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(…) Eu poderia te dar tudo, Pietá. Desde que você entrou na minha vida eu tenho esse fascínio por seus olhos cadentes e pelo luzir de todas as noites. E essa certeza pulsante de que o mundo nunca mais vai se apagar. Mesmo se você não estiver aqui amanhã ou semana que vem. Você pode seguir seu curso, mas algo em mim mudou e eu tenho que deixar luzir. Meu peito queima e é como se eu carregasse milhares de vagalumes entre minhas costelas. Meu amor por ti não vive mais apenas no destino das tuas curvas ou no teu intinerário bagunçado. É muito mais, Pietá. Essa paixão me suga os dias e me faz atemorizar toda a normalidade da vida de merda que eu levei até agora.

Eu vou te dar o mundo, Pietá. Vamos dar voltas pelos salões da gafieira. E eu nem sei dançar. Mas eu parei de ter vergonha. AH! eu parei de ter vergonha de começar de novo e admitir minha inabilidade anterior pra viver. Eu não sei como vai ser, mas deixo que você me ensine. Esse brilho que explode toda vez que eu esfrego meus lábios contra a tua pele molhada de suor. Esse brilho me faz mais promessas do que eu posso cobrar e de súbito, não tenho mais presa. Não te peço amarras, Pietá. Só quero os momentos que tu puderes me dar. Vou viver com o teu cheiro entranhado nos meus cabelos do peito e aquela sensação de que você fincou estacadas e demarcou teu pedaço de mim.

E eu não sei como seguir, de repente não há mais silêncio. Ouço Bach por todos os lugares e neste momento quando a chuva escorre por teus cabelos e pinga dos teus cílios, eu sinto uma sinfonia intensa e percebo que só agora eu entendo o significado da arte. Hoje eu sei o valor dos poemas. Hoje teu corpo me mostra o peso da poesia. E todo o resto é tão mediano, e eu nunca mais me permitirei viver nada que não seja voraz.

Esses círculos que habitam minha cabeça viram elipses em minha memória e eu me encontro entorpecido pelo o teu sorriso cansado. A chuva bate no que outrora fora meu teto de vidro, e hoje são apenas telhas, de barro, que podem quebrar. Porém eu não quero mais ser forte. Eu abandonei a proteção. Faço meu peito vulnerável para que você possa entrar. Faz morada em mim. Então você chega, armada de uma legião de pincéis de cores vibrantes, não respeita nenhuma regra, reconstroi todo um traçado de amarguras expressas por tons pasteis. Você irradia cor, você é Pietá.

Eu te darei todos os compassos e a cadência dos dias tristes, confessarei minhas dores e não tentarei te segurar. Eu aprenderei a te amar entre as sinapses. Vê como é bonito esse amor livre, esse sexo sem conceitos ou formas. É e apenas é. Te ver chegar de madrugada e não te chamar por mais nada além do teu nome. Pois ele é o único vocativo que não se pode afastar. Teu nome é a única medida de tua permanência. O resto voa, circula. Teu sexo é etéreo e, se pousa, é porque também me deseja. Puramente. Sem conveniência. Sem exigência. Sem convenções.

Te amar como amo o sol. Ficar cego e queimar meu corpo inteiro com tua proximidade. E não ter medo. Meu choro se mistura com a chuva e eu não pondero. Eu não tenho vergonha. Ah! e pela primeira vez na vida eu não tenho medo!

Saio então te puxando pela mão e você segue o caminho todo trôpega. Só se preocupa em sorrir e beber a água da chuva. Toda encharcada. A roupa segue o teu formato, te adesiva e te delineia. De fato, Pietá. Você só poderá ser expressa pela arte. Dama das minhas pedras. Me ensinou quais quebrar. Você é um suspiro.

Ou um grito.

Te puxo pela cintura até cingir meu corpo ao seu de forma que não possamos mais diferenciar nossos membros. Vemos as histórias contadas pelas íris um do outro. Nos nossos olhos molhados. Incrivelmente molhada. Beijo sua patela e vejo as marcas de seus dias burlescos. Você não esconde, você expõe com orgulho todas as suas marcas. Ah! essa certeza primária de ter finalmente encontrado alguém primordial.

