O VERMELHO SEM O NEGRO

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O sangue que sai de mim por via não-expressas não é o sangue revolucionário que eu gostaria que ele fosse. Continuo ferindo-me apenas com meus interesses e egoísmos, quando minha utopia do altruísmo me diz que eu poderia estar sendo muito mais. ESTAR SENDO. ESTAR SENDO. ESTAR SENDO. O MEU ETERNO GERUNDISMO É ACREDITAR EM COISAS NAS QUAIS EU RELEGO A SEGUNDO PLANO. SEGUNDO PLANO DE VIDA. SEGUNDO PLANO DE SER. Eu continuo olhando apenas para mim, e nem assim tenho vislumbrado soluções para essas crises cíclicas que acompanham e aprisionam meu coração nesta caixa torácica, a prisão que levo por dentro.

Vida conurbada com amores sofridos, com um amor que me dói os olhos. Procuro, então, casos e casas que me mostrem a dor do outro, a dor tão pungente que me faça gritar por córneas alheias. Tenho que sair dessa zona de autoafirmação do egoísmo apátrida. Tento, logo sairei. Não duvido de minhas metas, mas fraquejo com o que me conforta.

Por tantas dores, passei

Por tantos pés, pisei

Por tantas lágrimas, bebi

Por tantos olhos, cresci

Por tantos negativas, assenti

Com tantos medos, vivi.

 

Por tantos cantos, sorvi

Por tantas incertezas, venci

Por tantos gritos, cai

Por tantas feridas, fiquei

Por tantos desejos, parti

Com tantas temperanças, enlouqueci.

Ah! Tudo está cada vez mais baixos, as dores terrenas são tão ínfimas, que o individual passou para um plano especial. Gauchearei nessas perguntas de tantas vidas, tão pouco vividas, então, o que farei da minha? Então, vejo meu reflexo no espelho do vizinho, vejo meu reflexo e choro, choro de um sentimento que ainda não inventaram além de mim. Vejo e então entendo que aqui, agora, o sangue que sai de mim por vias não-expressas não é mais o sangue pelo qual eu lamentava outrora. Já é sangue límpido, cálido, sangue pós-catarse de uma vida de feridas abertas, pútridas, fétidas e dignas. Feridas escondidas em mim, nessa utopia de fugir da burguesia. Ora, mas eu estou nela! E admitirei agora, conjugo os verbos que viola, na loucura de esconder o que mais se tem pretensão de mostrar.

Exibir. Exibo minhas tribos, meu estribo

Na minha oca, vejo Huxley, tomo soma

Seja menos, menos si e mais somos

Vejo então, por aquelas lentes

Meu eu extrato, a estratificação a qual pertenço

E não gosto, Andrade, Drummond

Ser burguês, Carlos, pode ser pior que ser Gaúche

Guilhotinas, Carlos, podem ser pior que ser cego

Sua cegueira, Carlos, é a de ser Gaúche numa vida que sequer existe.

Existir, Bruna, é a fuga do império dos sentidos.

Existir, Bruna, é a busca pelo não conveniente.

Nenhuma verdade, Bruna, pode nascer diante dessas vendas.

Nenhuma verdade, Bruna, você sabe que tem

Nenhuma verdade, Bruna, deixará de te acompanhar.

Vejo então, todo o sangue fluindo, o sangue que sai de minhas entranhas, cobre-me o corpo e a mente, imagens mentais jorram e se espalham pelos meus poros. Meus órgãos choram. Uma hemorragia de conceitos falhos me denuncia. Ponho tudo para fora, vômitos vorazes, vômitos eficazes e então eu estou limpa de novo. Pronta para admitir que o sangue que sai de mim por via não-expressas não é o sangue que eu gostaria que fosse, mas é o único sangue que eu tenho para ofertar. Usarei de barganha? Quiçá, vida, quiçá. Mas por essas pernas, pequenas, sofridas, hei de caminhar, não importa de onde venham as risadas, as zombarias, ou os olhares incrédulos, tu não me dirá no que acreditar.

 

(POESIA PROSEADA, VIDA ROMANCEADA – BRUNA ALENCAR)