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A essa hora minha rua parece um cemitério, um vazio de corpos e movimentos, mas consegue ter uma beleza sufocante. A beleza do que se julga conhecer. A beleza do que sempre esteve próximo e só se enxerga com muita dificuldade, muito bater de pálpebras. Teve uma época da minha vida que eu achei que nada do que era familiar me traria felicidade, quis correr, quis me mudar, quis me afastar. Procurei a felicidade no distante quando eu sabia exatamente onde encontrar.

Topo. Lugar que sempre almejei. De certa forma consegui. Estou no topo do mais antigo prédio histórico de minha cidade, que não está perto de ser grande, mas é minha. Me sento e coloco as pernas para fora do telhado. Talvez alguém passe com seu modelo de carro importado lúdico e ache que sou um cadáver, uma perna de uma criatura esquartejada. Não de todo errado.

Posso ver o céu, limpo, escuro, impassível. Posso ver outros telhados, telhados de várias tonalidades, telhados desbotados pelo sol, telhados recém tecidos, telhados duros, telhados errantes e até telhados sem telhados. Uma das coisas que mais gosto em minha cidade são seus telhados e suas variações de tom dentro do laranja, amarelo, marrom. As cidades hoje são muito impessoais, muito padronizadas. Essa quebra daqui me faz sentir algo bom. Eu poderia passar todas as noites da minha vida nestes telhados.

(Bruna Alencar em TELHADOS)

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