Você dança em mim. Rebola os dias vãos e zomba de todo e qualquer prosaísmo. Contigo as palavras flutuam, head over feet. E nada pesa, tudo é tão delicado e leve. Até que você rebola e vejo os quadris incinerarem toda e qualquer bondade. Paixão não é piedade. Essa paixão é o traço mais cruel. A mais sórdida e deliciosa que já provei.

Seus olhos gargalham e confessam que me querem mais. No frio da chuva, no encolher da pele. Na rugas das águas. Você me quer e eu me sinto grato por essa cegueira inteira que me acomete.

De repente eu não penso mais nas contas, nas plantas que estão ressecadas e se esqueci a luz do banheiro ligada. De repente eu não sinto mais aquela por constante no joelho que sempre me lembra de procurar um especialista. Não lembro mais que preciso peticionar na segunda feira para não perder o prazo da Cristina. Os boletos podem vencer sem pagamento. Os gatos podem morrer de fome e eu não preciso comprar mais pó de café.

Tudo vira prescindível e tudo é bloqueado até que você levante de cima de mim e me ordene que faça o mesmo. Acabamos?

Por enquanto.

E então eu noto que não sei que dia é hoje, não sei quiçá se os dias são divididos em turnos e não sei mais estimar horários. Talvez este não seja mais nem o calendário gregoriano.

Apagaram-se os vestígios dos meus anos e eu não tenho mais identidade. Não tenho mais cadastro de pessoa física. Sublimei.

Adentramos a pousada dos loucos com as pernas cobertas do pó das sacanagens escondidas. Subimos molhados, rindo obscenamente. A dona dos olha com olhar de reprovação, porém não há importância. Pobre mulher de vida mansa, nunca chamuscou os pelos no atrito com o alheio. A vida é, de ímpeto, um samba e eu sei que fará sol em algum momento. Enquanto isso, foderemos com a chuva.

Pietá segue distante para o chuveiro, toma um banho quente e se aconchega no meio das toalhas limpas. Sinto que pende sobre ela um cansaço físico, mas a mente resplandece. Me sorri daquele jeito que pede licença para voltar em um minuto. Deita e dorme. Dorme um sono que quebra todas as minhas correntes enquanto eu a observo. Nua. Tão poesia.

As costas ainda exibem as marcas do sutiã recém tirado. Não há marcas de calcinha pois não as usa. Só aquela pele sabe como ser indelével. São confissões de dias tristes aquelas que eu faço enquanto ela dorme. E eu sei que ela não as esquecerá. Mesmo insone, guardará tudo que veio em segredo pelos os meus lábios. Mas eu terei mesmo dito algo?

Ou eu precisarei dizer? Essa sensação de compreensão, como se todo o livro que conta o meu trajeto fosse a leitura de cabeceira de Pietá. Como se no momento do enlace, ela chupasse meu lóbulo esquerdo antes de confessar baixinho em minha orelha direita “você já me disse, Heitor”.

Ela sabia. Ela sabia do tamanho ardor de nossas mentes e corpos. E era por isso que ela se permitia ser tão nua. Ela também não tinha medo.

(…)

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

 

 

 

 

 

 

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Futilidade Léxica

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Desculpe, meu amor.
Mas não desculpe o meu amor.
Sou feita de pedras de sal que só dissolvem na água do dito
Interpreto silêncios com crudelidade, construo castelos de desprezo
Anseio o dia do logos. A sol do feito em palavras
Sou fútil e sem linguística não vou!
Futilidade léxica, desejo substantivos
Adjetivos em prol da penetração
Tua ação começa no discurso, transcreve minhas íris em versos!

Desculpe, meu amor
Mas não desculpe o meu amor.
Sou rito em cadeia de letras que só incendeiam por composições
A candeia de todos os escritores é a transcrição da luz do verbo
Vê meu ventre liricamente e dorme em meus quadris
Mas não deixa de eternizar a beleza que eu preciso
Que é meu o descanso de tanta rudeza
Abstrações, que elegias!
Futilidade léxica, desejo substantivos
Só abro as pernas com sonoridade
Despeja sintaxe entre minhas ancas que eu delineio os teus fonemas!

