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Das chagas, dos panos
Dos puros enganos
Um mero tear
De volta me ponho
Um anjo risonho
Uma ode ao gozar.

Sorriso tão claro
Um lenço, um laço
Um sol sustenido
Um sopro de viço
O avesso do estar.

Espaços inertes, viagens caustrofóbicas
Olhos etéreos e ventre quente
Tropeço das ciências, abrigo dos rótulos
Não sente o discurso, palavras soltas
Vãs
compõem o fascínio
A medida da minha luz. Palavras.

Mas te doi
Vez que se ressente quando o pedido é por mais
Mais substantivos abstratos
Diz-me, meus adjetivos
Sãos
Compostos ou primitivos?

Paixão em metástase, o corpo só
Pende
Pende
E pede socorro.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Ledo Luto

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Picareta. Machado. Moenda de sonhos.
Levei tua imagem em meus ombros estreitos
Lavei meu quinhão de mágoa e sobejos
Aceitei a dor que trazia em nome de quem acreditei que eras
Eras tão alvo e límpido, altivo e poeta
Que julguei que as reminiscências das tuas palavras
Aproximariam nossos estados.

Ledo e fugaz engano.

Peso. Uivo. Pedido de Socorro.
Que meios usastes para me convencer de que te salvava
Enquanto estendia os braços para outra margem
E banhava outro animal com sua pelagem?
Tu chamavas outra de casa e a matilha ficava em teu encalço.
Ilusão de perenidade, fugacidade do lar
Elegia outra matriarca e pedia meus olhos a te espiar
Silêncio obscuro e fugidio. Dor por olhos baixos e vazios.

Ledo e feroz engano.

Cinismo. Desencanto. Amargo do asco.
Edifiquei meus conceitos sobre ti e tu veio pronto,
Com todas as ferramentas para te esmigalhar a meus olhos
Chegou torto e trêmulo, contou dos algozes e dos gozos de outras noites
Deitou no tapete e me confundiu com uma puta
Fodeu um outro corpo pensando ser o meu, chorou meu nome no meio da embriaguez.
Não sobra lisonja, nem meu desejo te espreita
Só peço respeito pelos dias que para mim foste rei
Hoje ordinário, mostrou que do meu vinho não beberás
Mas no meu torço perfeito hei de tatuar
a sombra das tuas promessas
Que ingenuamente quis acreditar,
Fostes sopro de vida, santuário
Talvez pudesse ser lar.

Lido tarde. Ledo luto.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Amor do meu porvir,

Algumas coisas precisam de grifo e previsão contratual expressa, só assim minha boa-fé em te possuir poderá se tornar objetiva, então vejamos:

Eu não vou ler a bíblia com você. Não vou medir meus palavrões. Não vou economizar nos adjetivos e não vou ser contida e constante, entretanto não vou incitar a guerra. Vou pedir meu quinhão de solidão para os bombardeios e ordenarei que todos evacuem o perímetro de terra que levo no peito.

Não te trancafiarei como forma de te guardar. Teu espaço é todo o mundo, mas deixe que minha vista possa te alcançar. Pois assim fazes morada em minhas pupilas, incendeia meu tronco e espalha fogo em meus sentidos.

Não te oculte, não te ausente, não te faça memória antes do tempo fatídico do fim. Quando mais tu ficas, mais marcas tu imprimes no meio das minhas coxas.

Eu não vou ler a bíblia com você. Eu vou te santificar. Vou te benzer com minha língua e vou trançar minhas pernas com as tuas, como duas cobras lisas e ferozes fariam ao deslizar uma sobre a outra. Perna ante coxa, rouquidão do cansaço e riso antigo.

Não beijarei sua mão e a cabeça não abaixarei. Levarás meu queixo erguido ao teu lado, meu orgulho por nos acompanharmos, pois não serei mera acompanhante. Não carregarei baixelas para expor meus dotes, não recitarei poemas por lisonja, entretanto não deixarei de te pedir sujidades sexuais e, no descanso do orgasmo, limparei qualquer medo mundano ao reverberar meu amor por ti.

Não me julgues, não me meça. Não tente me enquadrar no teu tipo penal. Sou conceito jurídico aberto. Sou uma anedota em pleno carnaval. Dancarei em teu encalço e cingirei nossas peles com urros. Sou água límpida que recusa a pia batismal dos teus axiomas. Sou sacerdotisa dos dias quentes em que molhas minha cama.

Eu não vou ler a bíblia com você. Eu vou te vestir em imagem e semelhança ao Rei dos humanos, vou te exaltar e tingir tua túnica com meus fluídos. Vou te por na melhor indumentária só para que depois possa te rasgar sem pudor, cortar teus tecidos e gemer nos teus linhos. Vou te mostrar que tuas roupas não possuem valor de desejo, vou vestir teu corpo e te por do avesso, vou chupar teus olhos com apreço, vou morder teus dedos e me certificarei que teu novo terno esteja aquém do maior gozo de gala.”

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

 

 

O Lobo e a Preá

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Nos primeiros raios da manhã, sois revoltos e inflamantes, receita de dias errantes, nas pastagens do meio da dor, eis que emerge uma pelagem certeira, um lonely woolf solto no sertão de secas e chitas. Tão incongruente entre bordados e flores, desfilando sua pelagem pela terra batida desse povo sofrido que não sustêm risos vazios, só amores intrépidos.

