A arte de viver um sonho

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Viver em um sonho é o mesmo que navegar por um mar de belezas e sofrimentos irreais. A arte de viver um sonho é ser abstrato e se aceitar. É querer mudar o mundo, mesmo sabendo que os homens são rígidos demais para se abrirem ao novo sem apedrejar o que pode ser bom para seus semelhantes.

Arte de viver um sonho é se aceitar num mundo tão doloroso e, mesmo assim, sorrir. A arte de viver é ser intenso demais. A arte de viver um sonho é enlouquecer trancada em casa enquanto a rua te grita, te chama, ao mesmo tempo que te repele.

A arte de viver um sonho é, mesmo, estando viva querer viver em ti, no teu beijo. No teu corpo. No teu gosto. A arte de viver um sonho é fazer sexo contigo e não e saber que a realidade se torna tão perfeita, que só pode ser um sonho. A arte de viver um sonho é beber sua saliva, nela mergulhar, dela emergir e ansiar por mais.

A parte de viver um sonho é querer sempre mais. E sobre essa eterna sofreguidão é que eu gostaria de falar, falar, até que acabem os sonhos (quiçá, antes, a vida) dessa arte irrequieta que é ser humano.

(Bruna Alencar)

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A crônica que não me convém

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O começo do relacionamento é, sem dúvida, uma fase deliciosa. Alguém novo, para nós, e nós, velhos e calejados de outros relacionamentos, vamos conhecendo um novo calo, novas farpas, novas manias, gostos, sonhos e poesias prediletas. A magia em conhecer alguém reside aí, nos fragmentos que as pessoas vão deixando em suas preferências, seus atos, seus sorrisos ou irritações. Descobrir o que afeta o outro é incrível, é como se estivéssemos descortinando alguém, uma alma que a nós se apresenta e decide ficar.

Heitor, um amigo, que namorou por três anos com a sua melhor amiga, uma vez me disse:

– Eu tenho saudade de descobrir detalhes em alguém

– Ora, faça amigos, seja menos retraído, vamos lá, posso te apresentar uma dúzia…

– Não são quaisquer detalhes, são detalhes íntimos, detalhes de casal, detalhes de quem decide ficar junto…

– E a Aninha? Vocês estão bem?

– Estamos bem, mas não sei até que ponto isso é bom.

– Como assim?

– Quando brigamos, sei exatamente o que ela vai falar, o sermão que ela vai fazer. Depois compreensiva, ela expalma as mãos na mesa, franze a testa e diz que perdoa, pois me ama e o amor deve ser maior que tudo.

– E isso não era pra ser bom?

– Era, mas não é! Depois desse discurso de utópico amor, me abraça, me beija lascivamente, morde três vezes minha orelha, fazemos “amor” na cama, de lado, e depois eu tenho de mexer no cabelo dela até que ela durma. No outro dia ela acorda, prende os cabelos, escuta sempre a mesma música de Chico Buarque enquanto toma banho, sempre por exatos quinze minutos, sabe exatamente o que vai vestir, come duas torradas com  um café preto sem nenhuma açúcar…

– É, ela é um pouco previsível, não é mesmo?

– Um pouco? É como se eu não tivesse mais o que descobrir, não tenho mais nada pra procurar nela. Os livros que ela lê são sempre romances docinhos que nem preciso ler para saber o final. Assistindo filme, ela dorme; Restaurantes? Sempre os mesmos. Marca das roupas? Sempre as mesmas, e olhe lá, ela não usa nada “sem marca”, Cabelo? Sempre impecável, maquiagem? Sempre perfeita. Nunca perde nem ganha peso, nunca sai da dieta, nunca se atrasa, nunca trepa, nunca fode, nunca faz sexo.

– Porra, cara, sua mulher é realmente muito presente para deixar espaço para que a imagem dela cresça, de alguma forma pra ti. Mas, de quê, especificamente você tem saudade?

– Eu tenho saudade de ter alguém que esteja viva e que demonstre isso.

Falando isso, Heitor olhou pra cima, como se recordasse alguém em especial, alguma parte do seu passado e, naquele momento, eu soube que ele nunca amara Aninha.

– Você tem alguém em mente?

