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Dear Túlio,

Estou escrevendo pela milésima vez, o carteiro diz que você mudou de casa, mas eu continuo escrevendo para o mesmo endereço, temo que tudo não passe de uma conspiração dos correios para me impedir de te dizer palavras tão perigosas.

Eu sonhei com você e sinto que há uma mensagem muito maior nisso tudo, posso decifrar pelos inúmeros livros de Freud que eu comprei e nunca li, mas talvez a interpretação dos sonhos seja muito rasa para traduzir a dor e a mensagem que meus sonhos têm em você.

Sonhei que estávamos em um desses cinemas abertos dos anos 70, um cinema em um quintal, um filme projetado em um lençol branco, um filme que nos fazia chorar e fitar as íris molhadas um do outro. Sonhei que você dizia muita coisa, me cobria de frases e pensamentos, me fazia confissões que sempre te sufocaram, mas sequer abria a boca. Era como uma conexão invisível, como se tudo que te apodrecesse entrasse em mim e, em mim, tivesse o efeito contrário, eu acabei florescendo, crescendo como uma macieira bem regada e com sol o suficiente. Acabei crescendo, expandindo de tal forma que meu coração ordenou à meu corpo que crescesse e os outros órgãos declarassem-se submissos.

Você então abriu a boca para gritar mas não emitindo nenhum som, fechou-a, desconcertado, em seguida deitou em meu colo, quieto como um bicho acuado, ferido, que encontraria apenas em minha mão a cura para as feridas de uma vida toda calada. Afaguei suas costas, comecei pela sua nuca e desci aos poucos, paulatinamente, até chegar no fim, no ponto em que sua pele aparecia descoberta, descansei então minha mão ali e levantei aos poucos sua camisa, afastei e fui dedilhando pela pele nua, por suas costas quentes e reais, senti que havia algo em algo relevo, fiquei intrigada e a medida que o pano era afastado eu pedia para que meu tato estivesse equivocado, para que meus olhos estivessem me enganando. O relevo em suas costas era formado por queloides, as queloides mais belas e sufocantes que eu já vi. Queloides de arte.

Vi com meus dedos em suas costas bandeiras de vários países, como se seu corpo gritasse que não existe nacionalidade para a dor, para as marcas no corpo, na carne, na mente. Enquanto eu passava a ponta dos meus dedos em sua pele que outrora havia sido dilacerada, você me mostrava tudo que já havia te ferido. Em todos os locais, em todas as cidades, de todas as formas e profundidades.

A bandeira de um país desconhecido representava a minha dor em ti. Era uma nação inteira de mudos, surdos e cegos. Eu fui pra ti um país desconhecido. Senti minhas entranhas revirarem com tamanha descoberta. Em seguida eu notei a minha falta de presença em mim mesma. Como poderia então estar presente em ti?

Me desculpe pelas marcas, talvez assim eu me desculpe pela incompreensão de mim mesma. Eu sou um globo da morte, Dear. Eu sou um cigarro barato em uma caixa de charutos. E talvez eu nunca deixe que ninguém descubra mais do que isso.

 

Daquela que possui dois olhos chorosos enquanto sorri, Pietá.

(Bruna Alencar em As Cartas que vocês nunca receberão) .

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