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ASSIM

ImagemMe beijes no ato do toque a falar do par em ti
Me beijes com candura quando o sol surgir
E me lave no teu suor antes de ousar partir
Sejas profana, tal como te revivi

Busques consolo na dor que já sorri
Busques meus olhos, mansos, não te verão ruir
Fique nua de dores herdadas, longe de si
Sejas meu desejo, pungente, a fluir

Beijes, vejas, busques, sintas, sejas em mim.
Amar-te-ei por tudo, em tudo, todo, sem fim.

(Bruna Alencar em Primeiras Poesias)

                                                                                    

 

A LEVEZA DO MEU SER NO TEU – SER –

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Eu tinha escolhido não escolher. Eu tinha escolhido todos os satélites naturais, artificiais e a imensidão do céu para me sentir livre. Escolhi livros. Filmes. Álcool. Bocas e bares. Disse, em alto e prazeroso som, que só assim – não sendo de ninguém, apenas minha e dessa vil galáxia – eu descobriria a liberdade de fato. De ato. De cor.

A liberdade eu quis e, de forma pueril, fechei os olhos para sentir o vento e esqueci de abri-los. Julguei que não veria – e haveria – mais dor e desilusões se de olhos fechados eu permanecesse. A liberdade que eu julgava conhecer era deveras cega. Eu julguei a liberdade como um Marechal julga um preso político. Eu julgava a liberdade como a ausência de apego. Eu julgava a liberdade muito mais como um ideal, do que como um sentimento.

Eu, cega, habitante da Caverna, me julgava observadora.

Eu, habitualmente habitual, desconsiderei uma liberdade menos ocidental.

Eu, débil, deixava a mim, deixava minha voz morrer.

Engasgava-me com o que eles receitavam

Sorvia a liberdade deles e queimava

Queimava de dentro pra fora

De mente pra pele. Demente.

Parei então, e pela pressão das flamas. Vi. Vi. Behing brown eyes.

Vi que a liberdade é individual, pessoal e imoral (ou moral). Vi que o que os outros chamavam de liberdade, sempre identifiquei como prisão.

Prisão nos corpos dos outros

Prisão do sexo desconhecido

Prisão nos pelos que não prezo

A Prisão Da Falta de Amor

Parei e então tomei de lição que, o amor, quando é pouco, vira dor. E o amor, quando não existe, vira prisão. O que os outros, muitas vezes, declaram como o certo, não passa de cegueira coletiva.

Fez-se então a minha luz

E você apareceu

Pensar em ti é fácil. O difícil é transcrever essa dor que fica quando sua ausência chega. Se você soubesse o mal que me faz quando tira seus olhos de cima dos meus, os deixaria comigo ou não se atreveria a ir embora.

Estou leve, tão lépida, tão cálida

E tão pronta pra você.

(POESIA PROSEADA, VIDA ROMANCEADA – BRUNA ALENCAR)

Muito mais do que aparento

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Para ele eu pareço ter passado, mas não vou engolir minhas verdades e gritar às esquinas que ele passou em mim. Ele permanece. Ele permanecerá até o fim dos meus invernos. Não consigo fingir força onde só existe uma fraqueza desmedida. Mas é importante lembrar que essa fraqueza, hoje, me faz sorrir. Me lembra que eu sou humana, “não sois máquina, homem é o que sois” diria, talvez essa dor intermitente sirva exatamente por isso, para sempre doer, de forma pura e presente, de forma idílica e real, de forma a me mostrar que do sofrimento eu não  posso fugir.

Eu aceito a seringa em minhas veias, eu aceito as picadas, os braços moles, frouxos, pendentes, os braços roxos. Minha droga foi você, é você, e eu continuarei tomando doses cavalares de ti. Mesmo que hoje eu não faça alarde. Doses intravenosas, orais, sexuais, mentais, viscerais. Você foi o primeiro, o pioneiro nisso de me fazer sentir. E nisso você foi bom, tão bom que eu não consigo pular do barco. Mas decidi navegar para o lado oposto, atracar em cais estrangeiros, em beber de águas amargas, em dançar tangos mexicanos. Eu decidi seguir pela mão mais inusitada, eu decidi ocupar minha vida com pessoas loucas, com horas corridas, com pouco sono, com pouca vida e pouco álcool, para que, quem sabe assim eu esqueça da embriaguez dos teus beijos, da loucura no nosso cheiro e a insônia nos nossos corpos. Eu escolhi chupar tudo e engolir muito pouco. Poucas pessoas, poucos livros, poucos acontecimentos, poucos sorrisos e principalmente poucos sentimentos.

O fato de não mais trocarmos cartas não me fere mais, sequer chega a me arranhar. Não saber se o seu endereço é o mesmo, se seus interesses e seu mau humor ainda é como antes, se suas sobrancelhas ainda são grossas e raivosas, se sua maneira de punição ainda é o sexo, se teu sorriso continua escondido, se você continua fugindo de aglomerações, se você é o mesmo que se apresentou a mim – com tantos defeitos e qualidades tão secretas e instigantes -, não saber te torna uma imagem pra mim, uma figura incompreensível, uma esfinge, uma personagem de fazia parte do meu principal sonho recorrente.

