eeeuuu

Antes mesmo do café,
traz a poesia.

Aceita que antes de formar
em mim teu nome
eu me forrei de palavras
alegres, cálidas
palavras pequeninas, diminutas
e outras tantas
bruscas, aladas.

Compro palavras por metro
nacionais ou importadas
de Ancara
mas não reaproveito
palavras herdadas
sou ética em meu desatino.

A palavra existe
apenas porque eu existo
em mim faz morada
sem ela sou sozinha, sozinha
fresca em minha solidão
desanuviada
de forma que não,
eu não reaproveito
palavras herdadas.

Antes mesmo do café,
traz a poesia
e aquelas outras palavras
esquecidas, despudoradas.

Aquelas que falam do sexo,
do arroubo
daquela tua gala infernal
da dor petrificada do gozo
falam da cópula,
do toque esquecido
daquela buceta molhada
aquelas palavras excretadas
traz aquelas palavras mal-faladas.

Antes mesmo do café,
traz a poesia
com verso e vozes dos ausentes
daqueles que sofrem das
dores no corpo
e das dores nos dentes.

Traz a poesia que não cala,
não seleciona remetente,
traz também outras palavras
as pesadas, incandescentes
as que, ainda que prensadas
saem para as ruas
e gritam o grito do demente.

Traz a poesia que não esquece
o que é ser gente
pender de fome antes do amor
e que a doença compromete a cor.

Traz a poesia
antes mesmo do café,
traz com a poesia
o desafio de ver a mim
mesma todo dia
e, assim, me dar a você,
simples, miúda,
francamente humana
em minhas tantas covardias.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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gfg

O que temos feito, meu deus?
Medos meus, o que temos feito?
Confessamos as fraquezas bonitas
Porém
Somos frios, rotos e gastos
No entanto
Sustentamos a posse com pose.

O que temos feito, meu deus?
O que temos feito dos miasmas?
A hipocrisia e insensibilidade,
a indiferença e a letargia.

O que temos feito, meus bens?
Patrimonializamos as relações
Adequamos o vocabulário
(na verdade chamamos de adequação o massacre)
Aculturamos as práticas, as manifestações
Reduzimos a arte ao valor venal
e, em seguida, a enaltecemos como produto
especulamos
especulamos
todas as relações especuladas
todas as relações meticulosamente armadas
Somos meio, nunca fomos o fim de nada.

O que temos pleito, Excelência?
Perdoe-me, confundo pronomes de tratamento
Há de perdoar, sim? Há de perdoar-me, Vossa Magnificência?
Julgará por ordem cronológica
as dores dos pobres?
ou precisarei agravar?
Que belo dia para implorar por um pedaço de papel.

Queremos tanto acreditar nas formas
Que só nos alcança a decadência
A aparência. O parto. O esquecimento.
Fechados em nossos arquétipos
Quem somos, meus deuses?
Quem somos no meio dos panos?

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

fhfh

Eu estou no seu estado
e sem você as coisas não alcançam
sequer o status de coisas
tudo é externo e muito só
de forma que agora
nessas horas em que paro,
ouço muito e nada falo, mudo
os sotaques me chegam
fortes, me botam quebranto.

Todos falando a sua língua popular
identidade cultural é algo lindo
veja bem, mas ainda assim
você não está.

Quando conseguirei analisar o estado de coisas
se não sou tão científica
ainda não transcendo o desejo
e algo em mim ainda pulsa
desgovernado. etéreo. Tremeluzente?

Quando poderei me debruçar aos
fenômenos da linguagem, quando
quero que todos calem
o teu sotaque
que é só teu
e tão só.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

 

 

imoutt

Não tem faltado trabalho, graças a deus
Continuo agradecendo como se não fosse um encargo
Tenho vendido a alma ao diabo
e o diabo passa bem
muito bem, muito bem
certamente melhor do que eu.

Por favor, senhor diabo
Corrija logo o relatório apocrifado
Desculpe a demora, sei que tudo é urgente
inadiável
Embora nada seja assunto de Estado.

Tudo não passa de uma categorização vaga
confidências burocráticas, amarras clandestinas
jurídicos poemas, emblemas
porém,
ao menos
as contas estão pagas.

Enquanto o diabo crê em deus
eu não creio em nada
que não seja estritamente empírico, palpável
Como eu poderia acreditar no deus do eterno?
que esbanja infindáveis horas livres sem nenhum pudor?
Como eu poderia acreditar em uma figura mitológica
tão distante da minha agonia?
Quando a mim só cabe vender
minhas horas, dias, quinzenas, meses e anos
meus anos, meses, quinzenas, dias e horas
segundos, segundos, segundos
Apenas para poder
levar uma vida minimamente vivível.

