Insidious

radio

You came in with nothing else than a fox smile
You took my tongue between your eyes and your legs
(and after that) licked me with no regards
Messed me up inside out
Put all your fierce in this minutes of love
all the lucid moments we recognize each other
as a simples animais asking for real feelings.

Mess me up with your insidious face
your diplomatic touch
underneath your daily lies
show you’ve a propensity to be true
put all your hideous memories in my pocket
try not to be such a political animal
at least for a moment
please, allow me to suck your body
as a symbol of release
are we settled? can we agree?

Insidious voice
Insidious saliva
We’re drunk of being alive
maybe we’d try to be vandals
maybe we’d try to love
despite
all the scandal.

(Bruna Alencar)

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O Conto da Dona X

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E então veio mais uma onda de calor. A tarde já beirava aos 40 graus, nem sombra de vento, tudo seco como só o sertão permite ser. Mas dessa vez a onda não veio e só foi. Ela também levou.

Dona X sumiu no exato momento em que o relógio-termômetro de sua cozinha marcou 15:15. E com a devida angústia de quem precisa respirar dentro de uma caixa de areia, foi-se.

Exatamente assim, inclusive porque sempre fora uma mulher simples. Pluft. Acabou-se.

Dona X nunca se atreveu a ser incógnita. Veja: esposa aplicada, mãe devotada, cozinheira das boas. Dócil quando jovem, segura de sua posição de matriarca quando velha. Muitas configurações, tantos papeis, mas nenhum a impediu de sentir aquele calor insuportável. Aquele calor a consumia por dentro. Devorava até a dobra dos ossos.

No começo da tarde, em prenúncio dos piores momentos que viriam, a garrafa d’água esquecida fora da geladeira já havia perdido o frescor. Dona X serviu-se da água no copo plástico do Mickey esquecido pelo neto. Era até um copinho danado de bom e dava uma coceira boa na lembrança. Tão bom quando matar a sede é lembrar.

Entornou. Quente. Ah, nem quente de fato, mas, ainda assim, desagradável.

Quanto aborrecimento! Repôs mais água no copo e decidiu que o colocaria no freezer. Só a ele. Ela, mais do que ninguém, merecia uma água irracionalmente gelada já que apenas ela tinha realizado o esforço para tanto. Nem as outras garrafas encheu. Os outros que chegassem sedentos e experimentassem o que ela passou, o mesmo aborrecimento. Sentiu-se egoísta pela primeira vez na vida. Sentiu-se bem.

Olhou para a casa impecável depois de mais um dia de devoção às suas funções e achou graça do pensamento de que a ela também era dado bagunçar. Nova onda de calor. Essa foi pesada. Dona X bateu com o leque no ar e o pensamento foi parar longe.

Meu Deus, pra quê isso? Já não bastavam os calores sofridos na juventude? As bacias d’água no quarto pela noite, a vontade de evadir-se. Abandonar o conforto da casa dos pais em nome de seu primeiro e único amor, observar, com a passagem do tempo, a chegada dos ventiladores e acalmar-se na castidade do lar.

Naquela época não poderia imaginar que anos depois, quando o pior mormaço de sua vida chegasse, já haveriam inventado os tais ares condicionados, mas ela ainda não havia merecido tanto e nem achava necessário, pois, afinal, sempre fora muito simples.

A fronte pintada de suor. Até o cachorro que vivia ao seu lado já desistira de ser penitente, refugiou-se debaixo da pia da área de serviço. Bicho esperto, aproveitava a goteira pingando-lhe na cabeça.  E a ela caberia refugiar-se aonde?

Pergunta besta, Refúgio era artigo de luxo, coisa de quem possuía meios para abrigar-se consigo. E veja, como Dona X gostava de lembrar, ela era muito simples e o calor mais uma vez haveria de ser algo contornável.

Molhou uma toalhinha de rosto e resolveu o problema açoitando a si mesma no dorso em frente do ventilador da salinha de entrada. Algum alívio. Bom. Bom. Poderia manter aquele esquema pelo resto da tarde.

