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(…)

“- Pietá, tem mais algo para me dizer?

– Bom, Miguel, nós fizemos um trato, mas eu preciso admitir, não me saio bem com tratos, contratos e tudo que exija que eu fique estável, imóvel, me petrifique. Eu só sei fazer negócio com uma coisa, e essa coisa, pra mim, é o amor. Eu não quero assustar ninguém, eu só quero que você saiba em que barco está entrando. Esse barco nunca vai ficar muito tempo parado, mas sempre vai querer te levar junto. Não posso te oferecer segurança, mesmice, só posso te garantir que lugar aqui você sempre vai ter.

Miguel olhou em meus olhos e piscou por alguns segundos,  então ele me segurou pelos ombros e me puxou. Me deu o beijo mais faminto e terno que é possível se dar ao tentar conciliar o desejo com a pureza. Então ele me soltou, mirou minhas córneas e disse:

– Acabo de colocar meus dois pés nesse barco.” (…)

(Bruna Alencar em O MAR DO TEU CORPO)

O Manifesto do Sofrimento Ideológico

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Na maior parte do meu pequeno tempo que reconhece o presente, eu sinto que devo algo ao mundo, sinto que devo mudá-lo, devo buscar um novo tipo de visão, uma nova vertente de conhecimento, correr atrás de mostrar para o mundo que ele não precisa de tantos padrões, de tantos paradigmas. Todos os dias os meus pulmões estão doendo por tudo que eu não expirei. Todos os dias minha garganta se corta com tudo que ficou por dizer. Todos os dias, por tudo que deixei de gritar, minha voz se torna mais espessa. Todos os dias, por tudo que deixei de pôr no papel, minha mente sangra. Sangra. Sangra. E inunda tudo aquilo que eu penso que sou. Pintada de vermelho estou, estou banhada no vermelho, no meu sangue, de todas as revoluções que eu não fiz. Eu sou a história das revoluções sentimentais que me habitam. Eu sou a história das revoluções de quantificação, padronização, rotulação. Eu sou a história da revolta interna que tende a se exteriorizar.

Eu sou a revolução que esqueci de por no papel, mas estou aqui, pedindo desculpas, estou escrevendo de novo. Escrever é meu protesto. Sinto que nasci para ajudar o mundo a mudar, mas ainda sinto o efeito dos motivos pelos quais ele permanece o mesmo.

Tantas coisas habitam meu cérebro, tantas preocupações correm pelas minhas sinapses, tantos sentimentos sublimes nascem no meu interior, porém, continuo presa no que eu não consigo verbalizar. Boa parte de mim está nos pensamentos, ideias, detalhes que eu não consigo compartilhar com ninguém, são tão confusos, rápidos que passam por mim e não deixam que eu os solidifique. Eu sou o indizível. Eu sou o medo de ser tudo, ao passo que sou o medo de ser nada.

Eu sou o caminho, quem sabe, para algum lugar

Eu sou, quem sabe, o caminho para lugar nenhum

Eu sou, quem sabe, o abismo do não saber

Eu me vejo com os olhos de quem vê uma construção, pois sei que sou uma construção humana. Sou uma obra que nunca vai ser finalizada, assim, só posso perguntar a mim mesma: minhas bases são seguras?

Ao longo da minha eterna construção eu quero incitar novas formas de construir: o preconceito têm razão de existir já que somos essencialmente falhos? O amor, sentimento – e, por assim ser, segue o lado oposto da racionalidade – sublime só pelo fato de existir, deve ser padronizado, quantificado, ponderado? Os nossos discursos têm que ser limitados e lineares, mesmo que nosso pensamento todos os dias seja reformulado  e infinito? Eu, na minha ignorância de homem, só peço um pouco de fuga do que todos tentaram engessar como sendo saudável para mim, para todos.

 Porra, o saudável para mim não é ser tratado exclusivamente por bases da coletividade. O saudável para mim não é seguir os ditames de uma sociedade hipócrita e desprovida de real sentimentos, os sentimentos que essa sociedade aparenta ter são apenas fachada, servem apenas para não transparecer quão vazias a maioria das pessoas são. Não são sentimentos no real sentido de sentir. São o pequeno grande ato de dissimular.

