Termômetro Matinal

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Semeio o gérmen do trigo podre por todas as minhas veredas. Lamento por esses caminhos, caminhos que todos os dias me levam para onde eu não quero estar. Sinto como se o coração estivesse recebendo as pancadas das ondas que quebram contra ele na encosta do mar.

Todos os dias eu semeio a morte de mais um dia viva.

Todos os dias eu ando de costas para o mar, e ainda assim procuro diariamente lavar-me naquelas águas. Eu procuro a abundância me forçando à seca.

Eu não vivo mais aqui já faz um tempo. Um tempo no qual eu saí e não deixei endereço. Não averbei a mudança do meu domicílio nas páginas do meu livro de lágrimas. Procurei fugir do processo do medo puro, o medo que é por não ter razão. Talvez o medo da renúncia, o medo da escolha pútrida do olhar vago. Procurei fugir para não habitar uma multidão. Procurei fugir do silêncio entre minhas paredes frágeis. Procurei acesso e encontrei cercas. Procurei amor e me colocaram em um corredor de espera pelas burocracias da solidão.

Não há domicílio, não há bens, não há comunhão.
Não há sinceridades, vistas, estáveis.
Não há compreensão
Não há informação, não há guias, espíritos ou dissimulação.
Pois não há interesses por essas vidas escassas
Não há vinhas nem traças, tampouco há veneração.

As vicissitudes dessas cicatrizes não me permitem tecer um mapa de sofrimentos certos, estradas duvidosas, pernas postas e rostos condenáveis. As vicissitudes desses dias não me permitem afirmar que outros virão. Não me permitem pedir por um novo ano, um novo ciclo de sofrimentos e ceticismos. Outro ciclo de morte que também é vida. O ciclo indissociável: vida-morte. O binômio dos opostos que não somente atraem, são por si, em si, juntos.

Esperarei que a tua ânsia pelo toque do meu eu no corpo perceba que eu não estou mais aqui

O corpo continua lá, firme, liso e estéril, continua lá por todas as suas partes inquebrantáveis

O ventre continua irradiando uma luz branca, leitosa
Incólume até o fim dos dias.
Os cabelos continuam lá, mas cada dia menos.

Essa vida vai levando os fios que tecem minha vida e os fios que ora teceram meus cílios

A vida hoje não fecha mais suas pálpebras
Minha morte em vida é tão certa como as outras,
Mas essa morte viverá na singularidade das palavras
Alcançará os ladrilhos das construções, os vitrais das catedrais
Os jograis, as fontes, os beijos sem sinais
Pintar-se-á na opacidade de córneas desabitadas
Anjos inominados, rostos inexpressivos, beijos cálidos
Termômetros de uma vida morna, e infelizmente, vivida.

(BRUNA ALENCAR em Poesia Proseada, Vida Romanceada)

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