Ficou mais alguns momentos a considerar a que pés andavam suas energias para os outros serviços quando escutou um barulho no portão. Abriram o ferrolho. Alguém lhe roubava o momento. Tratou de se recompor. Dobrou a toalhinha e pôs na mesa. Januário chegava da escola.

A mochila maior que a si. Vermelho de calor e já barulhento, anunciou de pronto “Vó, já almocei na casa de Anderson, pode guardar as comida”. Ainda pensou em questionar, mas o menino, assim como o pai, era brusco, sem paciência com ela, com suas insistências e preocupações de mulher.

Certo. “Se já comeu, tá comido. Ande, vá me buscar uns geladinhos na Dona Claúdia, traga pra você também”, “Claro, né, vó”. O menino recolheu o dinheiro embaixo da chaleira de porcelana e raso como veio, foi. Foi deixando Dona X na dúvida se ele haveria obedecido por respeito ou interesse.

De qualquer modo, já antecipava o alívio do doce gelado e isso já era suficiente.

Essa habilidade para contentar-se havia lhe dado uma família numerosa. 8 filhos, 12 netos, muitos distintos, titulados, outros ainda sendo encaminhados pela vida, tudo na mais perfeita harmonia de Deus.

Outras ondas de calor. A toalhinha voltou a funcionar. O ventilador constante como também constantes os suores. 20 minutos. Aonde Diabos se meteu esse menino?

Na impaciência só lhe restava abrir a geladeira para constatar: nenhum docinho minimamente frio. Chega, chega, Januário! As vozes agora faziam coro dentro de si: chega, chega, Januário! Chega, Pedro, chega, Maria Lina, chega, Augusto, chega, Laura, chega, Carminha, chega, Roberto, chega, Inácio Élio, chega… cheguem que eu estou aqui e estou com tanto calor!

E nada do diabo do menino voltar. Entreteu-se no caminho.

Mais e mais ondas. Suportar a agonia consciente era pedir muito, só restava o sumiço para cuidar de si. Aprendera depois de todos esses anos que era a única responsável pelo seu amparo. Os filhos seguem como seguem as dores.

E então, em uma sucessão de imagens, ela considerou que poderia ter sido outras. Os amores poderiam ter sido tantos, ela poderia ter sido louvada para além de tudo isso, mas, afinal, quais eram seus sonhos no começo? Contorceu-se. Não sabia e não sabia se por esquecimento real ou conveniência.

Acontece que ela sempre foi simples e esses foram seus últimos momentos de vida sedenta. PLUFT. Acabou-se junto com o calor enquanto o copo d’água ainda esfria.

(Contos Contorcidos – Bruna Alencar)

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Olha, chego na terça

Podemos fazer de novo aquilo que fizemos no meio dos tempos da madrugada? Recriaremos o mistério de ver o novo no outro e sentir a companhia como uma fisgada? O corpo escorre desejo e da cabeça decorre uma manada de pensamentos desenfreada,
O corpo é uma caixa que comporta o devir de sonhos e pausas.
Toca rude e com cautela.

Os discos aqui no peito junto com uma confusão de referências herdadas
Sempre chegamos a esse sítio no qual nos esperam de peito aberto
Mas nunca chegamos sós em nenhum dos relacionamentos nos quais desembocamos
Trazemos os conceitos de toque, as voltas e voltas nas estradas do ontem.

Recria seus olhos nos meus com a mesma paz de quem pouco sabe e aceita?
Repete os gestos nos quais lemos as cintilâncias da pele?
o sabor do sexo é a sorte
na qual
toda a vida que acontece fora da cama
espera.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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Minha única escolha foi carregar a pureza de coração como quem não passa o trinco na porta.

Desleixo. Descuido. Convite?

De alguma forma eu pedi para que as emoções chegassem sem tantas barreiras. Eu quis ceder ao toque fresco de olhar alguém de olhos límpidos.  Cheguei despida e sai despida. Não me cobri com roupa alguma. Olha, eu não tenho nada a esconder. Aliás, eu escolhi ter o coração exposto.

