é urgente
inadiável
Embora nada seja assunto de Estado.

Tudo não passa de uma categorização vaga
confidências burocráticas, amarras clandestinas
jurídicos poemas, emblemas
porém,
ao menos
as contas estão pagas.

Enquanto o diabo crê em deus
eu não creio em nada
que não seja estritamente empírico, palpável
Como eu poderia acreditar no deus do eterno?
que esbanja infindáveis horas livres sem nenhum pudor?
Como eu poderia acreditar em uma figura mitológica
tão distante da minha agonia?
Quando a mim só cabe vender
minhas horas, dias, quinzenas, meses e anos
meus anos, meses, quinzenas, dias e horas
segundos, segundos, segundos
Apenas para poder
levar uma vida minimamente vivível.

Ah, mas trabalho não tem faltado,
graças a deus.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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EGO

Abandone o gado, abandone o leite
abandone a colheita e qualquer pretensão
abandone o homem, abandone o sentido
abandone a ideia de perempção.

Abandone o Sistema e suas peças
as construções poéticas, as lápides arquétipas
Abandone a antipatia pelo desgaste das ruas
Abandone toda e qualquer melodia
converta a si mesmo em um sistema perfeito.

Abandone o indivíduo autóctone
Abandone o ar puro, a especialização das tutelas
o forma dos laços, o rigor mortis
o sexo dos moribundos e até o litisconsorte.

Abandone todo e qualquer título abandonável
pai de família, amigo fiel, abastado e boa-sorte
Abandone-os sem pena.

Os filhos, as mensagens, a cólera
lembre de abandonar os lembretes
e cuspir a memória e o agora
para que, assim, também a eles se possa abandonar.

Os abanos, os abonos e os botões
abandone-os todos
Camufle, resguarde e reponha apenas dilemas
nessa grande e certa ficha
viva fresco o desafio de pesquisador
sem todo e qualquer elemento subjetivador
que contamina os resultados, não mais se admite o pudor
aliás, abandona-o já, junto com as roupas de baixo.

Abandona os limites, as amarras e o asco
Veja num ambiente vago, abandona o entulho dos vínculos
as expectativas vãs.

Abandona porque tudo que vais aprender
daqui para a frente é apenas
sobre
polir a arte do abandono
em um caminho de análise de danos
e revisões biblio-biográficas
para novamente constatar, corroborar, ratificar
o que sabias desde o começo dessa jornada
de corpos científicos:
O pesquisador é um abandonador.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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“É tempo de levitar
Habitar as frestas dos sonhos
Disseminar absurdos, ideias escandalosas
Construções utópicas.

É tempo de levitar
Imaginar descabelos, grifar o toque
Deixar as garras recolhidas
Descansar as queloides, dormir sem ranhuras.

É tempo de juntar os dentes, as bocas, os lábios
Subverter os hinos, reformular as preces
É hora de reconhecer-se só, somente só ser.

É tempo de levitar
Aceitar o mundo dos fatos, lamber o empírico
Chafurdar na matéria e sublimar o espírito
É tempo de por as crenças em bandejas.

É tempo de levitar
É tempo de levantar
É tempo de abandonar as cavernas, desembrutecer
Abandonar os temores, apagar os fantasmas.

É tempo de levitar, sussurrar o grito
É tempo de lavar os cabelos, varrer os destroços
É tempo de abrir-se para visitação
e editais de curadoria
Ser acervo de vida e impulso de morte
O eterno. O contraditório. O indizível.
O segundo de espasmo no peito.
Aliás
É tempo de guardar o tempo, poli-lo.

É tempo de levitar
Respeitar o corpo, a febre e os cheiros
Incendiar a íris.

É tempo de levitar
Celebrar o nome, a filiação, a identidade.

É tempo de levitar
desaprender o ódio
ao invés de carregar escombros,
É hora de viver no mundo, apenas,
gratos.”

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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I.

