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(…) “Então eu vi seu riso virar pó. Vi a ranhura e o desgosto expressos nos teus dentes e mordidas de escárnio.

– Ele sabia que eu iria, ele só não anteciparia minhas palavras -.

Penetrar suas órbitas sempre foi meu desejo. Mas agora, ao descer aos seus olhos, eu só consigo sentir um ódio tão presente por eles. Ódio real. Daqueles olhos que me olham e julgam. Aqueles olhos sabem. Eu quero furar aqueles olhos.

Fiz as unhas ontem. Pontas simétricas, mas essa incrível disposição para usá-las. Destruir a perfeição. Quero chafurdar minhas unhas em seu corpo. E seus olhos. Quero enterrar minhas unhas em seus olhos e furá-los. Sentir a textura de tudo que vê. Habitar o tátil daquele espaço de visões cataclísticas. Você me deixar ir e doi, doi incrívelmente. Como na vez na qual você me deixou na porta de casa e não marcou o horário em que voltaria.

O silêncio profundo desses anos que colocaste [ou coloquei] entre nós. Me deixou na porta dos anos e não estabeleceu termo final. Me marcou com o teu ferro de gado. E fomos novilhos um para o outro. Um pedaço de carne que doi e pulsa e pede por sentimento. E pede por sexo. Na marcas indeléveis.
Só sobra então o peso do teu escárnio de longe, mas inevitável. E teus olhos.
E teus olhos.

Castanhos. Claros. Verdes? Dor límpida e zombeteira. Desprezo pelas cores, desprezo por conceitos e desprezo pela minha vontade de ter esperança.
Ter escolhido a esperança de outros mundos e conhecimentos nem sempre me satisfez. Me arrependi muitas vezes, Heitor. Quis ser monocromática na tua cama e urrei pelo regresso de nossa fodas desregradas.

Tantas vezes.

Mas a dor hoje é menor. Porém continua incomodando. É como aquele farpa ou aquele pedaço de vidro que passamos uma vida toda tentando chupar para fora dos dedos. Mas simplesmente não sai. Presença costante na derme. Talvez até tenha virado uma crosta. Virado tão parte de nós que a tentativa de retirá-los talvez nem seja tão veemente.

Eu quis teu pau, Heitor. Eu quis de volta aquela tua força no alto dos nossos 15 anos e fugas pelas ruas e ladrilhos daquela cidade de idiotas. Eu quis morrer de ressaca e vomitar nas calçadas enquanto você ria e se sentia gigantesco por ser a única pessoa capaz de me salvar da minha imundíce. A minha sujeira sempre foi admitir o tamanho do vazio que pulsa no lugar do coração.

Pois meu coração você comeu na primeira noite, não é? Talheres de prata, luxo expresso e eu te dei meu coração como as putas lavam as calçadas de seus amores.
Mas a sua marca não saia nada hidrossolúvel, tampouco lipossolúvel, verdadeiro exemplo de permanência, assim como seus olhos e suas piedades.

O gosto do sangue da minha boca, meus lábios mordidos por ti até o sangue constituir nascente no limite do aceitável. Gosto férreo e amor seco. Sexo. Mas que limites mesmo?

Cabelos puxados, garras contraídas e aquele gosto da tua presença dentro da minha buceta sem nenhum pudor, aquele pudor que antes carregávamos para nossas família de merda.

Não somos santos, fomos descaradamente as putas um do outro.

Viver na sombra dos teus olhos é sentir você me comer todos os dias, nos momentos mais íntimos e solitários.

Até hoje. Não sai.

Não segue o curso desses dias de merda porque eu não encontro mais teu corpo mas você não me abandona.
Seus olhos. Por toda parte. Teu jeito de foder com maldade, de não sentir pena e nem admitir fraquezas. Colono das minhas terras longíquas e certas de sexo. Semén com gosto de posse. Fez de mim território escriturado de modo intransferível.
Para eles você apenas concedeu meu comodato. Eu continuava sob o domínio dos teus olhos certos e secos. Secos. Amor expresso por sexo e servente. Só viver nas tuas amarguras e no retesar do teu maxilar anguloso. Ser um par de pernas e querer ser apenas corpo e te amar com todos os meus lábios.
Orgasmos múltiplos, sem superfícies sagradas.

Te amar foi viver sem me esconder e sem quaisquer esconderijos.
Nada omitir e nada negar.
Te dei cada orifício do meu corpo e te dei meu pedido de socorro.
Vivi em tuas chamas escusas e no encobrir do teu corpo grande e alvo.

O suor escorrendo pelos os teus braços, cansados, pingando em meus peitos e no espaço em que antes ficava o meu coração.
Assistir a declaração da nossa loucura ser lavrada em cartório pelas fodas inesperadas, inexplicáveis e certas da dor da pele dilascerada por noites de uso incansável. Viver na sombra do meu furor por esse buraco negro do teu peito. Só ter meus sacramentos na ponta da tua língua.
E teus olhos. As voltas do parafuso na verdade não era de Henry James, era minhas voltas no teu pau. Rebolar feito louca enquanto te olhava nos olhos e puxava a crina da tua nuca na tentativa de nunca parar nossas fodas que nos diziam tanto sobre intensidade.

Nunca aceitar menos intensidade. Viver na transformação pelo fogo dos olhos, fogo que nunca vai se afastar de nossas íris.

Então, na tua ausência, transformei as palavras dos teus olhos em gasolina para o meu fogo diário de vida, combustível para essas labaredas que queimam em mim todos os dias quando eu aceito a missão de seguir o meu rumo, tomar meu tento. Uso essa energia como força de catarse, em busca de fodas ao longo da vida, e não me permitir fodas medianas.

Antes sofrer com o celibato, mas nunca transformar o sexo em mecanismo de normalidade. Respeito por devoção. Sexo é território de imolação.
Sacrifício do corpo. Me sei certa de que ninguém sairá meramente chamuscado da minha cama. Aprendi a cremar as carnes e lamber os ossos depois de levar todos até o fim da jornada pela libertação sexual. Conduzo ao fim das regras e chupo até sentir a língua seca. Me contorcer por água enquanto a língua cola no céu da boca e sorri depois de tantos sabores impresos.

Ser fogo é aceitar o papel de instrumento de transformação. Trazer o mais brutal dos homens à sua forma mais tântrica, fazê-los aceitar sua forma torpe. Não negar as sujidades de ser humano e então entregá-los em uma baixela para seu próximo amor. Remetê-los para amores bons, sãos, saudáveis e comedidos. Que não será o meu. Sou fogo e carne alguma cozinha eternalmente. Pois Ser fogo é foder com gosto de verdade.

E seus olhos são as verdades que eu ainda preciso aceitar.”

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)

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