Trechos relavantes sobre a vida, ou sob…

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Quem somos?

Somos humanos no aspecto mais amplo da palavra, com todos as imperfeições, os fracassos, os amores, as paixões, os sentimentos, as trapaças, somos o complexo que abrange a ação e pensamentos humanos, e como já diria Terêncio “Nada do que é humano me é estranho’’, pois, assumir a visão – e afirmar – de que o ser humano é capaz das mais gloriosas construções, de produzir magníficas obras de arte, das maiores demonstração de bondade, de um real altruísmo, também deixa espaço para afirmar que ele pode assumir os piores referenciais que conhecemos, é capaz das maiores maldades, atrocidades, ganâncias e egoísmos em sua forma mais extremada. Que espécie de homem pinta o teto da Capela Sistina? O que move esse homem a tal façanha? Que espécie de homem é capaz de atear fogo em um mendigo que está dormindo? O que move esse homem a tal barbaridade?

O homem é a capacidade ilimitada, infinita, é a propensão para a imaginação e concretização das coisas mais extraordinárias, somos, ao meu ver, pensamento e somos ação.

Mas, além disso, não poderíamos ser mais? Ter algo que nos impulsionasse a vida, um componente propulsor, algo que nos incitasse a querer viver, nos seus aspectos mais abrangentes? Pra mim, podemos encontrar ao longo de nossas veredas, inúmeras formas de tornarmo-nos humanos em todas as suas facetas. Sentir nos humaniza. Somos paixão, somos amor, somos a vontade de conhecer o mundo, a filosofia, as pessoas, a natureza. Somos uma vontade de não parar, somos algo que nos põe em movimento. Somos também, além do pensamento e da ação, algo que não nos permite a apatia, algo que não nos permite parar. As paixões e os amores são os motivos pelos os quais a humanidade levanta-se de suas camas e faz as coisas mais belas .Os mais belos poemas, os mais belos projetos arquitetônicos, mas, a beleza não se restringe, é pela paixão e pelo amor que os professores se levantam de suas camas para dar as mais belas aulas, os médicos fazem operações consideradas praticamente impossíveis, ou, somente costuram um braço de um desconhecido – mas, que ao analisarmos bem, não é tão desconhecido, é parte essencial da obra do médico -, os garis varem suas ruas e deixam ainda mais visíveis as belezas das cidades. A vontade de pensar e realizar algo é o que torna a obra total bela. A vontade de exteriorizar o amor e a paixão que nos habitam é o que põe cor no mundo, é o que faz com quem o ser não seja levado à uma morte por estagnação.

No entanto, seguindo pelo caminho destrutivo, somos também ódio, rancor, somos também as piores maldades do mundo, somos capazes de atentar contra outra vida humana, desumanizamo-nos dessa maneira, somos o facultas agendi.

A apatia e a alienação são perigosas por transformar pessoas – cheias de potencialidades – em meros autômatos, consumidores de tudo, sem pensar no por quê de nada. As pessoas transformam –se em vivos – ou mortos – às parcelas, meros telespectadores de uma vida que deveria ser sua. A apatia e a alienação acabam por desconstruir o real sentido de ser – pensar, agir e querer, ter vontade.

Somos, então,o real desenvolvimento de nossas potencialidades, somos a possibilidade de conquistar, transformar, somos a possibilidade movimento. Não somos estáticos e a própria história da humanidade comprova isso.

Raskólnikov, personagem de Dostoiévski, no livro Crime e Castigo, em uma das suas inúmeras reflexões, trata da humanidade “Humanidade crápula, que se adapta a tudo”, mas, em seguida reitera “E se o homem não for, realmente, um crápula, quer dizer, se ele não o é, de modo geral? Então, é porque tudo o mais são preconceitos, receios vãos e não se deve parar diante do que quer que seja. Agir, eis o que é preciso”. A humanidade não seria, então, a ambiguidade? O homem pode ser santo e pode ser demônio, tudo depende do posicionamento diante do fato.

O homem é emoção. O homem envolve-se constantemente em um manto de emoção e sentimento, o homem quer sentir à todo custo, o homem que não sente é um vazio.  A expressão máxima da emoção e do sentimento é o êxtase, rompe-se barreiras da realidade e a emoção e sentimentos adensam-se, alcança-se um estado mental em que não se tem consciência nem de si mesmo,muito menos do mundo ao nosso redor.  O homem pode chegar ao êxtase de várias formas, uma das principais é quando o indivíduo fica absorto em uma tarefa que o dá prazer. Hitler entrava em êxtase quando escutava uma ópera de Richard Wagner, especialmente Tristão e Isolda, obra influenciado pela filosofia de Schopenhauer, é o que se pode notar por inúmeros relatos de seus amigos e até por relatos do próprio. Hitler tinha um pianista particular, Ernst Putzi, que só tocava músicas de Wagner, Putzi relatava “Eu devo ter tocado ‘Tristão e Isolda’ centenas de vezes. E nunca era suficiente. Ele sentia-se bem fisicamente ao ouvi-la e ria com prazer. Ele não parecia estar na Terra”. As óperas de Wagner são demoradas, e no entanto Hitler se gabava de ter ouvido Tristão e Isolda mais de cem vezes. É importante notar que o estado de êxtase transforma as pessoas, a Alemanha Nazista de Hitler tem muito da influência de Wagner.

