Tempo de não ter tempo

ImageEsses são dias inquietos. São dias em que nada parece ter, por enquanto, um lugar certo. De certo, mesmo, só as incertezas. Sinto falta das danças de madrugada. Não mais danço meu tango, meu mambo, minha valsa. Meus pés foram amarrados com barbantes espera-sonhos.

Alguma coisa virá, só não sei em qual direção.

Tempo de não ter tempo, tempo de ocupar-se com coisas que não as mesmas coisas pelas quais você desperta. Dias de sonolência. A vida será sempre assim? aprender o que você não quer por precisar? Talvez livre arbítrio seja só mais uma utopia.

Canetas. Cadernos. Escritas vãs. Escritas sãs. E vou me afastando da minha escrita convulsiva. Dias padrões que vão definir quando começa a minha estrada. Todos os dias têm sua serventia, mas são cinza por causa de todo o desgaste que causam. Estar cansada é não conseguir mais viver com dias cinzentos.

(Bruna Alencar)

Insone pensamento

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Se é para pensar, pensamos. Pensamos. Pensamos. E como pensamos. Até o cérebro estremecer. Pedir para parar. Você dorme. Nem o sono te restaura. Nem o sono te para. Parace não haver soluções para um cérebro que corre 24 horas por dia e não descansa nunca, não importa se é feriado ou final de semana. O problema é quando o pensamento corre para tudo aquilo que deveria ter uma pausa na sua memória. Não uma constante revisão.

Para lutar contra as lembranças em um ambiente em que tudo lembra você, eu conto com o tempo. O tempo aparece para levar as coisas que se quer ter de volta, mas, como não se tem tudo o que se quer, dói. Eu voltaria para o teu sorriso agora mesmo, aquele sorriso que era tão seu, aquele toque e carinho que só podia vir de ti, me fazia entender o que o vocábulo felicidade significa.

Eu lamento por tudo que não tivemos, lamento por não poder mais te beijar nos olhos, lamento por não ter seu abraço no fim do dia ou mesmo no meu fim de cada dia, lamento por não sentir mais seu perfume direto da sua pele, lamento não cuidar de você por esses fragmentos de vida, lamento por ter calado, mesmo quando eu queria falar acompanhada, lamento o silêncio.

E não podendo fazer nada mais além de lamentar eu choro.

Sou hoje sou o retráto da impotência. Me calo. Me ouço. Vou tentando me distrair por me escutar por dentro. Cada dia é um pedaço de ti que vai e um de mim que volta. Eu, que estava contigo, estou voltando. Volto insone, volto aos tropeços. Mas há quem diga que estes últimos deixam as pernas fimes e a mente atenta. Algo de bom sempre fica. E aqui não foi pouca coisa.

(Bruna Alencar)

As histórias que não foram fotografadas

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(Foto-anúncio da Kodak, empresa fotográfica, no início do século XX)

Sempre admirei os fotógrafos, com todas as fotos alheias, com todas suas fotos, joias estáticas que captaram o espírito de cada transeunte, de cada lugar, de cada luz mística de pessoas ou objetos. Sempre admirei aqueles que fotografam para falar, ou pelo menos tentar. Sempre admirei a magia de uma foto. Fotos que captam o momento, a ação, mas não a reação interior. O que está por dentro fica quieto. É o que deveriamos aprender. É uma lição que os fotógrafos e suas fotografias tentam ensinar. Pelo menos é o que eu entendo. O que se passa na cabeça da idosa, quando por um clique ficou eternizada, ao abraçar seu neto? Ela sabe. Você não.

Deveríamos entender que quando se mexe no alheio não podemos entender. Ninguém nunca vai saber o que se passa pelas minhas sinapses. Ninguém nunca vai imaginar os dias que passei acordada pensando coisas que nunca se concretizaram, mas mesmo assim me mudaram. Os sorrisos que fingi enquanto por dentro estava aos pratos. Ou quando chorei por convenção, ofereci o ombro por educação e lamentei por repressão. Por dentro eu poderia estar aos pulos. Isso não me desumaniza. Pelo contrário, só me torna mais minha. As pessoas seriam mais pessoas se fossem mais suas.

Eu sou complicada? deveras. Mas não vivo para que me entendam, vivo para que eu me entenda. Sendo assim nem sempre vivo, pois nem sempre me entendo. Me fotografe, eternize meu sorriso, so não tente me ler. Fotografias de verdade não têm limites,  não conseguem estabelecer só um fim,  nem um só motivo. São arte. São multissignificativas.

As histórias que não foram fotografadas estão presas, não em alguma garrafa, mas em corações e mentes que nunca conseguiram se retratar por dentro. Deixamos de eternizar o que vivemos em imagens, não tínhamos uma câmera fotográfica, mas nem por isso vivemos menos. Somos memória. Por mais que ela não seja de todo confiável. A memória é uma matiz instável, gradativamente nos surpreende. As memórias se corroem. E nos corroem por dentro. Imagens dizem muito, guardam pedaços de uma vida sem tantos verbos. Mas com o poder que muitas vezes exerce o caminho não-verbal.

(Bruna Alencar)