Eu escrevo sobre muitas coisas, mas as mais verdadeiras possuem você. Aliás, acho que todas as letras que saem de mim possuem você, mesmo que indiretamente, mesmo que eu nem chegue a lembrar expressamente de ti enquanto escrevo. Mas você é como uma crosta, como uma parte de mim, da qual muitas vezes eu não tenho consciência. É como se fosse minhas vértebras enquanto eu mexo os dedos. Você está ali, atuando em mim, e eu só tenho consciência dos movimentos dos dedos. Mas sempre há mais por trás de tudo que supomos conhecer. Por trás de mim existe um você que eu não sei se mudou, no entanto sei que me marcou e se replicou em mim, uma cópia perfeita daquele você naqueles dias, naqueles anos.

Músicas, gritos, dores, lágrimas, medo. Uma bolha insustentável, uma bolha que de tão pesada não poderia ter outro destino senão o rompimento. Rompeu-se. Cai de dentro da bolha direto em uma destino que eu nunca vislumbrei, mas pelo qual hoje eu sou grata, ainda mais por estar longe, fisicamente, de ti. Prefiro a tua imagem à tua presença.

A lógica do grande amor não é real, ou melhor, não deve ser real. O grande amor machuca demais para que não seja repelido, para que sustente-se na realidade. No cotidiano. Não, o grande amor fenece diante de tantas trivialidades.

Levo você comigo até à eternidade, sua imagem pesa menos que tuas tristezas, teu tesão por problemas e que a nossa combinação de almas atormentadas e alcoólicas. Segue, eu estou seguindo, com minhas ideias, lágrimas e vícios. Um deles é a sua presença em minhas arestas.

(Primeiras Memórias Doloridas – Bruna Alencar)

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Dear Túlio,

Estou escrevendo pela milésima vez, o carteiro diz que você mudou de casa, mas eu continuo escrevendo para o mesmo endereço, temo que tudo não passe de uma conspiração dos correios para me impedir de te dizer palavras tão perigosas.

Eu sonhei com você e sinto que há uma mensagem muito maior nisso tudo, posso decifrar pelos inúmeros livros de Freud que eu comprei e nunca li, mas talvez a interpretação dos sonhos seja muito rasa para traduzir a dor e a mensagem que meus sonhos têm em você.

Sonhei que estávamos em um desses cinemas abertos dos anos 70, um cinema em um quintal, um filme projetado em um lençol branco, um filme que nos fazia chorar e fitar as íris molhadas um do outro. Sonhei que você dizia muita coisa, me cobria de frases e pensamentos, me fazia confissões que sempre te sufocaram, mas sequer abria a boca. Era como uma conexão invisível, como se tudo que te apodrecesse entrasse em mim e, em mim, tivesse o efeito contrário, eu acabei florescendo, crescendo como uma macieira bem regada e com sol o suficiente. Acabei crescendo, expandindo de tal forma que meu coração ordenou à meu corpo que crescesse e os outros órgãos declarassem-se submissos.

Você então abriu a boca para gritar mas não emitindo nenhum som, fechou-a, desconcertado, em seguida deitou em meu colo, quieto como um bicho acuado, ferido, que encontraria apenas em minha mão a cura para as feridas de uma vida toda calada. Afaguei suas costas, comecei pela sua nuca e desci aos poucos, paulatinamente, até chegar no fim, no ponto em que sua pele aparecia descoberta, descansei então minha mão ali e levantei aos poucos sua camisa, afastei e fui dedilhando pela pele nua, por suas costas quentes e reais, senti que havia algo em algo relevo, fiquei intrigada e a medida que o pano era afastado eu pedia para que meu tato estivesse equivocado, para que meus olhos estivessem me enganando. O relevo em suas costas era formado por queloides, as queloides mais belas e sufocantes que eu já vi. Queloides de arte.

Vi com meus dedos em suas costas bandeiras de vários países, como se seu corpo gritasse que não existe nacionalidade para a dor, para as marcas no corpo, na carne, na mente. Enquanto eu passava a ponta dos meus dedos em sua pele que outrora havia sido dilacerada, você me mostrava tudo que já havia te ferido. Em todos os locais, em todas as cidades, de todas as formas e profundidades.

A bandeira de um país desconhecido representava a minha dor em ti. Era uma nação inteira de mudos, surdos e cegos. Eu fui pra ti um país desconhecido. Senti minhas entranhas revirarem com tamanha descoberta. Em seguida eu notei a minha falta de presença em mim mesma. Como poderia então estar presente em ti?

Me desculpe pelas marcas, talvez assim eu me desculpe pela incompreensão de mim mesma. Eu sou um globo da morte, Dear. Eu sou um cigarro barato em uma caixa de charutos. E talvez eu nunca deixe que ninguém descubra mais do que isso.

 

Daquela que possui dois olhos chorosos enquanto sorri, Pietá.

(Bruna Alencar em As Cartas que vocês nunca receberão) .