O ser que não é

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Sou a beleza na desordem. Sou a falta de métrica. Sou o verso livre, verso branco, verso maculado, verso que grita, verso que pede, pede, pede e quer mais de si, de mim e de todos os transeuntes.

Sou a gula, sou aqueles desejos, aqueles que começam aos poucos, aqueles que começam com parcelas baratas e vão ficando caras, pesadas, urgentes. Sou aquele desejo pungente, aqueles desejos que ninguém parece admitir ter, eu sou o secreto. Eu sou tua boca sacana me escondendo em promessas de um amor intenso, suculento.

Sou a capacidade de me por louca ao longo de um dia fatigante, louca por tantos e em tantos afazeres. Louca em ocupações tão triviais, louca por uma rotina que nunca existe, só se planeja. Louca por não conseguir seguir nos trilhos, louca, louca, louca. Loucamente solitária nesses dias tão corridos.

Afinal, sou minha vida, e esta vida aqui parece ter sido esquecida nos extremos de uma alma solitária. SOS! Eu sou demais para mim mesma, eu sou demais para qualquer quantificação e se muitas vezes me comporto tão racionalmente, pareço normal externamente, é pelo fato do meu interior abrigar muito mais, máquinas trabalham, engrenagens são lubrificadas. Lubrificadas eternamente por uma mente que não deixa escapar um parafuso sequer. Eu sou o que vejo, e  o que eu vejo você não vê.

Sou os extremos.  Sou aquela que segue de acordo com o ritmo da melodia que está começando a ser musicada para o piano.  Sou aquela que no meio da música puxa um mambo, um tango, um beijo, um movimento inusitado, um olhar furioso. Sou aquela que prefere ver a beleza em todos os ritmos, sou aquela que dança por dentro e por fora sente A Vontade.

Eu sou a ÂNSIA. ÂNSIA. Por ti, pelo teu tatear na tatuagem que eu não tenho, pelo meu tato em teu torso, pela tua saliva. Pelo teu corpo. Pela tua vida. Pelo seu sangue. Pela tua palavra. Sou a sede por tudo que nunca me apresentarão no cálice dessa vida fragmentada. Eu sou um novo conceito que vocês se recusam a aceitar. Eu sou o novo no meio que anciãos. Eu sou o que eu escolher por dentro. Eu sou apenas mais uma ridícula. Eu sou apenas mais uma utopia. Eu sou uma vontade. Eu sou uma possibilidade.

Eu sou o começo do que eu gostaria de me tornar. Eu sou nada.

E eu só tenho o nada a oferecer.

E dessa nada brotam lágrimas doces, do doce de quem já deixou que fosse. Vá!

(POESIA PROSEADA, VIDA ROMANCEADA – Bruna Alencar)

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Eu Em Mim

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Me vejo meio longe de ti

Meio assim, idílica demais

Meio insólita, meio nua

Meio high, meio down

Me vejo em um mar e teus olhos são

As ondas

As ondas

Vêm, vêm, vão, vêm

Me vejo entre garrafas

Me vejo sedenta e te vejo água

Me vejo irritada e te vejo carícia

Beija

Beija

Meus pés, minhas costas salgadas

Me vejo nessa praia

Me vejo com os cabelos voando

Me vejo com os cabelos devorados

Pelo teu desejo

Pelo, teu desejo

Pelo teu, desejo

Me vejo cantando em um idioma desconhecido

Me vejo pelas tuas pernas, tão esquecido

Me vejo aqui e me vejo indo

Hoje não vou mais ser o que você espera que eu seja

Hoje não vou mais fazer o que você espera que eu faça

Hoje eu te quero

Mas eu me vou

Eu vou porque, hoje sim

Eu me vejo.

(Bruna Alencar)

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Crava em mim
Crava no meu peito
Crava na minha carne
Tão sua
Tão sua
Crava nos teus lábios
Crava na tua memória
Crava meu desprezo
Tão crua
Tão crua
Crava-te longe, de forma suspeita
Crava-te horizonte
Crava-te e vai
Tão nua
Tão nua

Cavei e achei um Cravo em mim
Cravejei-me de ti e cometi um crime
Tão fria
Tão fria

(Bruna Alencar)

Nota sobre ELAS

ImageAs palavras, mais do que tudo que me toca, me surpreendem. Me surpreendem por me eternizarem em um eu que eu já não sou mais. Eu me relembro pelas coisas que eu escrevi e sei, de uma forma falha, que já não sou o que eu escrevi. Eu já não sou quem eu era a uma hora atrás, eu sou transitória, as palavras são permanentes. E, se tudo passa, e, elas, só elas, tão magnânimas, imponentes, firmam minha imagem em um determinado momento, eu não esquecerei do que fui. As palavras são o auxílio da memória, as palavras são a transcrição de mim, de inúmeros eus.

As palavras são o meio, eu sou o fim.

(Bruna Alencar)