(Bruna Alencar – Primeiros Poemas)

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(…) “Então eu vi seu riso virar pó. Vi a ranhura e o desgosto expressos nos teus dentes e mordidas de escárnio.

– Ele sabia que eu iria, ele só não anteciparia minhas palavras -.

Penetrar suas órbitas sempre foi meu desejo. Mas agora, ao descer aos seus olhos, eu só consigo sentir um ódio tão presente por eles. Ódio real. Daqueles olhos que me olham e julgam. Aqueles olhos sabem. Eu quero furar aqueles olhos.

Fiz as unhas ontem. Pontas simétricas, mas essa incrível disposição para usá-las. Destruir a perfeição. Quero chafurdar minhas unhas em seu corpo. E seus olhos. Quero enterrar minhas unhas em seus olhos e furá-los. Sentir a textura de tudo que vê. Habitar o tátil daquele espaço de visões cataclísticas. Você me deixar ir e doi, doi incrívelmente. Como na vez na qual você me deixou na porta de casa e não marcou o horário em que voltaria.

O silêncio profundo desses anos que colocaste [ou coloquei] entre nós. Me deixou na porta dos anos e não estabeleceu termo final. Me marcou com o teu ferro de gado. E fomos novilhos um para o outro. Um pedaço de carne que doi e pulsa e pede por sentimento. E pede por sexo. Na marcas indeléveis.
Só sobra então o peso do teu escárnio de longe, mas inevitável. E teus olhos.
E teus olhos.

Castanhos. Claros. Verdes? Dor límpida e zombeteira. Desprezo pelas cores, desprezo por conceitos e desprezo pela minha vontade de ter esperança.
Ter escolhido a esperança de outros mundos e conhecimentos nem sempre me satisfez. Me arrependi muitas vezes, Heitor. Quis ser monocromática na tua cama e urrei pelo regresso de nossa fodas desregradas.

Tantas vezes.

Mas a dor hoje é menor. Porém continua incomodando. É como aquele farpa ou aquele pedaço de vidro que passamos uma vida toda tentando chupar para fora dos dedos. Mas simplesmente não sai. Presença costante na derme. Talvez até tenha virado uma crosta. Virado tão parte de nós que a tentativa de retirá-los talvez nem seja tão veemente.

Eu quis teu pau, Heitor. Eu quis de volta aquela tua força no alto dos nossos 15 anos e fugas pelas ruas e ladrilhos daquela cidade de idiotas. Eu quis morrer de ressaca e vomitar nas calçadas enquanto você ria e se sentia gigantesco por ser a única pessoa capaz de me salvar da minha imundíce. A minha sujeira sempre foi admitir o tamanho do vazio que pulsa no lugar do coração.

Pois meu coração você comeu na primeira noite, não é? Talheres de prata, luxo expresso e eu te dei meu coração como as putas lavam as calçadas de seus amores.
Mas a sua marca não saia nada hidrossolúvel, tampouco lipossolúvel, verdadeiro exemplo de permanência, assim como seus olhos e suas piedades.

O gosto do sangue da minha boca, meus lábios mordidos por ti até o sangue constituir nascente no limite do aceitável. Gosto férreo e amor seco. Sexo. Mas que limites mesmo?

Cabelos puxados, garras contraídas e aquele gosto da tua presença dentro da minha buceta sem nenhum pudor, aquele pudor que antes carregávamos para nossas família de merda.

Não somos santos, fomos descaradamente as putas um do outro.

Viver na sombra dos teus olhos é sentir você me comer todos os dias, nos momentos mais íntimos e solitários.

Até hoje. Não sai.

