A crônica que não me convém

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O começo do relacionamento é, sem dúvida, uma fase deliciosa. Alguém novo, para nós, e nós, velhos e calejados de outros relacionamentos, vamos conhecendo um novo calo, novas farpas, novas manias, gostos, sonhos e poesias prediletas. A magia em conhecer alguém reside aí, nos fragmentos que as pessoas vão deixando em suas preferências, seus atos, seus sorrisos ou irritações. Descobrir o que afeta o outro é incrível, é como se estivéssemos descortinando alguém, uma alma que a nós se apresenta e decide ficar.

Heitor, um amigo, que namorou por três anos com a sua melhor amiga, uma vez me disse:

– Eu tenho saudade de descobrir detalhes em alguém

– Ora, faça amigos, seja menos retraído, vamos lá, posso te apresentar uma dúzia…

– Não são quaisquer detalhes, são detalhes íntimos, detalhes de casal, detalhes de quem decide ficar junto…

– E a Aninha? Vocês estão bem?

– Estamos bem, mas não sei até que ponto isso é bom.

– Como assim?

– Quando brigamos, sei exatamente o que ela vai falar, o sermão que ela vai fazer. Depois compreensiva, ela expalma as mãos na mesa, franze a testa e diz que perdoa, pois me ama e o amor deve ser maior que tudo.

– E isso não era pra ser bom?

– Era, mas não é! Depois desse discurso de utópico amor, me abraça, me beija lascivamente, morde três vezes minha orelha, fazemos “amor” na cama, de lado, e depois eu tenho de mexer no cabelo dela até que ela durma. No outro dia ela acorda, prende os cabelos, escuta sempre a mesma música de Chico Buarque enquanto toma banho, sempre por exatos quinze minutos, sabe exatamente o que vai vestir, come duas torradas com  um café preto sem nenhuma açúcar…

– É, ela é um pouco previsível, não é mesmo?

– Um pouco? É como se eu não tivesse mais o que descobrir, não tenho mais nada pra procurar nela. Os livros que ela lê são sempre romances docinhos que nem preciso ler para saber o final. Assistindo filme, ela dorme; Restaurantes? Sempre os mesmos. Marca das roupas? Sempre as mesmas, e olhe lá, ela não usa nada “sem marca”, Cabelo? Sempre impecável, maquiagem? Sempre perfeita. Nunca perde nem ganha peso, nunca sai da dieta, nunca se atrasa, nunca trepa, nunca fode, nunca faz sexo.

– Porra, cara, sua mulher é realmente muito presente para deixar espaço para que a imagem dela cresça, de alguma forma pra ti. Mas, de quê, especificamente você tem saudade?

– Eu tenho saudade de ter alguém que esteja viva e que demonstre isso.

Falando isso, Heitor olhou pra cima, como se recordasse alguém em especial, alguma parte do seu passado e, naquele momento, eu soube que ele nunca amara Aninha.

– Você tem alguém em mente?

– Eu tenho Helena, aquela nossa amiga da faculdade, eu não contei pra ninguém, mas nós namoramos dois anos, escondidos, os pais dela não gostavam de mim. Helena foi a mulher mais fascinante com a qual eu já estive, na cama? Ela me deixava sem fôlego apenas com papai e mamãe, e se eu queria outra posição ela fazia, me dava prazer de qualquer forma e também explodia em orgasmos. Helena nunca sabia que roupa vestir, a cama ficava entulhada de vestidos, saias e ela sempre acabava se decidindo pelos primeiros que havia provado. Aliás, ela nem se importava muito para roupas, afinal, como ela mesmo dizia “não importa se eu comprei na 25, em um brechó ou na loja mais cara da cidade, se eu gostar eu uso, se eu não gostar, eu queimo”. Helena escutava música estupidamente alta e tinha mania de dançar pelada, e os vizinhos que se fodessem, sozinhos.

Helena lia compulsivamente, Balzac, Hemingway, Jack Kerouac, Jack London, Saramago. Ela era uma doida, uma doida de dentro pra fora e crescia, crescia, crescia cada dia mais. Ela acordava com o cabelo bagunçado, tomava cerveja comigo e as vezes engordava, emagrecia, mas estava sempre lá, viva, alucinadamente pedindo mais, mais do que quer que fosse que a vida estivesse dando a ela.

– E que fim tomou Helena?

– O problema está aí, foi embora, recebeu um convite para ser crítica literária de uma revista literária que ela amava, ela se mudou e me chamou pra ir com ela, mas eu não fui, eu não conseguia me jogar na vida, como a vida se jogava em Helena. Helena não tomou fim, Helena ainda está aqui cara…

E falando isso ele deu algumas batidas fortes no peito com a mão em punho

– E por que você está com Aninha?

– Acho que foi pra provar pra mim mesmo que eu não era o único que hesitava diante da vida. Eu tive medo de seguir e por isso fiquei morando no caminho, tempo demais.

– Você está pretendendo terminar o relacionamento com Aninha?

– Não, deixa como está, muitas vezes estamos juntos, em casa, e a presença dela é comparável ao de um cãozinho, um peixinho de aquário, não influencia em nada…

– E você vai continuar em um relacionamento sem amor?

– As pessoas clamam demais por amor, mas a vida tem muitas outras coisas mais urgentes, menos dolorosas, menos escandalosas. O amor é um escândalo, Bruna. O amor é uma ilusão. Eu já tive o meu, e o meu seguiu, assim, só me resta alimentar o peixe no aquário lá de casa.

– Porra, boa sorte então, eu preferiria a morte à uma vida comedida, a uma vida de resignação…

E depois disso, brindamos, entornamos a cerveja e fomos para as nossas casas.

Antes de entrar no táxi, gritei para Heitor:

– Espero que a Helena, de alguma forma, ainda te acorde.

Heitor riu e balançou a cabeça negativamente.

Momentos como esses me fazem refletir até que ponto as pessoas devem aceitar o que aparece, o que convém. Eu preferiria a solidão à companhia de alguém mediano, algum tapa-buracos, apenas um preenchedor de faltas. Eu prefiro a ânsia, um prefiro o ódio, eu prefiro o real amor, eu prefiro me sentir vivo à me sentir conveniente. Heitor, ao contrário de mim, escolheu o que tinha por perto por não ter ter seguido o que ia pra longe, mesmo que quem a distância levasse, fosse o seu amor. Heitor se arrependeu e só encontrou consolo em Aninha, não viva às parcelas. Lamentarei por ele, o amor, sem dúvida, é um néctar que eu prefiro entornar, todos os dias, na vida, no sexo, no estudo, na leitura, na música, nos filmes. O amor, não apenas o romântico, o de casal, mas o amor no sentido de movimento, amor à mudança e amor à boca que beijo todos os dias. E como já diria Hilda Hilst “eu beijo na boca do hoje”.

Mais ou menos uns dois anos depois da conversa que tive com Heitor, fiquei sabendo por uma amiga nossa em comum que ele agora estava com uma “tal de Helena”.

(Bruna Alencar)

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