Como Reconhecer um Artista

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(Anxiety, 1894 by Edvard Munch)

 
Como Reconhecer um Artista

Eis aqui um manual abençoado
de como reconhecer algumas divindades
de como imergir no fantástico e no cruel
daqueles que sentem – julgam sentir – mais do que outros
e também se entendem bem mais doidos do que os demais.

Trato então daqueles que, normalmente
cedo percebem e assumem
a crueza de viver
se contorcem com facilidade
e, em sua maioria, seguem
descrentes na civilidade.

Trato daqueles para quem – ou os quais
os amores chegam como um susto
enquanto o vento de angústia
se encontra certo no
tecido do presente.

Estes que em suas condições desanormais
de temperatura e pressão
não podem ficar, não irão compor seu futuro
veja, não leve para o pessoal:
não é você, é o mundo!

Nota-se então que estes tais artistas
não são muito dados
às amarras: apenas o chacoalhar de suas
impressões hão de ser prioridade.

Não queira prender um artista
para além de seu
já compromisso com a mensagem.

Não tente o comprimir
em sua caixa
de pesares e pertences.

O artista contesta a normatividade
nosso compromisso, meu bem
é com a dor
e o prazer
do desencaixe.

[entenda que até os artistas adaptados
deixam suas pontas soltas. Ser artista
é, inegavelmente,
de alguma forma,
não se adaptar]

Afeitos à solidão e muito próximos
às questões sobre indecência e adequação
sentem-se quase moribundos
no desespero de colorir o escuro
ainda que em tons pasteis ou com pardais.

Rejeitamos a expressão brusca do comum
Esfarelamos os jornais
seja ao produzir a arte da denúncia,
a arte que expõe os povos
seja ao produzir a arte que acalanta,
a arte que alcança o nobre.

Nos rimos e remoemos o
contentamento por dentro
ao evidenciar:
sois humano,
o mais pretensioso dos animais.

(Olhinhos Atentos – Bruna Alencar).

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faking

Sempre que paro, escrevo
Só assim continuo a
jornada do desejo
pra correr de mim mesma.

O assombro dos meus medos
ocupa um espaço obtuso
e a curva dos meus dias
tem um quê de deslumbre.

A mão me obriga a escrever
puro exercício de desengasgo
Os tapinhas nas costas não convêm
O ameno e o doce são tolice.

Avessa à qualquer pensamento plano
Me criei com toda essa esquisitice
Entre o delicado e o áspero, a carne
O meu ouro é viver o antro humano

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

librt

Decomponho a Mim Mesma no Escuro

Membros. Boca. Âmago
Cabelos. Epiderme. Óculos Escuros
Peitos. Anáguas. Pudor
Pinto o sete quando minha
buceta te chama.

Acordo às cinco
Tomo o multivitamínico
Unhas (feitas). Pernas vestidas
Crânio (a chacoalhar). Braços sortidos
Capital humano vistoso, intelecto obtuso.

Soltei um berro na Avenida Paulista
Dia normal. Continue a nadar
Decomponho a mim mesma no escuro
Vasculho o caos com a ânsia de amar
Esperança, bicho humano, moribundo.

Ventania bruta, incessante
Decomponho a mim mesma no escuro
não creio no deus de percurso
mas creio no homem de carne que ora.

Decomponho a mim mesma no escuro
Com todo o meu existir subalterno
Em razão de um consórcio encontro-me
dentro dessa pele de velcro
experimento a liberdade em
doses homeopáticas
pequeninas, delicadas
condenada a viver sorumbática
antes reticente
do que fanática.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

30/11/2018

pesquisa

ACELERADOR DE PARTICÍPIO

Escorro por seus olhos
com a alegria de quem
contempla esse lamaçal de vida

Chafurdam os homens em suas tormentas
Me torno inábil para as expectativas
O peso da lei é afeita ao tesouro.

Entre o pesquisador e o asceta
as diferenças são poucas, ambos são tolos
Mas enquanto para um sobra ingenuidade
para o outro só sobra a lepra.

Participo do meu passado
pelo simples exercício do presente
se todos os meus amores se fazem latentes
digam ao povo que veto tal futuro inconsistente.

Presos nos mesmos tropeços
distantes dos sonhos blimundos
não conseguimos fechar os olhos
vidrados no percurso do absurdo.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

21/11/2018

cat cat

Vou te contar qual o segredo
sem firula e sem rodeio:
Não esquecer
de todos os dias
levantar da cama
dar um berro pra por
sua angústia
em movimento.

