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Essa crença nesse amor de janela aberta
ainda muito vai ser chamado de neurastenia,
N’um tempo onde os olhos só descansam inquietos
Só há certeza onde houver sangria.

Os dias dobram nas lacunas do peito
Os afixos transbordam irregulares
Naquele momento de calma entre o choro e o medo
Só pulsa a solidão do mundo que nasce
Nada se diz, nada se pede
Só a impotência dos pés ausentes
Outrora túrgidos de incômodos,
de não vê-los como certos
em seu cediço caminho
de abandonos diários.

As garrafas gritam vazias
Reclamam seu quinhão de carinho sincero
– a todos cabe a ilusão de importância –
Mas nem todos seguem firmes
Diante da mudez das mesas solares
no meio de tantos períodos de vacância.

Dores arcaicas
garrafas térmicas
as cores respondem com indiferença
diante das preocupações humanas;
destoam os beijos cientistas
nos quais toda a saliva é mera química
quantificando hormônios
diante do urgir dos autômatos.

Indigno-me porque posso
por que com a arte tomei posse
dessa beleza que nega o vidro
troca laboratórios por camas
e faz sonatas com as palavras.

O gosto vítreo não agrada
Os pálidos amores não servem
Vejo apenas um rosto cálido
de pedir paz no teu esperma
sem me preocupar com teus açúcares.

Sou uma aprendiz de andar sinuoso
e só ofereço metástase.
Desculpe o alarde,
prometo partir pela tarde
e lavar a caneca no antes.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Jacek Yerka 01

Um bombardeio?
Ah não!
Só mais um tempo em cacos
Estilhaços, pernas, braços
Zona de aluvião
Correm as horas, tique-taques
Tão desenvoltos
Dançam no salão
Demo-nos corda
E enroscamo-nos
sem perdão.
Tique-Tique. Toque triste.
Tique-Tique. Toque não.

Me debulho como um touro
Nos silêncios de orgulho
Não há mansidão, nada para
A batida ecoa torta
Por entre tuas novas folhas
Camufla-se ou camuflamo-nos:
Quem somos quando
a ira toma-nos completos,
e lambe os beiços,
com gosto férreo?
Tique-Tique. Toque louco.
Tique-Tique. Toque vão.

É um reino inquebrantável,
Zombeteiro, impenetrável
Que circunda tal região.
Quiçá um dia, tenha eu
Traje para sentar
Diante dos teus portões
nominados serenidade
Para ousar, ao menos,
ter esperança de usucapião
dessa vereda inóspita,
sem porteira ou modo
de aquisição.
Há apenas o pio
Do assum preto,
que bica, bica
E constata
Como é dura e inflexível
A faixa de terra que tu chama coração.
Tique-Tique. Toque seco.
Tique-Tique. Toque só.

Brindamos nossas conquistas
Em nossa inegável solidão
Espumo em veleidades
Para convencer-me
De não ver teu olhar
Que descansa no descaso
E reside na certeza
De ter-me fácil
Sempre à mão,
Como um criado-mudo
Um calço de porta
Uma cortina no verão.
Tique-Tique. Toque crasso.
Tique-Tique. Toque são.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)