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Dear Eros,

Venho, encarecidamente, por meio desta rogar, implorar, peticionar, clamar pelo seu afastamento. Não quero mais ser mero destinatário das tuas reviravoltas. Não nasci para marionete de sorrisos alheios. Não quero a dependência da admiração de outrem. Não quero ser boia, não quero ajudar. Não quero chamar nenhum homem de Deus e, no fim de tudo, ter que pregar a iconoclastia em nome de minha sobrevivência. 

Estou cansada de cultuar deuses de falos. Estou farta de orações sexuais. Eles não chegam ao nirvana do amor. Eles gozam e caem por terra. Ícaros nos píncaros de esperma. Como eles poderiam ver minha alma? Como eles leriam as minhas íris ou as íris de quaisquer outras mulheres? Os homens não entendem quanta dor fica represada em nosso útero quando eles o deixam com facilidade.

Uma mulher não é uma peça de encaixe. Para uma mulher nada é removível, apagável. No máximo seremos aquareláveis, pois viramos tinta a base de lágrimas. As lágrimas que sempre derramamos em demasia.

Tampouco entendo sua fixação em mim. Sei que cedo notaste meu ardor ao amar. Sei que pareço uma terra fecunda à fricção. Suores noturnos e confissões na ausência de luz. Mas agora te peço que parta. No meu peito só jaz a mácula da dor que me trouxeram alegando-te, Eros.

Éramos sempre um em dois receptáculos. Medida de flor que se alimenta de orgasmo. No entanto o mesmo tempo que fortalecia o meu jardim, enternecia minhas rosas, deixou as lilases dos homens em desconforto. Vi a morte daqueles jardins em nome do desejo por outros canteiros. Vi mentiras envenenando os caules e as folhas deitando em si mesmas. Encolhendo e desejando a inexistência. Porém nunca fui eu quem trouxe a peste. Nunca fui eu a responsável pelos abandonos. 

Não são as mulheres que incineram as construções. Não são as mulheres que usam as picaretas e põem abaixo o que se levou anos para construir. As mulheres são a medida da preservação. As mulheres são o cuidado, o zelo. Um doce encalço na busca da felicidade alheia. Primeiro. Primazia pelo sentimento alheio. Respeito e cortesia causam mágoas com maestria.

Não quero mais ser mulher se pra isso eu tiver que viver desse tipo de amor. Desse amor que fura minhas órbitas e me veste de óbices. Não quero ser lembrada por você como aquela que veleja voraz na tua voz quando me chama para qualquer lugar. Não rasgarei mais nenhuma bandeira por teus homens. Não quero teu vento.

Veja meus olhos cansados.
Por eles
Veja o vácuo deixado.
Por eles
Veja o vernáculo falso escrito.
Por eles

Sem amor sou pele, ossos, músculos e sangue. Apenas. Talvez seja tecidos, órgãos, ligamentos, veias e artérias. Apenas. Talvez seja tez impávida, língua áspera e pálpebras secas. Apenas. Mas aceito ser uma figura biológica de uma mera vida antrópofa, mas que não quer mais o luzir do fugaz.

Sempre fui a precursora dos homens não crescidos. Aquela que os punha no mundo pela segunda vez. Seguro a mão, ensino o amor. Só suspiro pelos perdidos, aqueles que admitem a dor. E, em seguida, dez vezes fujo de um destino senil em que dez vezes sou viúva dos doze desatinos que me permiti. E dezenas de vezes mais dorsos machucarás. Aquém de mim. Saí! 

Esquece meu endereço,

Pietá.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Tens a leveza do silêncio. Silêncio sem percalço. Silêncio como medida do vazio e das piadas que poderiam ser substituídas pelas verdades das tuas queloides e que tu nunca constaste. Tanto contas com teus números que os teoremas dos teus olhos continuam desvendados por minha discalculia. Anos irão definir a medida de nossas diferenças. Mas continuo sôfrega por livros que me permitam criar uma legenda para tuas íris que tanto gritam mas nada dizem. Só fica a certeza do silêncio. Morada sem assoalho é o espaço do teu coração.

Se teu peito é bruma no sertão, serei apenas mais uma mulher perdida em teu latifúndio escuso. A terra em que tu moras no fundo carece de loteamento, não conseguirei te encontrar. Escolhestes as lacunas e os tropeços dos ventos. Teu logradouro é pretensão que já aceitei como vã.

Não sei tuas medidas, não te peço outro quinhão
de atenção
pois do cume dos meus medos
lágrimas brotam sem segredo, sem cheiro
ou
pulsação.

És mapa sem caminho, averso aos novelos
de lã dos meus cabelos, do cheiro que me bate
mas que não chamas de saudade.

Inflama meu desejo e se esquiva do meu peso
Leva a vida como éter e cala meus sentidos
Lágrimas nenhuma verte
enquanto
Veste o corpo com ceticismos
Faz-se tudo, menos abrigo
Talvez um sonho, quiçá um engano
Mas certamente um amigo.

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)