Nada foi premeditado. Foi muito honesto.

Sentir cada pelo do teu corpo no meu com gosto de prensa. Sentir todas aquelas palpitações. O sangue subindo pelo corpo inteiro. O ardor no peito. Os seios consumidos de desejo. Quente. Quente. Você ao meu lado e eu quente. Quente.

Deliciosamente ausente no meu delírio de entrega.

Toma-me por inteira, consome meu ventre e meus olhos diante de todos os meses que estive ausente. Derrama meu útero toda a felicidade ingênua de quem tenta sem cinismos. Crê em mim como um pai crê em um filho, como quem não duvida de que aqueles que têm pernas aprenderão a andar mais cedo ou mais tarde.

Me ama como quem lança uma verdade inadiável perante o mundo. Me ama como quem diz basta. Como quem não segura, não limita. Me ama como quem põe a coragem na fronte e segue certo do caminho.

Apaga todas os vestígios de outros suores. Me permite dançar. Me ergue pelos ombros e encaixa nossos quadris sem quaisquer jogos pueris. Não quero dificuldade para entrar. Vem sem perguntas fugidias. Sem justificativas. Escorrega em mim. Sem graça e sem delicadeza. Me fode como quem defende o próprio lar.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

Soneto de Amor no Domingo

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O amor é coisa de gente grande
Coisa de quem não se esconde jamé
Quem decide não aliviar o instante
E se encanta ao tirar fruta do pé.

O amor é coisa de gente atenta
Coisa de quem faz do amor exercício
Quem segue seu rumo de veia aberta
E aceita ao encanto e ao suplício.

Ame sempre, todo dia, sem mistério
Pois a vida da nó num instante
E se esvai em casos sérios.

Assim, diante das travas do mundo
que antes me falte o brilhante
que propensão para amar ao absurdo.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Veja, Matilde, você não entendeu errado. Encontro-me realmente cheia de pústulas pelo corpo. E tal mal sempre me chega como resultado da covardia. Havia afastado-me novamente da literatura. Algumas vezes doi demais. A mesma literatura que estanca a sangria é a que nos mostra que a nossa dor de humanos é um rio com mais afluentes que possamos contar.

Percebe, Matilde, que essa carta na verdade tem natureza de socorro. Tenho vivido nessa convulsão dos sentidos de quem ama e não toca. Estou realmente delirando desde que deixei a cama dele. Por quê os caminhos das pessoas são tão tumultuados, Matilde? Talvez seja por essa sofreguidão de só termos a essa vida para ver tudo. Só temos essa vida para que sejamos todas as versões de nós mesmos.

Sei também que você recebe essa casa com algum juízo de reprovação. Sim, talvez acabem por me por alguma alcunha de amiga egoísta. Só apareço quando algo doi. Quando a solidão incomoda. Pietá é mesmo uma estúpida. Olha, desde já peço desculpas e sei que serão aceitas pois conheço a medida do seu coração de saco de estopa, um coração que só retém o que é grandioso.

Mas retomemos ao problema (lê-se ao meu problema). Distanciei-me da literatura por medo de que os livros cutucassem ainda mais as lembranças que eu tenho dele. Temo cometer alguma loucura maior do que amá-lo tão rápido. Temo abandonar meus gatos, limpar a conta bancária ou queimar meus escritos por pura necessidade de renovação. Sem ele minha vida até aqui me parece apenas tola. Qual o sentido de tanta balbúrdia?

Passei duas semanas apenas com ele, disso você já sabe, como também sabe que, para mim, esse foi um grande passo. E sabia mais: em nenhum dia dessas duas semanas eu tive vontade de fugir. Sumir. Escafeder-me em minha solidão.

Então bem, deixe-me ver o que consigo contar, pois a cada dia, uma revolução diferente. Mas ainda assim todas as nossas revoluções foram feitas com cravos.

