Prefácio:

Image

Querida Cecília,

Hoje foi um dia  difícil, sem dúvida, mas você não deve viver só de passado. A dificuldade da vida está em fazer do presente a continuação do passado, principalmente dos erros, das dores, das feridas. Deixe que feche. E nós dois sabemos que você sabe disso.

Difícil é organizadar os pensamentos, escrever é muito mais fácil, esse fluxo desordenado de coisas sem conexão entre si, no papel se ajeitam por si só. Os dedos correm. A vida é solta. As palavras te amam. Você só precisa dar chance a elas. Você também as ama. Então porque ficam separadas durante alguns períodos? Não renegue a escrita. Por mais difícil e atarefado que seu dia tenha sido. Sempre pode-se achar um tempo para escrever. Nem que seja apenas um verso. Lembre sempre: não esqueça as palavras, elas foram uma das poucas amigas que nunca de magoaram, que nunca te esqueceram. Lembre-se de quão leal você é. Lembre-se da beleza na lealdade. Escrever todos os dias vai te salvar desse mundo ai fora.

Vamos fazer um trato? deixe que eu, você, escreva,  além de tantas outras coisas que sabemos que você escreve de vez em quando, uma carta diária sobre como você está por dentro, sobre suas impressões do dia, sobre as fraquezas, as fortalezas, as iluminações da vida. Faça o que te falei durante 150 dias e depois releia tudo. Você vai notar a mudança. E creio que vai gostar. Depois me conte como foi a experiência. Nesses dias escreva sobre o encantamento e sobre o fétido. Ponha para fora, você sabe como. Não retenha isso, não retenha a arte. Não retenha os sentimentos. Que você, eu, nasceu para ser incontida, nós dois sabemos, agora, não se expressar é inadmissível.

Hoje eu, você, estou aqui sozinha nesse apartamento, enfim sozinha. A solidão é tão calma. Isto tudo sempre te foi muito necessário. Não adianta ficar cercado de pessoas que não te sentem. Aliás, ninguém mais além dele, vai te sentir por dentro, teu verdadeiro eu, então por favor, conforme-se com isso. Lembre-se do que morreu e não cultive mais esperanças. Elas vão se aliar ao tempo e só vão te magoar. Não te quero magoada. De novo não. Você está bem seguindo seu dia da vez. Você antes era sozinha e voltou para esta condição. Aceite, imagine que há algo te esperando nessa estrada. Nós sentimos. O cheiro está aí para quem tiver um bom nariz.

Agora seus olhos despejam lágrimas pesadas, seus dedos são do teclado e você sente que algo está se libertando disso tudo. É sua arte. É a arte da sua alma. Mostrando que você pode sim, ao contrário do que pensa todos os dias, ser bonita pelo o que é.

Eu não te abandonei, estou contigo cada dia mais. Eu acredito que vamos juntos, encontrar uma maneira de ser plenitude. Mas para isso não podemos parar. Mais pessoas boas vão surgir, saiba reconhê-las e pare de se lamentar pelo o que se apagou.

Estar contigo significa que somos muitos, muitas, dentro de ti. No entanto, há espaço para muitas coisas aqui. Só precisa limpar essa bagunça e tirar o que não te serve mais para abrir caminho para coisas fantásticas. Um sorriso fantástico, daqui uns tempos. Agora eu sei que seria pedir demais.

Seu eu – 02/12/2012

(Bruna Alencar em CARTAS DO MEU EU PARA MIM).

Quem são estes que estão brincando com as palavras? são escritores, são poetas. São insanos.

escritor

“Ela é um gênio, ela escreve poesias, prosas, cartas intimistas, manifestos e blablabla” não é isso que um escritor espera ouvir, ninguém se desnuda interiormente no papel por ser completamente altruísta – pode ser, parcialmente – aquele que escreve é, antes de tudo, um fugitivo, um sofredor, um egoísta, pois, ao escrever, liberta sua própria alma, põe para fora seus demônios e ordena – um pouco – o caos do que seu próprio cérebro abriga. Transcrevemos nossas impressões sobre o que nos toca, nos marca.

Um escritor escreve para conseguir seguir com seus dias que parecem tão vazios. Um escritor é aquele que pelo papel consegue sua voz, tirar de si aquilo que não pode continuar a contecer. Escreve para não sufocar, escreve contra o desespero das pequenices cotidianas.

