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Sai da tua casa acompanhada pela chuva e com sede da tua distância. Há certas lembranças que não podem pintar meu corpo para que façamos horas a fio e faca de sexo. Já não há mais marcas das minhas unhas nas tuas costas e as queloides que habitam o seu cérebro você esconde que foram causadas por mim.

Eu cheguei a pensar que poderia invocar teu corpo como minhas muletas até os sentimentos mais vermelhos que já possui. Acontece que não há mais tempo. Não há mais tempo para fingir que o teu gozo me satisfaz. Já trago a boca insípida diante do teu beijo. Não há mais amor, sequer há ódio. Talvez apenas uma mágoa por ver todos os meus sonhos e seivas desperdiçados.

A estrada que me levou até você veio com gosto de contramão todos os dias, e, logo eu, sempre tão cheia de mapas, decidi deixar que você me conduzisse por toda a sua desolação.

Esperava ser o ipê das tuas tardes mesquinhas, só havia fantasia em mim. Fantasiei ser a paleta da tua vida incolor. Eu quis ser maior aos teus olhos por seres tão mordaz. Habituei-me a tua amargura. Carreguei o saco com teus ossos por todos os mercados. Pintei minhas coxas com tua saliva. Brilhei em silêncio e em solidão mesmo com tua presença. Nossos olhos ungidos de lágrimas nunca estiveram juntos. Só estive sozinha pela tua companhia.

No entanto, agradeço por todos os batons que eu testei em sua boca. Havia sempre mais borrões do que certezas. Mas, a cada cor que me tirastes, eu já soube quais eu nunca voltarei a usar.

Gostaria de te entregar meus olhos. Gostaria de sentir minhas órbitas ocas, assim como gostaria de ser preenchida pela convicção de que ao menos uma vez você se viu pelos meus globos oculares. Pobre menino saudavelmente cego. Cego por inabilidade em abrir os olhos.

O sol queima, mas não cega. Sussurrei em meio aos meus gemidos. Fiz canções para te convencer a levantar as pálpebras. Cantei para ti ao meio do dia. Cantei para ti em meio do mar. Cantei para ti por toda essa extensão de pedras. Tatuei a letra em minhas costas.

Nunca aprendeu a canção. Tampouco sugou a melodia.

Não diga que não sabes que chegamos ao ponto que as peles se repelem. Não há mais condição para a cópula. Tu te opões aos meus dedos pois já conta com outros.

Nosso queixume sexual não vai encobrir as tuas mentiras, pois não as contava só para mim. Todas as falácias das quais te convencera para continuar a esconder o seu desconforto consigo mesmo não apedrejaram apenas a mim. Tornou-se mármore. Hoje outra pessoa toca a tua frieza exaltando uma beleza que tu mesmo desconhece em si. Queres brincar de sentir, sem sequer conseguir se abrir. Mas só há o que lamentar, enquanto não há o que tentar esconder. Você nunca deixará outra pessoa te tocar onde eu toquei.

Eu fui quem você julga ter castigado com o silêncio. Mas você está condenando a si mesmo a viver na sombra do meu perfume e do meu furor. Eu te mostrei como ser humano. Agora voltas a ser apenas um combinado de células, sangue e tecidos. Não peço perdão. A ausência do meu semblante tira tudo aquilo que fora concedido pelo meu olhar.

Agradeço também pela chuva que cai em mim agora. Não há nada mais esplêndido que isso! Nossas águas sempre mostram o que tornar fértil. Quanto mais terra eu piso, quanto mais céu eu vejo, mais longe eu vou de qualquer contato que tive contigo. Estou pronta e assaz desejosa por outra colheita. Há um plantio de lábios, há um hectare de histórias por começar! Vou semear uma nova derme, vou até o fim dos trejeitos, vou além das aparências. Vou habitar outras idiossincrasias.

A porta está aberta, tranque-a. Me desfiz das chaves.

 

Daquela que dormirá nos teus olhos até o fim dos teus dias, Pietá.

 

(Bruna Alencar em As Cartas Que Vocês Nunca Receberão)

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