Não segue o curso desses dias de merda porque eu não encontro mais teu corpo mas você não me abandona.
Seus olhos. Por toda parte. Teu jeito de foder com maldade, de não sentir pena e nem admitir fraquezas. Colono das minhas terras longíquas e certas de sexo. Semén com gosto de posse. Fez de mim território escriturado de modo intransferível.
Para eles você apenas concedeu meu comodato. Eu continuava sob o domínio dos teus olhos certos e secos. Secos. Amor expresso por sexo e servente. Só viver nas tuas amarguras e no retesar do teu maxilar anguloso. Ser um par de pernas e querer ser apenas corpo e te amar com todos os meus lábios.
Orgasmos múltiplos, sem superfícies sagradas.

Te amar foi viver sem me esconder e sem quaisquer esconderijos.
Nada omitir e nada negar.
Te dei cada orifício do meu corpo e te dei meu pedido de socorro.
Vivi em tuas chamas escusas e no encobrir do teu corpo grande e alvo.

O suor escorrendo pelos os teus braços, cansados, pingando em meus peitos e no espaço em que antes ficava o meu coração.
Assistir a declaração da nossa loucura ser lavrada em cartório pelas fodas inesperadas, inexplicáveis e certas da dor da pele dilascerada por noites de uso incansável. Viver na sombra do meu furor por esse buraco negro do teu peito. Só ter meus sacramentos na ponta da tua língua.
E teus olhos. As voltas do parafuso na verdade não era de Henry James, era minhas voltas no teu pau. Rebolar feito louca enquanto te olhava nos olhos e puxava a crina da tua nuca na tentativa de nunca parar nossas fodas que nos diziam tanto sobre intensidade.

Nunca aceitar menos intensidade. Viver na transformação pelo fogo dos olhos, fogo que nunca vai se afastar de nossas íris.

Então, na tua ausência, transformei as palavras dos teus olhos em gasolina para o meu fogo diário de vida, combustível para essas labaredas que queimam em mim todos os dias quando eu aceito a missão de seguir o meu rumo, tomar meu tento. Uso essa energia como força de catarse, em busca de fodas ao longo da vida, e não me permitir fodas medianas.

Antes sofrer com o celibato, mas nunca transformar o sexo em mecanismo de normalidade. Respeito por devoção. Sexo é território de imolação.
Sacrifício do corpo. Me sei certa de que ninguém sairá meramente chamuscado da minha cama. Aprendi a cremar as carnes e lamber os ossos depois de levar todos até o fim da jornada pela libertação sexual. Conduzo ao fim das regras e chupo até sentir a língua seca. Me contorcer por água enquanto a língua cola no céu da boca e sorri depois de tantos sabores impresos.

Ser fogo é aceitar o papel de instrumento de transformação. Trazer o mais brutal dos homens à sua forma mais tântrica, fazê-los aceitar sua forma torpe. Não negar as sujidades de ser humano e então entregá-los em uma baixela para seu próximo amor. Remetê-los para amores bons, sãos, saudáveis e comedidos. Que não será o meu. Sou fogo e carne alguma cozinha eternalmente. Pois Ser fogo é foder com gosto de verdade.

E seus olhos são as verdades que eu ainda preciso aceitar.”

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)

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Três riscos de toques tristes
Soa seu silêncio [o bordado das horas]
O desejo que inflama [já passou pra outrora]
Não há mais espaço vago [para minha presença]
em sua cama
Perco o verso no meio [e teus olhos no estio]
Minha dor é a membrana?

Três riscos de toques tristes
Seja voz clara e precisa [não seja só ganas]
Ourives do logos [de quereres incertos e  natureza mundana]
Tua voz me foi furtada [por ti mesmo]
Cerra os lábios [e esconde a língua]
Meu ímpeto te assombra?

Três riscos de toques tristes
Sinto o que sois [tez marcada pelo tresloucar]
Nunca me ter [só me alcançar]
Não querer o trajeto [que humaniza o objeto]
Do teu desejo [por traços longos e esbeltos]
Sem vínculos [para que sejamos arquétipos]
Meu corpo ainda é dança aspirada?

Três riscos de toques tristes
e três horas que trocaria
pela foda tântrica que transpõe
limites [e termos].

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)