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Meu Sonho Passado,

 

Você não está mais aqui, mas ainda faz as madeiras da escada rangerem. Você não tem fome de mim, mas ainda ponho seu prato na mesa. Você não usa mais o perfume do meu corpo, mas ainda tiro a roupa com o corpo exalando pertencimento.

Não sei mais que esquina nosso amor virou apenas uma referência. Dobre naquela rua onde o amor costumava acordar os vizinhos com gemidos inadiáveis. A casa de fulano fica naquele quarteirão das risadas enluaradas. Não esqueça de passar na loja de cicrano, aquela perto da venda dos beijos urgentes.

Hoje tenho apenas as manchas nas roupas e o sorriso desbotado.

No entanto, escuto as canções tristes com um sorriso líquido e certo. O temporal foi embora, e estou certa de que a bonança reside na tua ausência, assim como a morte é a recompensa.

Fugir dos ladrilhos das urbes nos quais deitamos não vai me fazer escapar do toque da memória. Veja bem, encontrei minha incongruência jogando fora todos os teus vestígios. Mas o melhor jeito de encontrar a paz ainda é nas férias da dor.

O sonho foi-se na bruma de uma cidade de pedra,
Mostrou-se endrômina, serpente e gárgula,
Foi-se pelo lado oposto de tudo que já viera a uivar
Se eras tão mais torto do que eu cheguei a crer,
Em que ponto calamos nossas verdades?

Abandonar sonhos é um sacrilégio a olhos escusos. Sede seca do pote que está vazio. É a mesquinhez do sentimento. É deixar a fila pela qual tantas pernas esperaram por anos. É pintar os ossos dos santos. É enterrar o feto com vida. É esquecer de por a lápide.

No entanto, tais acusações não merecem prosperar, sequer há verossimilhança dos fatos, atentemos para isso, egrégio magistrado, colenda turma!

Ainda penso naquela derme idílica, ainda tenho a pincelada das tuas cores
Mas não, não atentei contra a existência do sonho sonhado por tantos suores!
Morreu simplesmente. Morreu e não há de voltar.
Morreu de posse, morreu sem par.
Morreu nas horas sozinhas do Tejo pernambucano.

Sonhar por amor é esquecer de posse. Uti possidetis, ita possideatis.
É não anunciar a ocupação, é ser manso, pacífico
É não encontrar oposição, mesmo em terreno tão acidentado
É ser posseiro por sussurro
É deixar de lado a voz e iluminar a tez
É “belong with me” ao invés de “belong to me”.

Talvez seja essa a minha carta de retratação, mesmo que seja eu quem esfolou as mãos ao cavar o teu túmulo com as unhas. Eu sou a única que não pode ser acusada de falta de respeito. Considerei-te bom o suficiente, tão bom que te devolvi a parte fúnebre que plantastes em mim quando da tua chegada.

Não farei mais rituais. Incinerei tua mortalha.
Em seguida, gira a roda, gira o comboio de corda,
Gira a vida sem resposta e o eco que era vão
Torna-se puro, dilatado, o pequeno coração!
Das chamas crepitantes, diz-se adeus
E não mais se aduz
A dor de uma incapaz.

A roda gira de novo, gira de forma sagaz
O sonho retorna, agora outro sonho.
Agora outra paz.

Não há mais escadas, levantei meu assentamento. Não há mais prato, alimento-me de beijos. Não há mais corpos. Só há estórias.

E outro rapaz.

 

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)

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