Ah, mas trabalho não tem faltado,
graças a deus.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

EGO

Abandone o gado, abandone o leite
abandone a colheita e qualquer pretensão
abandone o homem, abandone o sentido
abandone a ideia de perempção.

Abandone o Sistema e suas peças
as construções poéticas, as lápides arquétipas
Abandone a antipatia pelo desgaste das ruas
Abandone toda e qualquer melodia
converta a si mesmo em um sistema perfeito.

Abandone o indivíduo autóctone
Abandone o ar puro, a especialização das tutelas
o forma dos laços, o rigor mortis
o sexo dos moribundos e até o litisconsorte.

Abandone todo e qualquer título abandonável
pai de família, amigo fiel, abastado e boa-sorte
Abandone-os sem pena.

Os filhos, as mensagens, a cólera
lembre de abandonar os lembretes
e cuspir a memória e o agora
para que, assim, também a eles se possa abandonar.

Os abanos, os abonos e os botões
abandone-os todos
Camufle, resguarde e reponha apenas dilemas
nessa grande e certa ficha
viva fresco o desafio de pesquisador
sem todo e qualquer elemento subjetivador
que contamina os resultados, não mais se admite o pudor
aliás, abandona-o já, junto com as roupas de baixo.

Abandona os limites, as amarras e o asco
Veja num ambiente vago, abandona o entulho dos vínculos
as expectativas vãs.

Abandona porque tudo que vais aprender
daqui para a frente é apenas
sobre
polir a arte do abandono
em um caminho de análise de danos
e revisões biblio-biográficas
para novamente constatar, corroborar, ratificar
o que sabias desde o começo dessa jornada
de corpos científicos:
O pesquisador é um abandonador.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

dfd

“É tempo de levitar
Habitar as frestas dos sonhos
Disseminar absurdos, ideias escandalosas
Construções utópicas.

É tempo de levitar
Imaginar descabelos, grifar o toque
Deixar as garras recolhidas
Descansar as queloides, dormir sem ranhuras.

É tempo de juntar os dentes, as bocas, os lábios
Subverter os hinos, reformular as preces
É hora de reconhecer-se só, somente só ser.

É tempo de levitar
Aceitar o mundo dos fatos, lamber o empírico
Chafurdar na matéria e sublimar o espírito
É tempo de por as crenças em bandejas.

É tempo de levitar
É tempo de levantar
É tempo de abandonar as cavernas, desembrutecer
Abandonar os temores, apagar os fantasmas.

É tempo de levitar, sussurrar o grito
É tempo de lavar os cabelos, varrer os destroços
É tempo de abrir-se para visitação
e editais de curadoria
Ser acervo de vida e impulso de morte
O eterno. O contraditório. O indizível.
O segundo de espasmo no peito.
Aliás
É tempo de guardar o tempo, poli-lo.

É tempo de levitar
Respeitar o corpo, a febre e os cheiros
Incendiar a íris.

É tempo de levitar
Celebrar o nome, a filiação, a identidade.

É tempo de levitar
desaprender o ódio
ao invés de carregar escombros,
É hora de viver no mundo, apenas,
gratos.”

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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I.

Muito se fala do perigo
do rouco da memória,
dos louros de outrora
ao fitar o calmo do teu rosto;

do rastro de outros corpos
não se falou,
se calou em velas
sobre
o agouro da tua demora.

II.
Quantos ais fugidios
teus olhos brilhavam foscos;
brio de sacanagem, de fato mundana
mas transmutou-me
num canto
das partidas santas,
dos deitares incólumes
a qualquer noite de sono.

III.
Perdoa o encantamento
próprio de criança, o primeiro dos poetas
O querer claro, sem mácula
o dizer em voz alta
palavras próprias
dos adeuses em horas caladas.

IV.
Eternizo o que posso
do mundo revirado
papeis de contas, luvas aladas
o abismo dos rastros
de tocar no modo aquisitivo.

V.
O dia tão límbico
os vizinhos, adormecidos
e a recordação persistente
da sua cara,
expressões e vértices
os detalhes componentes
de possíveis descendentes.

VI.
Se sei tão pouco,
o fascínio acaba
em pequenos queixumes.
Que pena, Meu Deus,
te amar de cara lavada
e aceno no punho
pronto para o avesso da chegada.

VII.
Aceitar que a missa
da pele já se fez acabada.
Sejamos ou seríamos –
casuais, enquanto me encontro
deveras admoestada.

VIII.
Que brincadeira leiga
meu peito não pode
fincar em malote
anseios de toque
e remetê-los ao nada!

IX.
Peitos ou pernas, café
expresso
por horas
põe a voz nos visgos,
escala e se incorpora
vira hera, rompe os beijos
induz o fim fatídico
desse
efusivo sentimento.

X.
Boa sorte com as uvas,
Obrigada pela seiva.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)