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I.

Muito se fala do perigo
do rouco da memória,
dos louros de outrora
ao fitar o calmo do teu rosto;

do rastro de outros corpos
não se falou,
se calou em velas
sobre
o agouro da tua demora.

II.
Quantos ais fugidios
teus olhos brilhavam foscos;
brio de sacanagem, de fato mundana
mas transmutou-me
num canto
das partidas santas,
dos deitares incólumes
a qualquer noite de sono.

III.
Perdoa o encantamento
próprio de criança, o primeiro dos poetas
O querer claro, sem mácula
o dizer em voz alta
palavras próprias
dos adeuses em horas caladas.

IV.
Eternizo o que posso
do mundo revirado
papeis de contas, luvas aladas
o abismo dos rastros
de tocar no modo aquisitivo.

V.
O dia tão límbico
os vizinhos, adormecidos
e a recordação persistente
da sua cara,
expressões e vértices
os detalhes componentes
de possíveis descendentes.

VI.
Se sei tão pouco,
o fascínio acaba
em pequenos queixumes.
Que pena, Meu Deus,
te amar de cara lavada
e aceno no punho
pronto para o avesso da chegada.

VII.
Aceitar que a missa
da pele já se fez acabada.
Sejamos ou seríamos –
casuais, enquanto me encontro
deveras admoestada.

VIII.
Que brincadeira leiga
meu peito não pode
fincar em malote
anseios de toque
e remetê-los ao nada!

IX.
Peitos ou pernas, café
expresso
por horas
põe a voz nos visgos,
escala e se incorpora
vira hera, rompe os beijos
induz o fim fatídico
desse
efusivo sentimento.

X.
Boa sorte com as uvas,
Obrigada pela seiva.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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A solidão que se fez de pronto
instaurou-se, apenas,
não pediu perdão aos dias
tampouco deitou água nas hortas
agora vazias.

É que tudo o que pintamos
por vezes parece crasso,
destinado à alguma ironia
dos tempos em que se punha
os olhos em cestas
oferecendo-os a quem quiser que seja(s)

Cedemos muito no antes
Antes de vermo-nos arfantes
Mas agora nada cedo aos transeuntes
Pois agora escondo os olhos em baixelas
para só os servir aos teus rompantes.

Talvez ingenuidade, talvez alquimia
É que muito expliquei pela eletricidade
que contaminou meus tempos presentes
o choque dos corpos
das horas vadias.

Como se dá essa transmutação?
Em que se converte o ócio hipotético
em obrigação de dar
constituir-me em mora sem hesitação
às batidas na porta
batidas de braços e bocas
do teu suave coração.

E lá vem, de novo, não cansa
que estorvo, mania de fidelidade
ideia constante
doença velha, inescapável
Uma das partes, sentida insone
ao longo da tarde.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Poemas pouco pedem
Despretensiosos, silentes
Angularizam qualquer relação banal
e tornam as excepcionais, perenes.

Poemas pouco pedem
Demandam aos poucos, pé ante pé
Se prostram diante das escadas
Sobem quietos, ardentes.

Poemas pouco pedem
Deitam de lado, serenos
Esperam o tempo da vida
Embora sejam aves, de rapina.

Poemas pouco pedem
Mas fazem um estrago, de fato
Mostram o inconfessável
Os desejos loucos, sem travo.

Poemas pouco pedem
Só transcrevem um olhar, franco
A delícia em te ver
E o coração, aos trancos.

Poemas pouco pedem
Traçam mapas imaginários, delírios
Repetem o beijo de vinho
E o gozo certo, em desalinho.

Poemas pouco pedem
Alguns dias são roucos, representantes
E tomam posse aos poucos
Levam as roupas, e o corpo.

Por completo.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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“O estalo dos corpos,
no vibrar do cansaço
os olhos que açoitam
meu dorso devasso.

‘Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá’
ao riscar pele com pele
ao mormaço retirar.

Ode ou elegia?
Um desejo de gozo,
Algumas outras fantasias
um lugar para encaixar
sonhos e algumas covardias.”

(Bruna Alencar)

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“Uma mixórdia de lugares, fotos, faces. O face a face que fomos e deixou inegáveis rastros. Um dia nos desconectamos. Acordamos alheios à qualquer tipo de companhia que pudéssemos representar um para o outro.
Levantei, troquei de roupa. Dobrei sua camisa e deixei no sofá. Tomei um café mal feito, com gosto de água e borra. Infelizmente, das muitas lições que aprendi contigo, fazer um café igual ao seu não foi uma delas.
Escovei os dentes. Escovei. Escovei. Escovei e você não acordou. Algumas horas desde que sai da cama e você não notara minha ausência.
Paciência. Paciência. De todos os males, paciência.
Abri a porta do quarto, o rangido anunciou a pretensão. Te olhei de longe mesmo, para não precisar alargar a aresta do barulho. Para manter o silêncio. Não perturbar teu sono urgente.
Mas algo ainda você escutou e soube que vinha de mim. Entortou os lábios, franziu a festa de desgosto e num gesto reto e curto, trocou de lado e escondeu o rosto.
Queria eu poder esconder o meu.

Peguei o que pude, o que ainda serviria para algo. Talvez com a vontade de também deixar uns tranqueiras que você se relutaria em se desfazer. Até que um dia, no meio de uma discussão, uma outra mulher exigiria que você me pusesse porta a fora. Minhas coisas remanescentes, digo.

Épica, latina. Cheia de cenas ensaiadas na calada da noite, ou na calada do dia claro porém cedíssimo. Ah, eu fui tão atriz. Eu interpretei tantos papeis, fui tua mãe, sua amiga, irmã, filha e exponencialmente mais, fui tua amante.

Mas o mais difícil é encarar esse papel de desconhecimento, o ato no qual nossas vidas se descolam. Te imaginar como apenas mais um personagem muito vívido, de um daqueles meus livros de cabeceira. Aceitar que você foi escrito em mim, escrito à prensa. E te ocultar em minha epiderme. E imaginar o teu olhar sobre tudo e que não titubeia em sentenciar: ‘quanta breguice, meu deus’ “.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

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Gosto
do gosto do gozo
dos corpos gastos
dos gestos bruscos
do gênio forte.

Balbúrdia de peles
Te odiar me cansa
Quando a buceta pede.

Tanto mais certo o fim
Mais grave a memória
Que entorta os compromissos
Para não fugir ao galope.

Garanto tua geografia
explorada ao longo da tarde
na qual só a gala faz a travessia.

Ora, se peço clemência
Atende ao chamado
urgente e franco: me fode.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)