Sol-idão

ImageNão estou me sentindo bem. Tenho no peito algo que me sufoca, guardado tão profundamente que eu sinto meus pulmões espremidos. Meu coração espremido. Minha traqueia espremida. Meu eu oprimido. Respirar é difícil, é pesado e por vezes parece tão desnecessário. Sinto os retrocessos e doi mais do que de costume quando você se acostuma a progredir. Eu fui embora, mas, usualmente, se tem que voltar. E essa volta machuca. Corroi. Estou corroida. Minha saliva ácida dissolve minha língua e sou empurrada novamente para o silêncio. Quero falar mas não tenho como, nem o que. O lobo que eu tenho por dentro não consegue se exprimir diretamente.

Meu corpo inteiro pende. Inerte. Mole. Frouxo. Estar por perto faz isso comigo. Certas coisas não permitem que eu me aproxime de maneira segura. A proximidade de algumas pessoas, alguns lugares e coisas me faz mal. E por mais que exista quem diga que a distância é ruim, eu discordo.

Estar longe me fez bem interior e exteriormente. Aqui não tem espaço para mim. Eu preciso ir pra lá, eu vou para lá. Mas parece que o tempo se arrasta.

Acho que eu nasci para ser sempre a distância. Para ser solidão. Não reclamo, vejo a beleza no que tem dentro de mim. Me afastar dessa beleza é o que me cega. Eu quero ser distante. Eu quero ser sozinha. Ninguém pode renegar o seu interior.

Dolorida demais para escrever muito. Dolorida demais para não escrever. Eu vou ficando por aqui, por enquanto, infelizmente.

(Bruna Alencar)

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Como ser o que é

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Sou tudo o que eu errei, tudo o que aprendi e o que por mais que a vida tenha insistido, não compreendi. Eu sou meus dias de amargura, mau humor, sarcasmo, alegria, paz e até mesmo solidão. Eu sou minhas emoções, sou meus amores indos e vindos e ainda ausentes. Eu sou as horas que eu passei pensando em alguém ou alguéns. Eu sou as horas que eu não ousei pensar. Eu sou tudo aquilo por que lutei ou negligenciei. Eu sou minhas verdades e, indubitavelmente, minhas mentiras. Eu sou a falta que a falta faz.  Eu sou as lágrimas que derramei sobre meus lábios cerrados ou sobre meu sorriso resplandecente. Eu sou o espaço do meu amar ou do meu odiar.  Eu sou minhas dores, meus dissabores e meus contentamentos. Eu sou tudo aquilo que abracei, que beijei e até mesmo o que “platonizei”. Eu sou a vontade de ter o que me faz sentir viva. O que faz eu me sentir. Eu sou meus amigos e seus antagonistas. Eu sou minhas escolhas. Eu sou eternamente grata por “EU SER” e, por esse mesmo motivo, eu não tenho vontade de mudar nada do que eu fiz. Tudo está aqui onde eu sou.

(Bruna Alencar)

Coisas que tenho para comunicar depois da morte de nós dois

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Olá Henrique,

Bom dia, boa tarde ou boa noite. Escolha o que menos te incomodar. Sempre foi assim.
Não estou escrevendo por querer voltar para a sua cama, sei que foi isso que você imaginou assim que leu o remetente. Sua conclusão estava errada. Novidades para você: sempre esteve completamente errado. E espero que tenha entendido a abrangência da frase. Estou escrevendo para avisar que estou chegando Sexta pela manhã para pegar as minhas coisas, e deixar o resto das tuas. Espero que tenha o mínimo de tato necessário e não esteja em casa. Quero minha blusa branca manchada de vinho tinto galego, não adianta esconder, eu sei que você a vive cheirando e lembrando do dia em que a manchamos, juntos. O que é, no mínimo, deprimente, já que você parece viver de manchas. Viver manchando os outros. Tornando tudo uma bagunça e depois culpando os outros.

Culpe a si mesmo. Pare de olhar para fora e encontrar desculpas para esse inferno no qual você se meteu. Eu te mostrei todas as estradas certas para ir para frente, para progredir e você, como agradecimento, me puxou para trás. Não só a mim. Fez regredir, fez infeliz todos os que se aproximaram de você. Agora é cada vez mais cômico saber que você cheira minhas blusas enquanto pragueja meu nome. A vida é cruel não é? você sente falta de quem você cuspiu.

A cômoda branca eu vou pegar de volta. Tire aquelas suas revistas de time de futebol e aquele monte de folhas rabiscadas por você ao telefone, você não tem coragem nem de jogar no lixo. Típico. Coragem nunca foi o seu forte, sempre te pareceu melhor passar horas trancado no quarto reclamando da vida. Minhas plantas vão vir embora comigo, pode ficar tranquilo que você não vai ter mais que desperdiçar cinco gloriosos minutos da sua vida as regando.

Vou pegar todos os quadros, enxovais, sapatos e minhas roupas do seu guarda-roupa. Vai ficar tudo vazio, como quando eu entrei na sua casa. As paredes vão ficar nuas, meus sapatos não vão mais colorir o seu quarto e você vai ter espaço de sobra para guardar as suas roupas. O desafio é ocupar tudo de novo, não é? acho muito pouco provável que você consiga crescer ao ponto de ocupar um espaço maior. Porém, desejo sinceramente que consiga, ou pelo menos tente.

Se encontrar alguém novo para morar contigo, desejo sorte. Sorte é, definitivamente, uma boa pedida para alguém tão descrente e cego diante das belezas da vida. Será necessário prudência também, sua e dela, para que ambos possam se suportar sem brigas que superam os beijos. Viver com você é sufocante, espero que encontre alguém que já tenha morado acima do nível do mar.

Amar a você nunca foi uma solução. Amar você foi uma forma de me reformular. De mostrar logo para mim quais caminhos eu nunca mais deveria seguir. Amar você foi um mal necessário. E agradeço todos os dias por todo mal ter um fim.

O relógio da varanda eu também não vou deixar, ele é muito grande para você e estas horas são minhas a muito tempo. Tem ainda algumas coisas pequenas para eu retirar, mas nada que você vá notar.

Os números de emergência continuarão na segunda gaveta da sua escrivaninha, então por favor, não morra, ligue antes para uma ambulância, farmácia, polícia ou algo do tipo. Há também o número do supermercado. Não vá passar o dia comendo batata-frita, sorvete e refrigerante. Se quer morrer, faça com estilo. Não acabe com sua saúde por tão pouco. Odiaria te ver doente, por mais que de qualquer forma odiaria te ver.

E por favor, suma e não dê mais notícia, não vou ter consideração por quem nunca teve por mim. Você foi a desgraça do meu ano de 2012. E se o mundo não acabar mesmo esse ano, quero que 2013 seja o marco para o início de um novo calendário, e neste não há feriado para saudar as lembranças mortas do que um dia fomos juntos.

Eu sei de mais coisas a seu respeito do que eu contei. Respeitei o seu silêncio, respeitei os seus segredos. E respeito a tua memória perdida em mim. Gostaria muito que fizesse o mesmo.

Branca

P.S.: Depois de Sexta pela manhã pode trocar a fechadura. Vou deixar a chave embaixo do capacho.

P.S.S.: Não esqueça que você está sozinho por opção, pois você afasta todos de ti. Não reclame se te faltar algo.

(Bruna Alencar)