Ao meu ver, quem escreve sobre si, procura, antes de tudo, conseguir ver sua própria vida pelos os olhos de outra pessoa, mas sem perder o lado intrínseco, o lado denso que normalmente sempre fica preso na mente, calado – ninguém nunca consegue dizer tudo, mas, mesmo assim, tentamos -, de forma absurda, procuramos fugir um pouco de nós, estendendo um pouco do que somos, vivemos e sofremos para outras pessoas. Quem escreve sobre os outros e sobre o mundo, é, antes de tudo, um observador exterior e de reflexos interiores.

Eu só consigo escrever quando estou triste, inquieta, sufocada, transformo minha dor em palavras, não consigo realizar o processo em questão quando estou feliz. Minha felicidade me torna livre demais para me prender no papel. No entanto, na minha tristeza consigo escrever sobre os períodos de felicidade perdidos, passados. Santa soletud. Santa morbidez.

No geral, escrever é buscar compreensão de nós, como seres humanos, por outros da nossa espécie, desejamos ser compreendidos, precisamos, e no entanto somos, quase sempre, mal interpretados, é a sina de quem tenta a comunição entre seres que ainda hoje pregam a vida como o bem máximo do ser humano, ao passo que faz-se guerra. Somos contradição.

(Bruna Alencar)

A história de um carnaval que queria perpetuar-se

ImageEla não foi acostumada a desistir e deixar as coisas em pedaços, em não correr, em não escolher. Se ela quer, ela faz tudo o que pode, vai até onde suas forças permitem, pode acabar por exaurir-se toda, mas não para, continuar mantém a vida. Ela é aquele tipo de pessoa que tem um fábrica louca de pensamentos, ações, ponderações e liberdades invisíveis. Ela solta seu coração, como o de um cão sedento, e esquece que não prender a si mesmo é muito mal visto em sociedade. Mas, para ela, soltar-se faz um bem inimaginável por dentro, a alma grita de alívio depois que ela vai até as últimas consequências do que desejou.

Ela sou eu. Ou eu sou ela. Ela está aqui dentro, e eu sou apenas uma telespectadora diante de toda essa insanidade. Mas, eu procuro ainda o racional, procuro entender o que apenas sentimos, por mais que alguns prefiram esconder. Dissimular parece tão comum, não é mesmo? mas ela não, eu não, eu prefiro a verdade, a verdade que assombra, a verdade que corta, a verdade que assusta e mostra o interesse de quem é um ser humano, e se sente vivo. E quer sentir-se vivo. Não basta apenas viver.

Então, em um dia, desses que o sol se esconde e a chuva vem calmamente saudar a terra, em um fim de tarde de um carnaval, as gotas de uma chuva branda vieram lamber meus braços, meu cabelo, meu sorriso de colombina. Não fui a única. Ele também estava lá, em algum lugar, sei que ele sentiu a água vinda do mesmo lugar, compartilhamos alguma coisa que ele não sabe – de fato – e que eu também não sei. Ele me encantou sem saber, com um sorriso de quem já viveu mais do que consegue demonstrar, de quem já sentiu mais do que transpareceu.

E, assim, eu fui atrás dele, fui atrás do terrorismo de viver na iminência de um sim ou um não. Fui viver a expectativa e aceitar a felicidade de não esconder. Não dissimularei, logo, aprendi que aceitar que os resultados fazem parte do jogo, em quaisquer que sejam as situações. Se eu gosto, se me encanta, se me envolve, eu não vou jogar com isso. Eu direi, ele vai saber. Por mais que eu não saiba como ele irá me ver após.

Falar quando se precisa é uma das melhores sensações dessa torpe vida. Se não der certo, se ele já possuir outra colombina em sua vida, eu me retiro. Se ele não gostar da minha fantasia, se o santo que ele carrega no semblante não bater com o meu, eu vou para longe com pés de algodão. Eu não vou fazer drama do que não aconteceu. Eu não tenho talento e tempo sentimental para escrever Máscaras, eu não sou um Menotti Del Picchia.

Mas, se ele me pede para ficar, ele terá o melhor de mim – o que não significa que não terá também o pior, eventualmente – ele terá uma pessoa devotada e leal, ele terá um soldado que não vai pisar em seu coração. Terá alguém que quer conhecer todas as partes do todo, da sua vida. Alguém disposta a compreender, a se desprender de espaços alheios e ocupar apenas um. Alguém que fará carinho em todo o seu corpo, em toda a sua alma. É só isso que eu posso prometer: cuidados com o amor, carinho e zelo e, indiscutivelmente, só posso oferecer a mim mesma. Para tudo que lhe for possível fazer com isso que oferto, estou aqui.

(Bruna Alencar)