– Eu tenho Helena, aquela nossa amiga da faculdade, eu não contei pra ninguém, mas nós namoramos dois anos, escondidos, os pais dela não gostavam de mim. Helena foi a mulher mais fascinante com a qual eu já estive, na cama? Ela me deixava sem fôlego apenas com papai e mamãe, e se eu queria outra posição ela fazia, me dava prazer de qualquer forma e também explodia em orgasmos. Helena nunca sabia que roupa vestir, a cama ficava entulhada de vestidos, saias e ela sempre acabava se decidindo pelos primeiros que havia provado. Aliás, ela nem se importava muito para roupas, afinal, como ela mesmo dizia “não importa se eu comprei na 25, em um brechó ou na loja mais cara da cidade, se eu gostar eu uso, se eu não gostar, eu queimo”. Helena escutava música estupidamente alta e tinha mania de dançar pelada, e os vizinhos que se fodessem, sozinhos.

Helena lia compulsivamente, Balzac, Hemingway, Jack Kerouac, Jack London, Saramago. Ela era uma doida, uma doida de dentro pra fora e crescia, crescia, crescia cada dia mais. Ela acordava com o cabelo bagunçado, tomava cerveja comigo e as vezes engordava, emagrecia, mas estava sempre lá, viva, alucinadamente pedindo mais, mais do que quer que fosse que a vida estivesse dando a ela.

– E que fim tomou Helena?

– O problema está aí, foi embora, recebeu um convite para ser crítica literária de uma revista literária que ela amava, ela se mudou e me chamou pra ir com ela, mas eu não fui, eu não conseguia me jogar na vida, como a vida se jogava em Helena. Helena não tomou fim, Helena ainda está aqui cara…

E falando isso ele deu algumas batidas fortes no peito com a mão em punho

– E por que você está com Aninha?

– Acho que foi pra provar pra mim mesmo que eu não era o único que hesitava diante da vida. Eu tive medo de seguir e por isso fiquei morando no caminho, tempo demais.

– Você está pretendendo terminar o relacionamento com Aninha?

– Não, deixa como está, muitas vezes estamos juntos, em casa, e a presença dela é comparável ao de um cãozinho, um peixinho de aquário, não influencia em nada…

– E você vai continuar em um relacionamento sem amor?

– As pessoas clamam demais por amor, mas a vida tem muitas outras coisas mais urgentes, menos dolorosas, menos escandalosas. O amor é um escândalo, Bruna. O amor é uma ilusão. Eu já tive o meu, e o meu seguiu, assim, só me resta alimentar o peixe no aquário lá de casa.

– Porra, boa sorte então, eu preferiria a morte à uma vida comedida, a uma vida de resignação…

E depois disso, brindamos, entornamos a cerveja e fomos para as nossas casas.

Antes de entrar no táxi, gritei para Heitor:

– Espero que a Helena, de alguma forma, ainda te acorde.

Heitor riu e balançou a cabeça negativamente.

Momentos como esses me fazem refletir até que ponto as pessoas devem aceitar o que aparece, o que convém. Eu preferiria a solidão à companhia de alguém mediano, algum tapa-buracos, apenas um preenchedor de faltas. Eu prefiro a ânsia, um prefiro o ódio, eu prefiro o real amor, eu prefiro me sentir vivo à me sentir conveniente. Heitor, ao contrário de mim, escolheu o que tinha por perto por não ter ter seguido o que ia pra longe, mesmo que quem a distância levasse, fosse o seu amor. Heitor se arrependeu e só encontrou consolo em Aninha, não viva às parcelas. Lamentarei por ele, o amor, sem dúvida, é um néctar que eu prefiro entornar, todos os dias, na vida, no sexo, no estudo, na leitura, na música, nos filmes. O amor, não apenas o romântico, o de casal, mas o amor no sentido de movimento, amor à mudança e amor à boca que beijo todos os dias. E como já diria Hilda Hilst “eu beijo na boca do hoje”.

Mais ou menos uns dois anos depois da conversa que tive com Heitor, fiquei sabendo por uma amiga nossa em comum que ele agora estava com uma “tal de Helena”.

