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Amor do meu porvir,

Algumas coisas precisam de grifo e previsão contratual expressa, só assim minha boa-fé em te possuir poderá se tornar objetiva, então vejamos:

Eu não vou ler a bíblia com você. Não vou medir meus palavrões. Não vou economizar nos adjetivos e não vou ser contida e constante, entretanto não vou incitar a guerra. Vou pedir meu quinhão de solidão para os bombardeios e ordenarei que todos evacuem o perímetro de terra que levo no peito.

Não te trancafiarei como forma de te guardar. Teu espaço é todo o mundo, mas deixe que minha vista possa te alcançar. Pois assim fazes morada em minhas pupilas, incendeia meu tronco e espalha fogo em meus sentidos.

Não te oculte, não te ausente, não te faça memória antes do tempo fatídico do fim. Quando mais tu ficas, mais marcas tu imprimes no meio das minhas coxas.

Eu não vou ler a bíblia com você. Eu vou te santificar. Vou te benzer com minha língua e vou trançar minhas pernas com as tuas, como duas cobras lisas e ferozes fariam ao deslizar uma sobre a outra. Perna ante coxa, rouquidão do cansaço e riso antigo.

Não beijarei sua mão e a cabeça não abaixarei. Levarás meu queixo erguido ao teu lado, meu orgulho por nos acompanharmos, pois não serei mera acompanhante. Não carregarei baixelas para expor meus dotes, não recitarei poemas por lisonja, entretanto não deixarei de te pedir sujidades sexuais e, no descanso do orgasmo, limparei qualquer medo mundano ao reverberar meu amor por ti.

Não me julgues, não me meça. Não tente me enquadrar no teu tipo penal. Sou conceito jurídico aberto. Sou uma anedota em pleno carnaval. Dancarei em teu encalço e cingirei nossas peles com urros. Sou água límpida que recusa a pia batismal dos teus axiomas. Sou sacerdotisa dos dias quentes em que molhas minha cama.

Eu não vou ler a bíblia com você. Eu vou te vestir em imagem e semelhança ao Rei dos humanos, vou te exaltar e tingir tua túnica com meus fluídos. Vou te por na melhor indumentária só para que depois possa te rasgar sem pudor, cortar teus tecidos e gemer nos teus linhos. Vou te mostrar que tuas roupas não possuem valor de desejo, vou vestir teu corpo e te por do avesso, vou chupar teus olhos com apreço, vou morder teus dedos e me certificarei que teu novo terno esteja aquém do maior gozo de gala.”

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

 

 

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