Trouxe sede no corpo mas que do corpo não veio, sente falta do afago dos olhos e do abrigo dos dias, qualquer resquício de alegria ficou pelo caminho de cascalhos, no tempo das brumas e ondas, sorrisos lascivos e sexo fácil. Mudou de morada por medo dos vícios, reformulou o destino e perseguiu um cheiro familiar, promessa de dança ao luar e beijos tranquilos.

Foi quando, entre as rodas da vida, trilhou o caminho dos sentidos e se guiou pelo olfato até um pedaço de carne falante. Ora, era só isso que sua fome permitia ver. “Não és mais do que só derme e ossos, sangue e medos, pequena preá. Aceita que és presa, fuga da mente para o sabor. Alimento frágil e condescendente”.

Assim, a pequena Preá, Pietá, fugiu do peso do lobo, escondeu-se em toca e viveu a sombra do temor de si por si, pois pior que uma boca cheia de dentes, era o desejo da morte. O lobo trazia a receita da desistência, não mais lutaria todos os dias, entregaria sua carcaça àquele que dela pudesse fazer melhor uso e talvez encontrasse sua paz com o toque da língua ferida e mordaz. Talvez o predador representasse o descanso das intempéries.

Pietá encolhia seu dorso ao pensar no poder da entrega, seguir o curso dos fins dessa selva pétrea, vez que aqui até as árvores se retorcem para evitar os lamentos.

Pietá pensou, deitou horas no espaço da mente, levantou-se para o cotidiano e resolveu que não viveria escondida como doente, não se diminuiria por receio em ser abatida na primeira curva, aceitaria as piadas que existir implicam e a insegurança ao sair de casa. Se diminuta em tamanho, grandiosa em coração.

Ao se postar na soleira da porta, notou os lumes do lobo a espreitar suas decisões. Se soubessem, os humanos pagariam para ver morte tão fácil, afinal é próprio desses seres se regozijar com o aniquilamento dos fracos. “Mais um tomba nos caminhos da meritocracia. Voilà!”

Porém lobo e preá, por graças do mundo, homens de fato não são. Trazem defeitos, mas não aceitam que a maldade ferva o sangue, deixam o vermelho das veias para crenças aquém, um uiva para um Deus e a outra dança para o cosmos, enquanto sobra a certeza de que virarão adubo no próximo ciclo da vida. Nada perdura e já se pode antecipar a fugacidade dos gritos. Se eram os deuses astronautas, lobo e preá comungam da mesma pequenez.

Entretendo, ainda assim agradecem por serem animais.

Pietá veste seu manto, se faz dama velada, põe os pés na coragem, o que não faz com o que as entranhas se revirem menos e assume seu percurso. O lobo não crê em suas órbitas, trata-se de desafio ou loucura? Persegue a preá com a mesma fome de quando a encontrou pela primeira vez. Apronta a bocarra para o festim. Ataca com automação e liberta um bramido nascido do âmago de quem outrora duvidou que voltaria a comer.

A mordida. O bater dos dentes. A clemência vã e no fim, só a desistência.

Pietá jaz na terra, encontrara a paz nas rochas aos pés do lobo. Coroou sua altivez com bravura. Mas algo exsurge do encontro. O lobo sente que não só carne compunha aquele diminuto ser, chegava a sentir o amor. O verdadeiro amor. O amor que só recebe louros com a entrega.

Não havia orgulho, não havia receio, não havia hesitação. Pietá mergulhara em sua boca e esperou ser banhada por sua saliva, aceitou que lhe cravasse os dentes e para a língua se fez despudorada. Quedava silente, mas sua presença entoava: toma o que te pertence, não uso anáguas de mágoas, estou nua de corpo e mente.

O lobo vacilante, vacila por sentir o ardor daquela que lhe entregara a vida. Vulnerável e tão linda em sua resignação. Fez do lobo um Deus, imolou a si mesma por um amor que não sabia se iria brotar. Alvejou um coração recôndito, fez do predador, imagem e semelhança à presa. Sem pressa, eliminou a cadeia alimentar e a espécie não fez mais sentido.

Cobriu o chão do sertão com conceitos vãos e preconceitos crassos. Limpou o lobo de miasmas e abriu sem coração em flor. Flor tão gasta, mas ainda mais bonita e vistosa pela resiliência às estações do peito.

O lobo viu a fome ir embora, assim como toda a dor que carregara e comprimia os pulmões. Todo ressentimento se foi. Só o carinho tomou conta daquele depósito de músculos e lembranças. Lobo vivo e vivente, tão delicado mostrou-se ao tocar Pietá em seus primeiros arquejados. Doce em sua espera pelo abrir dos olhos e silêncios.

Pietá recobra a consciência e, então, queda-se ciente de que a morte nem sempre é a saída para uma vida doente de pânico herdado. A cura vem pelos olhos e é administrada em gotas. Lágrimas de libertação.

Não eram mais só corpos quando unidos, o sexo virou território híbrido, no qual não havia premissas. Construiu-se um mar de corpos e indeterminações mundanas. Eram rei e rainha a batizar biomas com gozos noturnos. A sede primária se sacia.

Nunca mais viver à deriva da solidão. Pietá fez morada no peito do lobo, protegida dos outros, dos errantes, pois aquele amor trouxe a prescrição médica de segurança e sonhos ternos, cumpriria à risca o risco do beijo para restaurar sua flora.

(Contos Incontidos – Bruna Alencar)