(Bruna Alencar)

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Eu acredito no movimento do mundo, eu acredito no melhor do ser humano, eu acredito que os erros possam ser minorados. Eu acredito na chama que habita os olhos, eu acredito no cheiro dos corpos juntos, eu acredito nas bocas coladas e na respiração entrecortada. Eu acredito em plasil, eu acredito em noitadas com os amigos, eu acredito em líquidos alcoolicos, eu acredito no companheirismo. Eu acredito em um sorriso tímido, eu acredito em mãos dadas, eu acredito no olfato que quem reconhece um perfume, eu acredito nas lembraças causadas pelas sensações. Eu acredito no sentir, eu acredito no sentir até o limite da razão, eu acredito no sentir além da razão, eu acredito no que faz com que eu me sinta viva, eu acredito no que me tira o fôlego, que faz com que meus olhos transbordem. Eu acredito na carne, na alma, no limbo. Eu acredito que estamos no purgatório dos sentimentos, eu acredito em perseguir o que se quer. Eu acredito no que eu gosto, eu acredito em quem eu gosto. Eu acredito que vai dar certo, eu acredito que vou ficar contigo até o limite da minha sanidade e, depois, eu acredito que vamos juntos tirar as roupas e dançar um belíssimo tango argentino na cama. Eu acredito na estrada, nas estradas, no caminho que me leva para tudo o que me identifica. Eu acredito que te amo, e acreditando nisso – em vez de negar o sentimento – eu te amo mais um pouco todos os dias, eu amo genuínamente. Eu acredito em um pedido de silêncio, eu acredito na fome do mundo, na fome de mundo. Eu acredito na possibilidade de justiça, e eu acredito que mudaremos o que estiver ao nosso alcance. Eu acredito que nosso alcance aumente todos os dias. Eu acredito em corpos nus, eu acredito nas letras, eu acredito nos sonhos, eu acredito na pele. Eu acredito que não seremos apenas mais alguns que são. Eu acredito que não somos crenças vãs. Eu acredito que somos humanos, mas que, de vez em quando, podemos também ser deuses – e também podemos ser demônios -. Eu acredito que somos tão mais tudo, do que cabe no tudo. Eu acredito no momento.

(Bruna Alencar)

Trechos relavantes sobre a vida, ou sob…

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Quem somos?

Somos humanos no aspecto mais amplo da palavra, com todos as imperfeições, os fracassos, os amores, as paixões, os sentimentos, as trapaças, somos o complexo que abrange a ação e pensamentos humanos, e como já diria Terêncio “Nada do que é humano me é estranho’’, pois, assumir a visão – e afirmar – de que o ser humano é capaz das mais gloriosas construções, de produzir magníficas obras de arte, das maiores demonstração de bondade, de um real altruísmo, também deixa espaço para afirmar que ele pode assumir os piores referenciais que conhecemos, é capaz das maiores maldades, atrocidades, ganâncias e egoísmos em sua forma mais extremada. Que espécie de homem pinta o teto da Capela Sistina? O que move esse homem a tal façanha? Que espécie de homem é capaz de atear fogo em um mendigo que está dormindo? O que move esse homem a tal barbaridade?

O homem é a capacidade ilimitada, infinita, é a propensão para a imaginação e concretização das coisas mais extraordinárias, somos, ao meu ver, pensamento e somos ação.

Mas, além disso, não poderíamos ser mais? Ter algo que nos impulsionasse a vida, um componente propulsor, algo que nos incitasse a querer viver, nos seus aspectos mais abrangentes? Pra mim, podemos encontrar ao longo de nossas veredas, inúmeras formas de tornarmo-nos humanos em todas as suas facetas. Sentir nos humaniza. Somos paixão, somos amor, somos a vontade de conhecer o mundo, a filosofia, as pessoas, a natureza. Somos uma vontade de não parar, somos algo que nos põe em movimento. Somos também, além do pensamento e da ação, algo que não nos permite a apatia, algo que não nos permite parar. As paixões e os amores são os motivos pelos os quais a humanidade levanta-se de suas camas e faz as coisas mais belas .Os mais belos poemas, os mais belos projetos arquitetônicos, mas, a beleza não se restringe, é pela paixão e pelo amor que os professores se levantam de suas camas para dar as mais belas aulas, os médicos fazem operações consideradas praticamente impossíveis, ou, somente costuram um braço de um desconhecido – mas, que ao analisarmos bem, não é tão desconhecido, é parte essencial da obra do médico -, os garis varem suas ruas e deixam ainda mais visíveis as belezas das cidades. A vontade de pensar e realizar algo é o que torna a obra total bela. A vontade de exteriorizar o amor e a paixão que nos habitam é o que põe cor no mundo, é o que faz com quem o ser não seja levado à uma morte por estagnação.

