fhfh

Eu estou no seu estado
e sem você as coisas não alcançam
sequer o status de coisas
tudo é externo e muito só
de forma que agora
nessas horas em que paro,
ouço muito e nada falo, mudo
os sotaques me chegam
fortes, me botam quebranto.

Todos falando a sua língua popular
identidade cultural é algo lindo
veja bem, mas ainda assim
você não está.

Quando conseguirei analisar o estado de coisas
se não sou tão científica
ainda não transcendo o desejo
e algo em mim ainda pulsa
desgovernado. etéreo. Tremeluzente?

Quando poderei me debruçar aos
fenômenos da linguagem, quando
quero que todos calem
o teu sotaque
que é só teu
e tão só.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

 

 

Anúncios

imoutt

Não tem faltado trabalho, graças a deus
Continuo agradecendo como se não fosse um encargo
Tenho vendido a alma ao diabo
e o diabo passa bem
muito bem, muito bem
certamente melhor do que eu.

Por favor, senhor diabo
Corrija logo o relatório apocrifado
Desculpe a demora, sei que tudo é urgente
inadiável
Embora nada seja assunto de Estado.

Tudo não passa de uma categorização vaga
confidências burocráticas, amarras clandestinas
jurídicos poemas, emblemas
porém,
ao menos
as contas estão pagas.

Enquanto o diabo crê em deus
eu não creio em nada
que não seja estritamente empírico, palpável
Como eu poderia acreditar no deus do eterno?
que esbanja infindáveis horas livres sem nenhum pudor?
Como eu poderia acreditar em uma figura mitológica
tão distante da minha agonia?
Quando a mim só cabe vender
minhas horas, dias, quinzenas, meses e anos
meus anos, meses, quinzenas, dias e horas
segundos, segundos, segundos
Apenas para poder
levar uma vida minimamente vivível.

Ah, mas trabalho não tem faltado,
graças a deus.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

EGO

Abandone o gado, abandone o leite
abandone a colheita e qualquer pretensão
abandone o homem, abandone o sentido
abandone a ideia de perempção.

Abandone o Sistema e suas peças
as construções poéticas, as lápides arquétipas
Abandone a antipatia pelo desgaste das ruas
Abandone toda e qualquer melodia
converta a si mesmo em um sistema perfeito.

Abandone o indivíduo autóctone
Abandone o ar puro, a especialização das tutelas
o forma dos laços, o rigor mortis
o sexo dos moribundos e até o litisconsorte.

Abandone todo e qualquer título abandonável
pai de família, amigo fiel, abastado e boa-sorte
Abandone-os sem pena.

Os filhos, as mensagens, a cólera
lembre de abandonar os lembretes
e cuspir a memória e o agora
para que, assim, também a eles se possa abandonar.

Os abanos, os abonos e os botões
abandone-os todos
Camufle, resguarde e reponha apenas dilemas
nessa grande e certa ficha
viva fresco o desafio de pesquisador
sem todo e qualquer elemento subjetivador
que contamina os resultados, não mais se admite o pudor
aliás, abandona-o já, junto com as roupas de baixo.

Abandona os limites, as amarras e o asco
Veja num ambiente vago, abandona o entulho dos vínculos
as expectativas vãs.

Abandona porque tudo que vais aprender
daqui para a frente é apenas
sobre
polir a arte do abandono
em um caminho de análise de danos
e revisões biblio-biográficas
para novamente constatar, corroborar, ratificar
o que sabias desde o começo dessa jornada
de corpos científicos:
O pesquisador é um abandonador.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)