O saudável, para mim, não é ditar qual é a opção sexual saudável para o outro. Eu sei de mim e outro sabe de si. O saudável, para mim, não é ver o outro sofrer violência física, moral e psicológica por não ser como ditam os que se consideram reis dessa “saúde’’. O saudável, para mim, não é limitar o amor e dizer o que ele precisa para ser amor. O saudável, para mim, não é impor posições sexuais, padrões para o prazer, níveis e dias para o sexo. O saudável, para mim, é a liberdade sobre o seu próprio corpo. O saudável para mim é o que me afasta da hipocrisia desse povo que condena, mas dentro de quatro paredes , faz; se diz livre de preconceitos, e interiormente amaldiçoa, libera preconceitos e vocifera ofensas contra os que não seguem a tal da “saúde” pública.

O saudável, para mim, é andar pela rua e não precisar presenciar um espancamento de um homem que, por gostar de outro homem,  não é considerado “saudável’’. Conceitos deturpados, não é mesmo, sociedade? Pra mim, ser saudável, ser são, é não sair por aí agredindo aqueles que destoam da maioria. Liberdade apenas em tese?

Eu espero que eu, de fato, não perca a esperança em mim, nas minhas crenças, e que quando, na morte eu vier viver, alguém não deixe morrer minhas convicções de hoje. Eu não estou bem, porém, saudável, de fato, pra mim, é não esquecer que existem pessoas que estão pior e que precisam apenas de uma mão, a mão da aceitação. Saudável, para mim, é não permanecer impassível, e, por conseguinte, conivente.

(Bruna Alencar)

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Admirando o Danúbio eu me confundi com as pedras, as pedras estavam atrevidas, no meu caminho e eu tive uma vontade enorme de gritar para o mundo as quimeras que habitam o meu cérebro. SAIAM, SAIAM, me deixem nua de tormentos e pensamentos pesados para uma garota tão pequena de corpo e grande de mente.

O Danúbio do meu sentimento era límpido, tinha um sorriso triste, como uma boca que quer falar mas não encontra as palavras, não encontra ouvidos. O Danúbio eu sentia por ter também um rio por dentro. Correndo, correndo, correndo sem direção, com um leito escondido até pra mim. O Danúbio eu sentia por ter uma mente insana, correndo 48 horas por dia. Uma mente inquieta, um coração denso demais para viver às parcelas de uma vida crua.

O Danúbio me convidava para uma visita. Quem sou eu então para não visitar o Danúbio? Calma, não sou ainda tão corajosa quando Virgínia Woolf e seu rio Tâmisa, acompanhada de um casaco e algumas pedras em seus bolsos. Minha visita ao Danúbio é ideologia, é poesia e é, antes de tudo, o dever de seguir o fluxo da minha loucura cotidiana.

São 4:00 da manhã e eu estou aqui, outra vez de encontro com o Danúbio. Suas margens sussurram meu nome de forma tão sedutora que eu não consigo formular nenhum pensamento coerente. Tiro os sapatos, tiro as roupas e dispo-me de preconceitos que nem sei que tenho, que todos nós temos – por mais limpos que sejamos – não posso macular este rio de vida. Fico nua de tudo, fico nua de mim e em mim. Deixo que as águas do Danúbio gracejem com minha pele branca e tímida. Deixo que as águas do Danúbio me afastem das convenções. E, de hoje em diante, eu viverei assim, sedenta por essa água. A água da liberdade que nunca será plena.

(prólogo de Bruna Alencar em A LOUCURA DAS HORAS VAGAS)

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Vivendo entre minhas paredes

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Vivendo entre minhas paredes / Me cortei  / Me perdi  / Me exilei / E / Exilei sua parte em mim

Vivendo entre minhas paredes /  Me sonhei / Me criei / Me abençoei / E / Abençoei a dor e segui

Vivendo entre minhas paredes / Me reformulei / Me reencontrei / Me beijei / E /  Beijei um novo  “se”

Vivendo entre minhas paredes / Senti a necessidade de quebrá-las /Senti a necessidade de viver fora das regras / Imponderavelmente / Senti a necessidade de arriscar meu / Coração / Senti a necessidade de amar outrem / Senti a necessidade de ser novamente eu / Eu, por outros braços / Eu, por outros beijos / Eu, por outro amor / Eu, insanamente eu, vivendo a derrota da calma / E louvando à perdição

Me perco e quero!

AH!

(Bruna Alencar)