No entanto, seguindo pelo caminho destrutivo, somos também ódio, rancor, somos também as piores maldades do mundo, somos capazes de atentar contra outra vida humana, desumanizamo-nos dessa maneira, somos o facultas agendi.

A apatia e a alienação são perigosas por transformar pessoas – cheias de potencialidades – em meros autômatos, consumidores de tudo, sem pensar no por quê de nada. As pessoas transformam –se em vivos – ou mortos – às parcelas, meros telespectadores de uma vida que deveria ser sua. A apatia e a alienação acabam por desconstruir o real sentido de ser – pensar, agir e querer, ter vontade.

Somos, então,o real desenvolvimento de nossas potencialidades, somos a possibilidade de conquistar, transformar, somos a possibilidade movimento. Não somos estáticos e a própria história da humanidade comprova isso.

Raskólnikov, personagem de Dostoiévski, no livro Crime e Castigo, em uma das suas inúmeras reflexões, trata da humanidade “Humanidade crápula, que se adapta a tudo”, mas, em seguida reitera “E se o homem não for, realmente, um crápula, quer dizer, se ele não o é, de modo geral? Então, é porque tudo o mais são preconceitos, receios vãos e não se deve parar diante do que quer que seja. Agir, eis o que é preciso”. A humanidade não seria, então, a ambiguidade? O homem pode ser santo e pode ser demônio, tudo depende do posicionamento diante do fato.

O homem é emoção. O homem envolve-se constantemente em um manto de emoção e sentimento, o homem quer sentir à todo custo, o homem que não sente é um vazio.  A expressão máxima da emoção e do sentimento é o êxtase, rompe-se barreiras da realidade e a emoção e sentimentos adensam-se, alcança-se um estado mental em que não se tem consciência nem de si mesmo,muito menos do mundo ao nosso redor.  O homem pode chegar ao êxtase de várias formas, uma das principais é quando o indivíduo fica absorto em uma tarefa que o dá prazer. Hitler entrava em êxtase quando escutava uma ópera de Richard Wagner, especialmente Tristão e Isolda, obra influenciado pela filosofia de Schopenhauer, é o que se pode notar por inúmeros relatos de seus amigos e até por relatos do próprio. Hitler tinha um pianista particular, Ernst Putzi, que só tocava músicas de Wagner, Putzi relatava “Eu devo ter tocado ‘Tristão e Isolda’ centenas de vezes. E nunca era suficiente. Ele sentia-se bem fisicamente ao ouvi-la e ria com prazer. Ele não parecia estar na Terra”. As óperas de Wagner são demoradas, e no entanto Hitler se gabava de ter ouvido Tristão e Isolda mais de cem vezes. É importante notar que o estado de êxtase transforma as pessoas, a Alemanha Nazista de Hitler tem muito da influência de Wagner.

Wagner também tinha idéias antissemitas e defendia-se quando questionado sobre o fato “O homem é fruto de seu tempo”, na época de Wagner, os judeus eram odiados na Alemanha. Ter idéias antissemitas era considerado normal. Tão normal de o nazismo de Hitler nasceria anos depois.

A música de Wagner é intensamente romântica, violenta, heróica, e de proporções míticas, exatamente as qualidades projetadas pelo Partido Nazista.  Wagner conta a história do povo alemão, em suas óperas,  sob o viés de mitos e esse era um dos muitos motivos pelos quais ele fascinava Hitler. As óperas de Wagner possuíam um efeito quase religioso sobre Hitler, a habilidade de Wagner para o drama e música dramática, sem dúvida, ressaltou o impacto das lendas já conhecidas de Hitler desde a juventude.