No primeiro dia ambientei-me, cheiramo-nos. Decidimos que de fato nos gostamos, embora nenhuma palavra tenha sido dita.

Do segundo ao décimo quarto eu já não sei nem organizar os acontecimentos. Cada segundo passou como um turbilhão de susto na pele e nas íris. Dissolvemo-nos. Perdoa a falta de explicação, é que não tem mesmo.

Inúmeras palavras continuam por dizer, mas de alguma forma elas são desnecessárias. Eu só preciso voltar. Saramago estava certo. Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.

Assim como também sempre chegam as pústulas a mim quando eu abandono a literatura. Não encontrei os livros o suficiente, fui leviana. Troquei as letras por olhos cheios dedos. A diferença é que a literatura não vai a lugar algum, enquanto eu tive que partir e ele foi destinado a ficar.

No entanto de alguma forma esses dias me deixaram leniente. Por duas semanas eu decidi não por mais nada dentro de mim que não fosse ele. E isso não poderia passar desapercebido. Fui punida.

Este amor de rebeldia, vivido às distâncias aplacou um pouco da minha sede por descolar minha própria retina. Pela primeira vez na vida decidi ver uma coisa por vez. E durante aquele período estive satisfeita. Mas desde que parti me doi a saudade como me doi a parcialidade.

Escolher amar alguém é como ceder um pedaço de si. Lhe dei meu olho esquerdo e metade do meu dorso.  A parte de mim que lateja é aquela que falta. Há algo no mundo que escolhi deixar de ver, mesmo que isso me pareça pecado. Deixei de ver outros homens, os conflitos parecem menos urgentes e as amizades mais distantes.

Todo o resto do mundo parece me acompanhar menos da empreitada de enganar a morte com o amor. Respiro. Tomo um café. Eu bem sei que no exato momento só cabe a mim aplacar a fúria das pústulas com literatura. Quarenta minutos escrevendo e já se cura uma que estava rubra na palma da minha mão direita. Literatura é autopoiese.

(As Cartas que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

cat 1
Difícil respirar
Difícil respirar
o ar rarefeito,
memórias do corpo
memórias do ar
O ar passa reto
Peço com calma
Breathe in
Breathe out
Mas algo se não para,
desacelera.

Sua ausência me obriga a olhar para dentro.
Veja: estanquei no meio do sonho
talvez até o poema fique incompleto
ou
simplesmente
eu apenas prenda o dedo na porta.

Como respirar sem teu barulho?

Vamos lá, eu consigo
Fiz isso mês passado, na primavera passada
to nessa onda desde de que nasci
quem é você derrubar meu mungunzá?

Uma longa. Duas curtas.
Uma longa. Três curtas.
Duas, três cinco vinte curtas
todas curtas
breathe in-out. Breathe breathe?

Que papel ri-dí-culo
Logo eu que sai da adolescência aos 18
bem melhor e serelepe
mantinha minha paz
de poder respirar sozinha

Aprendi cedo a dançar sozinha
Rodopio em um peito, passo forte
peço outro sujeito, próximo
De quantos escondi
o quanto me esfarelo?
pois ficar me impele ao peso da morte.

Mas o amor é um atrevimento de sorte.

Dançar contigo um forró do absurdo
me pôs diante da argamassa do mundo
diante da substância do ver
e gostar do que se viu.

Entrou no meu primeiro compasso errado
abaixei a guarda, abertura descuidada
Pisou no meu pé, não pediu desculpas
e desaforo não levo pra casa
tive que me vingar com o corpo ou nada.

Tomamos prumo,
Tomamos graça,
respiramos juntos
vimos os dias correndo
vimos os moços correndo
e nosso suor
escorrendo.

Teus olhos cansados do dia
O peito pronto pra a noite
Me mostrou o rumo
Abriu as portas de casa
Ora, só sendo muito louco
Aonde fui amarrar meu burro?

Agora volto,
respiração acelerada
desacertada respiração
respiração desgarrada
e o coração rodopia
que nem pião.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)