O tempo não sobra
minha querida Maria
a questão posta
é saber usar a peneira
não construa sua vida
na base dos cascalhos
prefira antes as alegorias.

Tampouco se trata
de simples verborragia
tem que partir pra a ação
pegar a sua picareta
lapidar em si a consciência
que ser maior
do que qualquer conveniência.

Há de fazer solo pra revolução.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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Eu conheci os homens e seus punhais
Testemunhei o chacoalhar das classes sociais
Raspei até o tacho de minha habilidade para o sonho
Quis crer e pela crença me fiz voraz
Meu nome não está liberto
enquanto liberto não estiver o nome
de todos aqueles que, como eu, sofrem
e riem estupefatos diante da vida.

A minha liberdade encontra, portanto
condição para a sua realização:
sentem todos na mesa que eu estou
comam, bebam e dancem
exaltem a arte, conheçam Saramago
leiam a mim e ao meu sorriso de via expressa
o encontro humano sucede
um arcabouço de viveres.

O trabalho não pode ser massacre
meu epitélio não tem fronteira, tem compostos
composto de gozo e composto lacrimoso
o coletivo de mim há de querer sempre mais
perfaz a si por outras retinas
e assim, ao menos em parte
me liberto do ego e do assombro de mim.
Ser humano é iludir-se sobre totalidade.

Representação e transcendência
só me regozijo pela essência daquilo que realizo
O lume da modernidade, da pessoalidade
ou apenas da identidade
é a liberdade de ver-se nos demais.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

06/11/2018

si si

Meu estimado Carlos, cá estou com minhas letras

Não poderia deixar de pintar com parabéns a sua conquista. Trago então em minhas pobres mãos de pesquisadora uma caixinha simples para compor a sua felicidade. Aqui dentro residem algumas palavras de esperança com o intuito de tornar mais vibrante sua vitória de hoje e, se me permitir dizê-las, as ponho diante de ti com toda a ternura possível entre duas pessoas que nunca se tocaram, mas que se amam pela crença certa nos percursos uma da outra.

Seu mestrado agora é algo certo, em breve começará a recolher os retalhos de cosmovisões para compor a aventura de mapear percursos de ideias, então aprenda com o caminho, aventure-se. Transborde o próprio caminho. Inunde de sentimento tudo aquilo que se propuser a estudar. Ame cada palavra, deguste cada vírgula e sempre que algo te parecer odioso: gargalhe.

Aliás, todos os dias que tocares pretensões alheias, gargalhe. Gargalhe em alto e bom som. Escolha que sua gargalhada imponha o tom da vida. Gargalhe como quem nega qualquer seriedade e arrogância acadêmica.

Não faça isso por eles. Faça por você, pela sua sede de mundo.

E inclusive nesse exato momento beijo sua boca, lânguida e ávida (sua boca ou eu? ambas?) radiante por simplesmente inferir que você também tem sede. Que trajeto delicioso! É exatamente sobre encontrar nossas faltas e supri-las. Ao menos por um momento.

A sede e a fome são próprios de sermos mais humanos que os humanos. E observe que essa categorização não visa nos enaltecer. Trata-se antes do contrário. Por humanos humanos sermos, talvez estejamos mais perto de enlouquecer. A vida nos bate duplamente pois vemos.

E por vermos, e por exercitarmos nossa fome, e por exercitarmos nossa sede, encontramos a pesquisa. Buscaremos impreterivelmente consertar nossa casa interna, a parte de nós situada na escrita. Nessa senda diante da qual nos debruçamos sobre um objeto e por ele também somos vistos.

Pesquisar é relacionar-se, percebe? Abre teu inteiro coração para isso. Põe inclusive teu coração em uma baixela, serve-o gume por gume para alguém que você nunca irá identificar. Doa tudo que puder, pois sempre que achares que esgotou a si mesmo, encontrará um segundo humano em ti.

Sei que farás um trabalho fantástico e novamente te cubro com meus parabéns, apenas te peço para que nunca esqueças que continuarás a vencer todos os dias, mesmo nos dias em que ninguém aparecer para testemunhar o quanto lutaste. Acredita nisso com todo o poder que possui esse sopro de vida humana, pois eu acredito em ti com todo o brilho dos meus afetos.

Brilhe!

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

05/11/2018