A bailarina e seu urso ferido

ImageEra uma vez, entre as muitas vezes que já se foram, uma bailarina brasileira, que tinha todas as cores na alma e um pedaço de cada gente de sua gente, era uma cortina quilométrica de retalhos, com ela nenhum segundo era igual ao outro, era tão imprevisível que ninguém conseguia definir um padrão nas suas emoções, movimentos e escolhas. Por vezes desgradava as pessoas por ser tão inconstante.

O que acontecia com a pequena bailarina ninguém imaginava, estava por dentro, em uma parte tão funda que muitas vezes nem ela sabia que era possível tocar. Alma. Ela com todos os seus sorrisos vivia mais interna do que qualquer um poderia supor. Aprendeu desde muito cedo que o gênero humano é o mais torpe de todos. Teve grilhões em seus pés, gritou e derramou lágrimas tão densas que, ao deslizar por sua face e tocar seus lábios, tinham gosto de fel. Começou ao dançar assim que suas pernas se firmaram, dançava quando pequena para começar a ver o mundo, e a medida que crescia dançava por um motivo diferente. Quando tinha por volta dos quinze anos, dançava para esconder as dúvidas de como seguir por suas veredas, no ano seguinte dançou para esconder suas aflições e a falta de notícia de si mesma. Aos dezessete dançava para esquecer, pelo menos um pouco, a profunda solidão de descobrir-se. Foi nessa idade que a bailarina mais sorriu, trazia sempre, para quem passava, lábios repuxados em um sorriso petrificado. Ninguém parecia notar que era o sorriso mais triste do seu mundo.

A bailarina que já era tão pequena, sentiu-se menor ainda, uma coisinha insignificante que ninguém parava para observar de perto, todos diziam que amavam-na, mas ninguém via em seus olhos o sofrimento que só sabe quem já foi sozinho. Ser errante é isso, seguir por sua própria conta, com seu próprio corpo, sua própria mente e cega por seus próprios olhos. Cega por sua alma sem frestas. Vai pequena bailarina, assim como Carlos, ser gauche na vida.

A pequena sentia-se tão completamente só, mesmo que no meio de uma multidão, que chorou durante o dia mais bonito do ano todo, estava tão presa em lágrimas que via tudo embaçado e o dia passou sem que ela nada notasse. Então na noite do dia mais bonito do ano, um urro fê-la parar com os soluços e esfregar os olhos, sentia que algo ou alguém estava pior do que ela, não titubeou em ajudar, nunca negaria sua mão pois já havia precisado muito de mãos alheias que não haviam aparecido, sabia quão ruim era.

Encontrou um urso polonês, que não sabia de onde vinha, por qual motivo estava ali e para onde deveria ir. Estava ferido, seu sangue era viscoso, grosso e manchava todo o seu pelo branco e esplendoroso. Era um sacrilégio ver uma criatura tão bonita tão maltratada pela vida. Todos os dias a bailarina alimentava o urso e limpava seu ferimento. Ficava perto para tê-lo em suas vistas, mas longe o suficiente para seguir com sua vida, suas danças e ganhar o necessário para manter-se; sua distância também pode-se justificar pelo fato da bailarina temer o urso, não sabia como ele poderia reagir a sua aproximação quando não estivesse embriagado de dor. Porém, cada dia que ela cuidava dele parecia mais difícil se afastar. Estava encantada.

A ferida era muito grande e assim, quando a noite era muito fria, o urso sentia cruelmente a falta que fazia seus pelos naquela parte de sua carne, estava exposto a todo tipo de intempérie, sempre esteve durante a vida, só que já não tinha mais forças, e aqueles momentos de frio e abandono era quase insuportáveis. Nos lapsos de lucidez que ocorriam de vez em quando, perguntava-se por qual motivo vivia, nada norteava o seu caminho. Quis a morte.

Dia após dia, o urso deu-se conta que tinha para si alguém, uma mão acariciava-o, cuidava e assim a dor foi diminuindo. Porém, o frio da noite continuava crudelíssimo.

Um dia, não aguentando mais assistir o urso tremendo, a bailarina pegou todos os seus seus cobertores para ele. Os tremores do animal melhoraram pouca coisa e agora quem sofria com o frio era ela. Não voltaria atrás, não retiraria os cobertores daquele pobre urso machucado. Mas, se ficasse doente, quem iria zelar por ele?

Abandonou o medo, pegou seu encantamento e enfiou-se debaixo das cobertas junto ao urso. Teve receio de respirar a início perto daquele animal enorme, mas, depois de convencer-se de sua amabilidade, respirou como uma criança que sente o ar penetrar-lhe os pulmões pela primeira vez. No meio da madrugada já estava com o corpo inteiro no meio dos pelos do animal e sua mão repousava quente sobre a ferida do mesmo.

E assim os dias seguiram, as madrugadas sendo mais ansiadas por ambos do que a luz do sol.

Então um dia o urso se curou, levantou, abriu os olhos, e passou um bom tempo velando o sono da bailarina. Ela então, ao sonhar talvez, estendeu os dedos para apertar o magnífico pelo do urso e não encontrando-o acordou transtornada. Deparou-se com o urso observando-a, completamente calmo, eles não sabiam como agir, tinham vivido tanto tempo no imaginário um do outro, que a realidade sob o sol era estranha. O urso foi ao encontro da bailarina bem devagar, ela era acostumada com a rapidez nas coisas, mas gostou daquilo. As vezes as pessoas precisam exatamente do oposto do que estao acostumadas. Sentiu seu cheiro de  mulher acordada e colocou uma mecha de seu cabelo na boca. Ele amava os cabelos castanho-escuros dela, assim como ela amava sua pelagem.

Depois dos cabelos, colocou a orelha dela toda na boca, não ocupava um terço do tamanho daquela bocarra que para muitos poderia parecer assustadora, mas ela sabia que era um afago, ele estava agradecendo por tudo que ela havia feito. Ela agradeceu a sua maneira. Aproximou os lábios dos olhos do urso, que por reflexo, fechou-os, e ela beijou suas pálpebras. Era a maneira dela agradecer a ele por tê-la livrado da cegueira da solidão.

Depois de muito tempo passarem juntos deram-se conta que em muitas coisas eram parecidos: antigamente eram sozinhos e incompreendidos, além de muitas outras semelhanças que faziam dela urso fêmea ou dele homem. Estavam os dois perdidos e a bailarina que à muito estava morando no caminho para lugar-nenhum, fez do urso a sua moradia.

(continua, um dia continua…)

(Bruna Alencar)

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