Dear Marquês

cac

Escrevo depois de tantas letras proteladas, sentidos disformes e distantes do mesmo som que lá fora vem farfalhar, bagunçar minha pilha de mágoas e expor o buraco na parede aberto à marteladas.

Acontece que depois que decretaram minhas férias para descanso dos meus axônios, tudo tem piorado. Eu não funciono com todo esse descanso, olha como são as coisas, agora eu estou deveras muito mais cansada. Todo esse ócio tem preenchido o espaço entre minhas costelas e tem comprimido meus órgãos, já esqueceste do que quisera lembrar? eu não nasci para toda essa ilusão de estaticidade do mundo, não degluti nada que viesse do princípio da paridade das formas que me abandonaram. A ruas são inamovíveis, mas não param um segundo. Aqui dentro também há equidade.

Semana passada eu rabisquei inúmeras cartas para hospícios, reformatórios, hospitais e clínicas sem amor, tudo porque a ajuda que eu precisava dos que me cercam não chegou, ora, mas deveria eu culpá-los? creio que não, li em algum lugar que o mundo tornou-se um lugar egoísta por suas regras e, só então, entendi o porque daqueles que dizem amar sequer me olharem nos olhos. Se eles não viram minha hemorragia ocular, tampouco poderiam outros atestarem-na.

Nenhuma das cartas foi respondida e eu enterrei esperanças que dependessem de sentenças alheias.

Já deixei esse desamor por conta dos catadores de lixo, então, por educação, por favor, não vamos revirá-lo.

Escrevo mesmo para te contar do buraco que surgiu em minha parede. Na verdade não foi como se ele tivesse, de fato, surgido, uma vez que não apareceu de um dia para o outro. Ocorre que, em razão de inúmeros incômodos causados pelas máculas normais daquela parede, máculas que já a acompanhavam desde que eu aqui vim residir, um desejo apresentou-se como certo e inquestionável, e em segundo, punha em minha mente a necessidade de golpear aquelas tão inegáveis máculas alheias, resquícios da presença de outros moradores, ou resquícios das mãos débeis que deram vida à aquela parede tortuosa. Aquelas imperfeições me perturbavam ferozmente naquelas tardes frias e livres de uma mente quente e, que, paulatinamente se tornava belicosa.

Os dias flutuavam em suas próprias datas pré-incineradas quando eu fui além, equipei-me com um martelo e encontrei um jeito de aliviar a histeria causada por toda a humanidade daquela parede marcada pelo gozo de estórias e histórias daqueles que, em regra, seriam meus semelhantes. Assim, toda vez que eu adentrava o recinto, deparava-me com uma dor, olhava para a parede e punha lá toda a culpa pela maldade do mundo, aquela parede era a humanidade toda em seus sofismas ridículos e sem escrúpulos, aquela parece era uma forma de perpetuar todos os homens que aqui passaram antes de mim, era uma forma de me lembrar que não há perfeição, bondade e toda a limpeza só se tornou um fim para que esquecêssemos nossos meios, tão sujos e sexuados, tão atroz o pensar na ruína dos desconhecidos, o alheamento cotidiano que nos impunha essa coletividade, tudo sendo visto como normal em razão da necessidade de sobrevivência.

Porém, meu caro, não somos sequer espécie, somos microssistemas em nossa arché, e não há porta de entrada como não há saída. Somos as perdas dentro de um aquário. As outras pedras nos dizem que devemos venerar quem nos pôs ali – quando o normal seria odiar – agradecer todos os dias por ter um lugar certo e temer o que está além daquele vidro cristalino que as religiões fazem turvo. No entanto, enquanto tantas pedras encontram maneiras de fazer mais suportáveis os dias no aquário, apenas uma ou duas se recusam à compartilhar daquele delírio coletivo, sentem sua natureza de pedra, seus minerais e sabem que pedra só são. Pedra sois perda e só na perda de si serás.

Todos os dias, com uma martelada certeira eu punha abaixo um pedaço daquela parede tão viva, todos os dias eu punha lá o que a rua impregnava em meus calcanhares, punha as chagas dessa vida vulgar.

Então, em meados de janeiro, já não havia parede, assim como também não existia mais razão para continuar naquele apartamento. O processo de desconstrução foi brilhante, me curou enquanto durara, mas depois se extinguiu em minha mente e levou consigo minha catarse momentânea. Assim, fiquei vazia em minha falta de paredes, fiquei vazia pela consequência do que me libertava, fiquei vazia por fazer de mim instrumento vicariante, ora Beccaria, dos delitos e das penas eu guardo respeito aos métodos mais rudimentares.

Levanto agora outra parede, quiçá um muro blasé, mas levanto a mim mesma e faço carga dos meus dias inóspitos somente para que corram e minha sanidade não escoe.

Supunha-me ainda humana,

Daquela que escolhe entre a histeria e a homeopatia.

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