Wagner também tinha idéias antissemitas e defendia-se quando questionado sobre o fato “O homem é fruto de seu tempo”, na época de Wagner, os judeus eram odiados na Alemanha. Ter idéias antissemitas era considerado normal. Tão normal de o nazismo de Hitler nasceria anos depois.

A música de Wagner é intensamente romântica, violenta, heróica, e de proporções míticas, exatamente as qualidades projetadas pelo Partido Nazista.  Wagner conta a história do povo alemão, em suas óperas,  sob o viés de mitos e esse era um dos muitos motivos pelos quais ele fascinava Hitler. As óperas de Wagner possuíam um efeito quase religioso sobre Hitler, a habilidade de Wagner para o drama e música dramática, sem dúvida, ressaltou o impacto das lendas já conhecidas de Hitler desde a juventude.

No entanto, a música de Wagner não se restringia a mitos, sua música um drama tão profundo e bem construído que acabava por revelar verdades e insights sobre o comportamento humano e as emoções. Wagner tinha a incrível habilidade de polarizar emoções. Em sua ópera, O anel do Nibelungo ele usa dessa emoção para atingir outras esferas, muitos psicólogos e psiquiatras  interpretam o anel como um olhar sobre a psique humana;  estudiosos da obra também levantam a bandeira de que foi também um meio de promover o socialismo, uma profecia sobre o destino do mundo e da humanidade, e uma “parábola” sobre a sociedade industrial que ascendia durante a vida de Wagner. Posteriormente O anel  foi usado pelo partido nazista para justificar e glorificar o racismo, para fornecer uma base de lealdade fanática na figura de Hitler. Hitler utilizou o seu motivo de êxtase para crescer pessoal e intelectualmente.

Atração de Adolf Hitler a música de Richard Wagner começou em tenra idade. Em 1905, com a idade de dezesseis anos, desde de então seus colegas já relatavam “A emotividade carregada na música parecia lhe servir como um meio de auto-hipnose, uma fantasia escapista”. Parece incontestável que Hitler chegava ao estado de êxtase pela música de Wagner. O êxtase faz bem ao ser humano, Hitler tornou-se um orador sagaz, perspicaz e com uma capacidade de convencimento fora do comum, ele transmitia tanta segurança e genialidade com a sua postura e discursos que ficar fora de sua área de influência tornou-se um desafio na Alemanha Nazista. Hitler tinha “aspirações gigantescas” como o próprio Wagner. Wagner tornou-se parte de Hitler.

Hitler visitou Wahnfried, a casa da família de Wagner, chegou até mesmo a visitar o túmulo de Wagner, profundamente comovido.Manteve também contato com a família de Wagner. Wagner tornou-se uma ferramenta até dos “bajuladores” de Hitler, Hitler sempre encontrava tempo para falar com alguém que trouxesse algo sobre uma ópera de Wagner.

A genialidade de Wagner é incontestável, Nietzsche costumava dizer “Para tudo confessar, a juventude não me teria sido suportável sem a música wagneriana. (…) Quando pretendemos libertar-nos de uma opressão intolerável, tomamos haxixe. Pois bem: eu tomei Wagner.”  – No entanto, Nietzsche, em seu último ano de lucidez (1888-18889), escreve o Livro Nietzsche contra Wagner ou o Caso Wagner, rompendo com esse último ideologicamente e criticando as escolhas do mesmo – Wagner foi o elemento propulsor de Hitler, mas Hitler não “nasceu’’ da divisão da genialidade de Wagner, “nasceu” sim, da sua multiplicação.

Quando o fim chegou para Hitler, ele não se rendeu, preferiu extinguir sua própria vida, preferiu escolher o final que para ele era heroico. Hitler viveu a sua fantasia até o fim, viveu o fim como em uma cena de ópera. Os efeitos psicológicos da música de Wagner sobre o Terceiro Reich são igualmente notáveis e grandiosos, basta procurar. Hitler foi o êxtase do êxtase inicial de Wagner ao compor suas óperas, Hitler e Wagner foram loucos e foram gênios, pois, como defende o psicólogo, também Alemão, Hans J. Eysenck “Há uma ligação entre a insanidade e a genialidade”.

Já que somos emoção, sentimento e o êxtase pode ser visto como uma expressão suprema dessas, podemos dizer que somos também o próprio êxtase.

Somos mais do que seres que morrem um pouco a cada dia de vida, somos mais do que seres que caminham para o fim fatídico. Somos o tempo para perpetuarmo-nos.

Sartre, no livro O Existencialismo é um Humanismo, diz “As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade pagã – ou senhor feudal ou proletário –  Mas o que não varia é a necessidade para ele de estar no mundo, de lutar, de viver com os outros e se ser mortal.’’ O homem é, também, a necessidade de interação.

Somos à priori, ao meu ver, ambiguidade, o êxtase, necessidade de interação, mudança, pensamento, ação e vontade, a mais pura vontade para mover o mundo.

(Trecho de um trabalho de filosofia de Bruna Alencar)

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