A leveza do Teu Verde

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Memorioso Amigo,

Escrevo para registrar que suas roupas estão secas. Ora, posso dizer com propriedade! Presunção Juris et de jure!

Sentei no degrau do banheiro e verifiquei cada centímetro do teu tecido, senti o gosto das texturas, e mergulhei nas lembranças quentes dos últimos dias. Mas essa não é a parte relevante. Essa é a parte que põe cor na fração do meu coração que eu havia nomeado de dor.

A parte meritória, egrégio amigo, é a lição que todos os dias você imprime em meu dorso quando me massacra com uma enxurrada de beijos. O melhor massacre é aquele que nós escolhemos saborear. E minha escolha não veio por acaso, veio pela tua firmeza em insistir em minha cura. “Levanta-te e ama! ” decretou.

Tu me deitou em tua maca, imobilizou-me com uma técnica que parecera tão nova! Mas, só agora, pude notar como reinventaste o significado do que eu entendo por abraço. Puseste teus braços ao redor de minha cintura, e apenas permitiu que eu chorasse toda a nascente do rio de mágoa. Esperou silente que todo o veneno saísse. Não se moveu nem mesmo em buscar de ar. Me deixou uma lembrança lírica e sonora do teu rosto colado ao, do pulsar do verde que aflora e a sensação da tua boca em meu ouvido me dizendo para que não vangloriasse a dor.

Tu me afirmaste que eu não sofria por amor, eu sofria por um espinho que outrem havia posto no meu peito, machucando-me quando da ferida inicial, e que, quando retirada por essa mesma pessoa, me fizera sofrer novamente, pois eu já havia adequado minha vida ao espinho. “Vê, meu bem, esse é o espaço para tudo que é verdadeiro; o espaço ocupado pelo espinho foi a mentira que você aceitou que fosse batizada como amor, mas amor não é isso, amor é a coisa mais limpa e permanente que alguém pode te oferecer. ”

Tu lavaste minhas íris, enxugou-as com algodão, e as colocou de volta sob a promessa de que me ensinaria a não as contaminar de novo com quaisquer ciúmes, mentiras e egoísmos.

Ajustamos nossos termos e nossas roupas após encontrar na destruição das correntes os elos fáceis e saborosos das relações que possuem vínculos de alma e não pelo marasmo social.

Aprendi contigo, depois de anos de engano por outros braços, que abraços nada mais são que os sussurros do peito, a tentativa mais primitiva de entrelaçar veias e artérias, levar os fluidos um do outro por toda parte, buscar oxigênio no vermelho alheio, circular pelas mesmas vias todos os dias e aceitar o som e a fúria do amor.

Naquela noite você me provou e provocou até que eu fosse ao limite das minhas forças e fontes para constatar que não haviam espinhos em suas mãos, tampouco farpas. Veio limpo e completamente nu, com a nudez mais deliciosa e reconfortante que já passara por entre as minhas coxas.

A explosão da tua presença foi tão certa que nem os céus puderam reprimir seus líquidos. As nuvens regaram nossa terra e deixamos descobertos os nossos medos. A dança do fim do mundo foi aquela feita na nudez da alma, os sonhos pediram guarita no curso da tua calma e tu gargalhastes tão certo do acerto no perfume do meu tato.

Se hoje meu corpo gargalha, devo isto à tua persistência de em pôr o sol nos meus lábios, pois, como sempre me dizes, o tempo ensina como soltar os cabelos e as dores.

(Bruna Alencar em As Cartas Que Vocês Nunca Receberão)

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E na curva do teu silêncio
Eu dei a volta no riso,
Passei por horas pintadas,
Dei um beijo n’um ouriço.

E na pausa do teu eco,
Deitei nos teus sentidos, fiz discreto
O que era certo e neguei ao compromisso.
Segui ainda, meio manca
E te pus no meu estribo.

E na mudez do colorido, tracei
minhas pernas consigo, lavei
os livros da memória e o gosto
do suor antigo.

Se na esquina do teu corpo, tem-se
a derme desejosa
Tem-se o grito, tem-se a fronte
Tem-se a chave da tua flora.

Tua presença é toda a vida,
pois entre folhas me enamora,
Despe o tronco, mostra o caule
Põe as flores para fora.

Se segues firmes no jogo, é por
quereres miasmas
Cansastes do mundo, nem mentira quisestes
Pois o verde que apresentas
É o contraste da tua demora,
Tens medo do lado de dentro
e do maduro contentamento.

Nos delírios dos dedos
Me contaste tua estória.
Tens o pêlo molhado de relva
E o raio do meio da aurora.

Dançastes com meus vestidos, e
em minha raiz pusestes os olhos
Tens a receita mormente
De quando moravas no agora.

Não há segundo sem viço,
Só minha seiva te alimenta
do mal que não te queda ciente
do quanto me adora.

(Primeiras Poesias – Bruna Alencar)

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O tropeço do afeto é a sombra que desagua,
Tens um peito, tens um teto
E um nada que me acalma.

O sumiço do deserto é um beijo n’outro lado,
É uma língua vinda em laço, é um sonho sem solfejo
São teus olhos, tão presentes
É um toque que não vejo.

O agora que me pisa, é teu perfume de outrora
São teus passos, teus silêncios e o pulsar do que já fora
É o risco do teu riso, e teu abraço sem demora.

No entanto, nesse intento há tanto tempo
Tanto que chego a expulsar-te pra dentro
Sem quedanças, sem mil horas
Há apenas o teu momento
E minhas mãos, por certo, a afagar-te
Vida afora.

 

(BRUNA ALENCAR em Primeiras Poesias)