No entanto, a música de Wagner não se restringia a mitos, sua música um drama tão profundo e bem construído que acabava por revelar verdades e insights sobre o comportamento humano e as emoções. Wagner tinha a incrível habilidade de polarizar emoções. Em sua ópera, O anel do Nibelungo ele usa dessa emoção para atingir outras esferas, muitos psicólogos e psiquiatras  interpretam o anel como um olhar sobre a psique humana;  estudiosos da obra também levantam a bandeira de que foi também um meio de promover o socialismo, uma profecia sobre o destino do mundo e da humanidade, e uma “parábola” sobre a sociedade industrial que ascendia durante a vida de Wagner. Posteriormente O anel  foi usado pelo partido nazista para justificar e glorificar o racismo, para fornecer uma base de lealdade fanática na figura de Hitler. Hitler utilizou o seu motivo de êxtase para crescer pessoal e intelectualmente.

Atração de Adolf Hitler a música de Richard Wagner começou em tenra idade. Em 1905, com a idade de dezesseis anos, desde de então seus colegas já relatavam “A emotividade carregada na música parecia lhe servir como um meio de auto-hipnose, uma fantasia escapista”. Parece incontestável que Hitler chegava ao estado de êxtase pela música de Wagner. O êxtase faz bem ao ser humano, Hitler tornou-se um orador sagaz, perspicaz e com uma capacidade de convencimento fora do comum, ele transmitia tanta segurança e genialidade com a sua postura e discursos que ficar fora de sua área de influência tornou-se um desafio na Alemanha Nazista. Hitler tinha “aspirações gigantescas” como o próprio Wagner. Wagner tornou-se parte de Hitler.

Hitler visitou Wahnfried, a casa da família de Wagner, chegou até mesmo a visitar o túmulo de Wagner, profundamente comovido.Manteve também contato com a família de Wagner. Wagner tornou-se uma ferramenta até dos “bajuladores” de Hitler, Hitler sempre encontrava tempo para falar com alguém que trouxesse algo sobre uma ópera de Wagner.

A genialidade de Wagner é incontestável, Nietzsche costumava dizer “Para tudo confessar, a juventude não me teria sido suportável sem a música wagneriana. (…) Quando pretendemos libertar-nos de uma opressão intolerável, tomamos haxixe. Pois bem: eu tomei Wagner.”  – No entanto, Nietzsche, em seu último ano de lucidez (1888-18889), escreve o Livro Nietzsche contra Wagner ou o Caso Wagner, rompendo com esse último ideologicamente e criticando as escolhas do mesmo – Wagner foi o elemento propulsor de Hitler, mas Hitler não “nasceu’’ da divisão da genialidade de Wagner, “nasceu” sim, da sua multiplicação.

Quando o fim chegou para Hitler, ele não se rendeu, preferiu extinguir sua própria vida, preferiu escolher o final que para ele era heroico. Hitler viveu a sua fantasia até o fim, viveu o fim como em uma cena de ópera. Os efeitos psicológicos da música de Wagner sobre o Terceiro Reich são igualmente notáveis e grandiosos, basta procurar. Hitler foi o êxtase do êxtase inicial de Wagner ao compor suas óperas, Hitler e Wagner foram loucos e foram gênios, pois, como defende o psicólogo, também Alemão, Hans J. Eysenck “Há uma ligação entre a insanidade e a genialidade”.

Já que somos emoção, sentimento e o êxtase pode ser visto como uma expressão suprema dessas, podemos dizer que somos também o próprio êxtase.

Somos mais do que seres que morrem um pouco a cada dia de vida, somos mais do que seres que caminham para o fim fatídico. Somos o tempo para perpetuarmo-nos.

Sartre, no livro O Existencialismo é um Humanismo, diz “As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade pagã – ou senhor feudal ou proletário –  Mas o que não varia é a necessidade para ele de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e se ser mortal.’’ O homem é, também, a necessidade de interação.

Somos à priori, ao meu ver, ambiguidade, o êxtase, necessidade de interação, mudança, pensamento, ação e vontade, a mais pura vontade para mover o mundo.

(Trecho de um trabalho de filosofia de Bruna Alencar)