Muito mais do que aparento

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Para ele eu pareço ter passado, mas não vou engolir minhas verdades e gritar às esquinas que ele passou em mim. Ele permanece. Ele permanecerá até o fim dos meus invernos. Não consigo fingir força onde só existe uma fraqueza desmedida. Mas é importante lembrar que essa fraqueza, hoje, me faz sorrir. Me lembra que eu sou humana, “não sois máquina, homem é o que sois” diria, talvez essa dor intermitente sirva exatamente por isso, para sempre doer, de forma pura e presente, de forma idílica e real, de forma a me mostrar que do sofrimento eu não  posso fugir.

Eu aceito a seringa em minhas veias, eu aceito as picadas, os braços moles, frouxos, pendentes, os braços roxos. Minha droga foi você, é você, e eu continuarei tomando doses cavalares de ti. Mesmo que hoje eu não faça alarde. Doses intravenosas, orais, sexuais, mentais, viscerais. Você foi o primeiro, o pioneiro nisso de me fazer sentir. E nisso você foi bom, tão bom que eu não consigo pular do barco. Mas decidi navegar para o lado oposto, atracar em cais estrangeiros, em beber de águas amargas, em dançar tangos mexicanos. Eu decidi seguir pela mão mais inusitada, eu decidi ocupar minha vida com pessoas loucas, com horas corridas, com pouco sono, com pouca vida e pouco álcool, para que, quem sabe assim eu esqueça da embriaguez dos teus beijos, da loucura no nosso cheiro e a insônia nos nossos corpos. Eu escolhi chupar tudo e engolir muito pouco. Poucas pessoas, poucos livros, poucos acontecimentos, poucos sorrisos e principalmente poucos sentimentos.

O fato de não mais trocarmos cartas não me fere mais, sequer chega a me arranhar. Não saber se o seu endereço é o mesmo, se seus interesses e seu mau humor ainda é como antes, se suas sobrancelhas ainda são grossas e raivosas, se sua maneira de punição ainda é o sexo, se teu sorriso continua escondido, se você continua fugindo de aglomerações, se você é o mesmo que se apresentou a mim – com tantos defeitos e qualidades tão secretas e instigantes -, não saber te torna uma imagem pra mim, uma figura incompreensível, uma esfinge, uma personagem de fazia parte do meu principal sonho recorrente.

Eu escrevo sobre muitas coisas, mas as mais verdadeiras possuem você. Aliás, acho que todas as letras que saem de mim possuem você, mesmo que indiretamente, mesmo que eu nem chegue a lembrar expressamente de ti enquanto escrevo. Mas você é como uma crosta, como uma parte de mim, da qual muitas vezes eu não tenho consciência. É como se fosse minhas vértebras enquanto eu mexo os dedos. Você está ali, atuando em mim, e eu só tenho consciência dos movimentos dos dedos. Mas sempre há mais por trás de tudo que supomos conhecer. Por trás de mim existe um você que eu não sei se mudou, no entanto sei que me marcou e se replicou em mim, uma cópia perfeita daquele você naqueles dias, naqueles anos.

Músicas, gritos, dores, lágrimas, medo. Uma bolha insustentável, uma bolha que de tão pesada não poderia ter outro destino senão o rompimento. Rompeu-se. Cai de dentro da bolha direto em uma destino que eu nunca vislumbrei, mas pelo qual hoje eu sou grata, ainda mais por estar longe, fisicamente, de ti. Prefiro a tua imagem à tua presença.

A lógica do grande amor não é real, ou melhor, não deve ser real. O grande amor machuca demais para que não seja repelido, para que sustente-se na realidade. No cotidiano. Não, o grande amor fenece diante de tantas trivialidades.

Levo você comigo até à eternidade, sua imagem pesa menos que tuas tristezas, teu tesão por problemas e que a nossa combinação de almas atormentadas e alcoólicas. Segue, eu estou seguindo, com minhas ideias, lágrimas e vícios. Um deles é a sua presença em minhas arestas.

(Primeiras Memórias Doloridas – Bruna Alencar)

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