Muito se fala do perigo
do rouco da memória,
dos louros de outrora
ao fitar o calmo do teu rosto;

do rastro de outros corpos
não se falou,
se calou em velas
sobre
o agouro da tua demora.

II.
Quantos ais fugidios
teus olhos brilhavam foscos;
brio de sacanagem, de fato mundana
mas transmutou-me
num canto
das partidas santas,
dos deitares incólumes
a qualquer noite de sono.

III.
Perdoa o encantamento
próprio de criança, o primeiro dos poetas
O querer claro, sem mácula
o dizer em voz alta
palavras próprias
dos adeuses em horas caladas.

IV.
Eternizo o que posso
do mundo revirado
papeis de contas, luvas aladas
o abismo dos rastros
de tocar no modo aquisitivo.

V.
O dia tão límbico
os vizinhos, adormecidos
e a recordação persistente
da sua cara,
expressões e vértices
os detalhes componentes
de possíveis descendentes.

VI.
Se sei tão pouco,
o fascínio acaba
em pequenos queixumes.
Que pena, Meu Deus,
te amar de cara lavada
e aceno no punho
pronto para o avesso da chegada.

VII.
Aceitar que a missa
da pele já se fez acabada.
Sejamos ou seríamos –
casuais, enquanto me encontro
deveras admoestada.

VIII.
Que brincadeira leiga
meu peito não pode
fincar em malote
anseios de toque
e remetê-los ao nada!

IX.
Peitos ou pernas, café
expresso
por horas
põe a voz nos visgos,
escala e se incorpora
vira hera, rompe os beijos
induz o fim fatídico
desse
efusivo sentimento.

X.
Boa sorte com as uvas,
Obrigada pela seiva.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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A solidão que se fez de pronto
instaurou-se, apenas,
não pediu perdão aos dias
tampouco deitou água nas hortas
agora vazias.

É que tudo o que pintamos
por vezes parece crasso,
destinado à alguma ironia
dos tempos em que se punha
os olhos em cestas
oferecendo-os a quem quiser que seja(s)

Cedemos muito no antes
Antes de vermo-nos arfantes
Mas agora nada cedo aos transeuntes
Pois agora escondo os olhos em baixelas
para só os servir aos teus rompantes.

Talvez ingenuidade, talvez alquimia
É que muito expliquei pela eletricidade
que contaminou meus tempos presentes
o choque dos corpos
das horas vadias.

Como se dá essa transmutação?
Em que se converte o ócio hipotético
em obrigação de dar
constituir-me em mora sem hesitação
às batidas na porta
batidas de braços e bocas
do teu suave coração.

E lá vem, de novo, não cansa
que estorvo, mania de fidelidade
ideia constante
doença velha, inescapável
Uma das partes, sentida insone
ao longo da tarde.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Poemas pouco pedem
Despretensiosos, silentes
Angularizam qualquer relação banal
e tornam as excepcionais, perenes.

Poemas pouco pedem
Demandam aos poucos, pé ante pé
Se prostram diante das escadas
Sobem quietos, ardentes.

Poemas pouco pedem
Deitam de lado, serenos
Esperam o tempo da vida
Embora sejam aves, de rapina.

Poemas pouco pedem
Mas fazem um estrago, de fato
Mostram o inconfessável
Os desejos loucos, sem travo.

Poemas pouco pedem
Só transcrevem um olhar, franco
A delícia em te ver
E o coração, aos trancos.

Poemas pouco pedem
Traçam mapas imaginários, delírios
Repetem o beijo de vinho
E o gozo certo, em desalinho.

Poemas pouco pedem
Alguns dias são roucos, representantes
E tomam posse aos poucos
Levam as roupas, e o corpo.

Por completo.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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“O estalo dos corpos,
no vibrar do cansaço
os olhos que açoitam
meu dorso devasso.

‘Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá’
ao riscar pele com pele
ao mormaço retirar.

Ode ou elegia?
Um desejo de gozo,
Algumas outras fantasias
um lugar para encaixar
sonhos e algumas covardias.”

(Bruna Alencar)