scary

Pedro, Eu te escrevi para pedir que rasgue a carta anterior.

Não tenho mais tempo para cartas longas, vai esse bilhete de denúncia assim mesmo. Repito então: peço que rasgue a carta anterior. Menti. Escrevi aquela carta para contar o quanto conheci do Rio. Mas eu nada conheci. Eu não estive lá.

Fui hipócrita, omissa e relapsa. Meu corpo passou pelo Rio, transitou pelas ruas do Rio, transou em casas do Rio mas eu não estive lá.

Ora, Ora. Então por onde andava a dona Pietá?

Vagueava por aí, roendo algum pensamento assombrado. Fugi de uma dor que temia reconhecer e foi humanamente por isso que no Rio não estive.

Hora de por os pontos nos is: eu não estou a ajudar ninguém, meu bem.

Não sou honrada, sensata e bem resolvida. Apenas sou alguém habituada a não largar o osso encardido da esperança (característica inclusive herdada).

Tudo em mim é obsessivo e isso não é encantador. Também cansa ser criança persistente. Também doi ser cão de briga.

Eu não estive lá e talvez nem esteja aqui. Quem eu sou de fato anda imersa em algo maior do que minha cabeça entende, algo que o meu coração prescinde.

Seu amor ocupa muito espaço, tire do meio da casa.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar).

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Vera Cooper Rubin '48

Muitas vezes
várias vezes
tantas vezes
quantas vezes
defendi o método
ardi no inferno
me desfiz de pele
– fria –
– mármore –
– vazia –
no percurso do saber
me fiz alegoria.

Quantas vezes
tantas vezes
várias vezes
muitas vezes
pintei de branco
esvaziei o verbo
lixei o pronome
– caixa –
– limite –
– concreto –
aboli o horizonte
com recorte temático.

O problema do molde
é que ele serve
mas morde.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

12/02/2019

Poema Corrido

boneca

Poema Corrido
– meio que corroído –
meio que liberal
– o outro meio parado –
combate o insurgencionacional
conservador, capital.

Com quantos paus se faz nossa canoa?
Os Brazis – Brasius – Brasils e ais
são a própria medida do caos
que aqui chamamos de mixórdia
ou do popular: baita esculhambação!

Balbúrdia. Antropofagia. Alegorias de terceiro mundo
Uns desfilam sua riqueza despudorada
enquanto muitos tapam a fome com o jornal.

Nossa bagunça acolhe e assusta
não veio de hoje e tampouco será resolvido – devolvido – agora
um quadro que veio de nau!

Concluo que não estamos loucos
sempre fomos
Hora de tirar a fantasia
despir a coroa de louros
e por esse corpo – meio que moribundo
no batuque de aceitar a si.

Incongruências e desmames:
O movimento da vida é dizer BASTA!

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

Como Reconhecer um Artista

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(Anxiety, 1894 by Edvard Munch)

 
Como Reconhecer um Artista

Eis aqui um manual abençoado
de como reconhecer algumas divindades
de como imergir no fantástico e no cruel
daqueles que sentem – julgam sentir – mais do que outros
e também se entendem bem mais doidos do que os demais.

Trato então daqueles que, normalmente
cedo percebem e assumem
a crueza de viver
se contorcem com facilidade
e, em sua maioria, seguem
descrentes na civilidade.

Trato daqueles para quem – ou os quais
os amores chegam como um susto
enquanto o vento de angústia
se encontra certo no
tecido do presente.

Estes que em suas condições desanormais
de temperatura e pressão
não podem ficar, não irão compor seu futuro
veja, não leve para o pessoal:
não é você, é o mundo!

Nota-se então que estes tais artistas
não são muito dados
às amarras: apenas o chacoalhar de suas
impressões hão de ser prioridade.

Não queira prender um artista
para além de seu
já compromisso com a mensagem.

Não tente o comprimir
em sua caixa
de pesares e pertences.

O artista contesta a normatividade
nosso compromisso, meu bem
é com a dor
e o prazer
do desencaixe.

[entenda que até os artistas adaptados
deixam suas pontas soltas. Ser artista
é, inegavelmente,
de alguma forma,
não se adaptar]

Afeitos à solidão e muito próximos
às questões sobre indecência e adequação
sentem-se quase moribundos
no desespero de colorir o escuro
ainda que em tons pasteis ou com pardais.

Rejeitamos a expressão brusca do comum
Esfarelamos os jornais
seja ao produzir a arte da denúncia,
a arte que expõe os povos
seja ao produzir a arte que acalanta,
a arte que alcança o nobre.

Nos rimos e remoemos o
contentamento por dentro
ao evidenciar:
sois humano,
o mais pretensioso dos animais.

(Olhinhos Atentos – Bruna Alencar).

faking

Sempre que paro, escrevo
Só assim continuo a
jornada do desejo
pra correr de mim mesma.

O assombro dos meus medos
ocupa um espaço obtuso
e a curva dos meus dias
tem um quê de deslumbre.

A mão me obriga a escrever
puro exercício de desengasgo
Os tapinhas nas costas não convêm
O ameno e o doce são tolice.

Avessa à qualquer pensamento plano
Me criei com toda essa esquisitice
Entre o delicado e o áspero, a carne
O meu ouro é viver o antro humano

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

librt

Decomponho a Mim Mesma no Escuro

Membros. Boca. Âmago
Cabelos. Epiderme. Óculos Escuros
Peitos. Anáguas. Pudor
Pinto o sete quando minha
buceta te chama.

Acordo às cinco
Tomo o multivitamínico
Unhas (feitas). Pernas vestidas
Crânio (a chacoalhar). Braços sortidos
Capital humano vistoso, intelecto obtuso.

Soltei um berro na Avenida Paulista
Dia normal. Continue a nadar
Decomponho a mim mesma no escuro
Vasculho o caos com a ânsia de amar
Esperança, bicho humano, moribundo.

Ventania bruta, incessante
Decomponho a mim mesma no escuro
não creio no deus de percurso
mas creio no homem de carne que ora.

Decomponho a mim mesma no escuro
Com todo o meu existir subalterno
Em razão de um consórcio encontro-me
dentro dessa pele de velcro
experimento a liberdade em
doses homeopáticas
pequeninas, delicadas
condenada a viver sorumbática
antes reticente
do que fanática.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

30/11/2018

pesquisa

ACELERADOR DE PARTICÍPIO

Escorro por seus olhos
com a alegria de quem
contempla esse lamaçal de vida

Chafurdam os homens em suas tormentas
Me torno inábil para as expectativas
O peso da lei é afeita ao tesouro.

Entre o pesquisador e o asceta
as diferenças são poucas, ambos são tolos
Mas enquanto para um sobra ingenuidade
para o outro só sobra a lepra.

Participo do meu passado
pelo simples exercício do presente
se todos os meus amores se fazem latentes
digam ao povo que veto tal futuro inconsistente.

Presos nos mesmos tropeços
distantes dos sonhos blimundos
não conseguimos fechar os olhos
vidrados no percurso do absurdo.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

21/11/2018