As histórias que não foram fotografadas

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(Foto-anúncio da Kodak, empresa fotográfica, no início do século XX)

Sempre admirei os fotógrafos, com todas as fotos alheias, com todas suas fotos, joias estáticas que captaram o espírito de cada transeunte, de cada lugar, de cada luz mística de pessoas ou objetos. Sempre admirei aqueles que fotografam para falar, ou pelo menos tentar. Sempre admirei a magia de uma foto. Fotos que captam o momento, a ação, mas não a reação interior. O que está por dentro fica quieto. É o que deveriamos aprender. É uma lição que os fotógrafos e suas fotografias tentam ensinar. Pelo menos é o que eu entendo. O que se passa na cabeça da idosa, quando por um clique ficou eternizada, ao abraçar seu neto? Ela sabe. Você não.

Deveríamos entender que quando se mexe no alheio não podemos entender. Ninguém nunca vai saber o que se passa pelas minhas sinapses. Ninguém nunca vai imaginar os dias que passei acordada pensando coisas que nunca se concretizaram, mas mesmo assim me mudaram. Os sorrisos que fingi enquanto por dentro estava aos pratos. Ou quando chorei por convenção, ofereci o ombro por educação e lamentei por repressão. Por dentro eu poderia estar aos pulos. Isso não me desumaniza. Pelo contrário, só me torna mais minha. As pessoas seriam mais pessoas se fossem mais suas.

Eu sou complicada? deveras. Mas não vivo para que me entendam, vivo para que eu me entenda. Sendo assim nem sempre vivo, pois nem sempre me entendo. Me fotografe, eternize meu sorriso, so não tente me ler. Fotografias de verdade não têm limites,  não conseguem estabelecer só um fim,  nem um só motivo. São arte. São multissignificativas.

As histórias que não foram fotografadas estão presas, não em alguma garrafa, mas em corações e mentes que nunca conseguiram se retratar por dentro. Deixamos de eternizar o que vivemos em imagens, não tínhamos uma câmera fotográfica, mas nem por isso vivemos menos. Somos memória. Por mais que ela não seja de todo confiável. A memória é uma matiz instável, gradativamente nos surpreende. As memórias se corroem. E nos corroem por dentro. Imagens dizem muito, guardam pedaços de uma vida sem tantos verbos. Mas com o poder que muitas vezes exerce o caminho não-verbal.

(Bruna Alencar)

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