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Ernesto, meu querido, estou de volta.

Sumi repentinamente e reapareci mais desprovida de razão do que quando da partida. Não aguento mais fazer sentido. Conceitos são uma merda, convenhamos. Tudo o que é rígido, massacra. Mas lá vou eu aqui tentar me justificar com os fatos do meu cotidiano que fogem aos olhos de todos, mas nos quais minha pele se fixa e diz basta.

Eu hoje resolvi bem pouca coisa. Quase nada para ser sincera. Na verdade comecei o dia com mais esperanças do que forças para carregar meu quinhão de obrigações diárias comigo, conosco e com esse dito mundo empírico.

Acordei coçando o peito. Coçei. Coçei. Bem no meio dos peitos mesmo – seios é uma palavra que não aplico contigo – e lá no fundo. Coçei como se tocasse apenas uma superfície de vidro e a coçeira estivesse por baixo. No final eu nem sei porque coçei tanto, se nunca cheguei a alcançar a raiz da minha sensibilidade. Talvez tenha sido pelo  bom e maldito hábito.

O desfecho é que aceitei que o dia de hoje não tem moral ou qualquer outra aplicação edificante. O dia nasceu cinza e só não vai terminar do mesmo jeito porque a noite chegou e sarcasticamente desempenhou seu papel de tudo cobrir.

O ano está acabando. Os gerundismos têm mostrado as caras. Algumas pessoas ainda fogem de mim, enquanto eu ainda fujo de outras. Se fizermos uma análise lato sensu tudo está na mesma. Eu acho.

Ou talvez nem tanto. Hoje eu tenho o peito ferido por uma coçeira que surgiu não sei de onde. E nem sei porque diabos me deu vontade de te escrever, você nunca responde mesmo. Sem problemas.  Você é que está certo. Antes trocar as letras por vozes do que continuar nesse delírio de mudos letrados.

Não sei, talvez eu só estivesse com saudade de escrever cartas. De escrever nada com nada e no final dar-me conta que tudo é fosso. Não sei, Ernesto. Já fazem alguns anos desde que te vi pela última vez. A barba está crescida? os filhos estão crescidos? as unhas foram cortadas ou também estão crescidas?

Estão todos tão crescidos. E nisso me incluo.

Hoje contei cinquenta e dois processos de gente dolorida. Tanto tempo atrás daqueles papeis. Tantas vidinhas estupefatas esperando por essa divindade que irá dizer o direito. Nem acho que tenhamos abandonado os mitos. Tantas presenças ainda tão oníricas. Apenas constatei que ainda esperamos tantas sentenças placidamente.

No final do dia nem a angústia me coube por ter feito tão pouco. Dado tão pouco. Sentido tão pouco e ter tão pouco sido. Estamos todos sentados. Todos esperam algo. Um amor. Uma decisão. A cura. A esperança. Os boletos. Ou até mesmo a coçeira. Por que haveriam de se incomodar se eu permanecer sentada um pouco mais de tempo?

A vida passa aqui do lado. Chama. Dou aquele sorriso de canto, aceno e penso “vai, desgraçada”. Hoje eu só quero exercer meu direito de ser ingrata.

Vá se foder, Ernesto.

Pietá.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

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Sois de Aerossois

solaarwrs

Tempos de tantos
tantos nós
Um riso frágil, presente
Os cantos das bocas
Os cantos das gentes,
terminaremos todos
cantando como loucos.

Sois de Aerossois
Não me deixe rezar sozinha
Põe aqui a mão junto da minha
e me traz outra vida,
menos desgastada, menos poída
e mais fantasia.

Sois de Aerossois
só não me esqueça nas sombras
Disseram que minha vez
há de chegar
Mas que chegue enquanto
tenho os ossos juntos das carnes
e as peles no lugar.

Sois de Aerossois
Por que me abandonastes?
Se eu era viva, inocente. Blimunda.
Chafurdava quieta na lama da vida
aquela mesma vida
que não me deixou nada
além de concepções utilitaristas.

Sois de Aerossois
Me arremesse ao vento,
Troca meus ombros por asas
e todo esse asco por poesia
Que hoje eu quero ser
algo entre o anjo e o demônio
mas sem nomenclatura
determinada.

Sois de Aerossois
não me deixe ser só mais uma Maria
Me explode se, por ousadia
eu tocar teus raios solares
Me incinere, se preciso
me leve
Mas me faz Deus
quando o pó da vida
me entender acabada.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

eeeuuu

Antes mesmo do café,
traz a poesia.

Aceita que antes de formar
em mim teu nome
eu me forrei de palavras
alegres, cálidas
palavras pequeninas, diminutas
e outras tantas
bruscas, aladas.

Compro palavras por metro
nacionais ou importadas
de Ancara
mas não reaproveito
palavras herdadas
sou ética em meu desatino.

A palavra existe
apenas porque eu existo
em mim faz morada
sem ela sou sozinha, sozinha
fresca em minha solidão
desanuviada
de forma que não,
eu não reaproveito
palavras herdadas.

Antes mesmo do café,
traz a poesia
e aquelas outras palavras
esquecidas, despudoradas.

Aquelas que falam do sexo,
do arroubo
daquela tua gala infernal
da dor petrificada do gozo
falam da cópula,
do toque esquecido
daquela buceta molhada
aquelas palavras excretadas
traz aquelas palavras mal-faladas.

Antes mesmo do café,
traz a poesia
com verso e vozes dos ausentes
daqueles que sofrem das
dores no corpo
e das dores nos dentes.

Traz a poesia que não cala,
não seleciona remetente,
traz também outras palavras
as pesadas, incandescentes
as que, ainda que prensadas
saem para as ruas
e gritam o grito do demente.

Traz a poesia que não esquece
o que é ser gente
pender de fome antes do amor
e que a doença compromete a cor.

Traz a poesia
antes mesmo do café,
traz com a poesia
o desafio de ver a mim
mesma todo dia
e, assim, me dar a você,
simples, miúda,
francamente humana
em minhas tantas covardias.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)