Poeminha a Saramago

sara

Ai, o coração num compasso rouco
Os louros da memória
Os títulos de crédito
As escrituras rotas
e os rostos gastos.

O tamborilar dos dedos nos dias
eu, um círculo completo
mais um ano de agonia.

Tudo certo, boa sorte
ao menos temos os olhos frescos
e alguns queixumes de morte.

Não tenho trevo nem trova
apenas umas notas amargas
de medo sobre essa tal
imensidão branca
sobre essa decadência predestinada
sobre essa cegueira ensaiada.

As desculpas leigas
por esse mundo que entorta
alguns passam em comboio de corda
outros, com uma solidão despudorada
dos que veem além
dessa pura e simples
cegueira leitosa.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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ddg

Você veio pela minha insistência
Ficamos, permanecemos,
me beijou incessantemente
fez o café, lavou a louça
ocupou o sofá inteiro
tecemos horizontes vertiginosos
acostumamo-nos aos conjuntos
cingimos nossos tecidos conjuntivos
alegamos planos, cometemos enganos.

É o seguinte, meu caro
Eu sofro de labirintite
Isso não vai dar certo
nós dois, no caso
Eu sei que pedi você
acontece que eu mudei de ideia
Você invade, macula
e eu sou brusca, maluca.

Eu não quero que você me ampare
eu quero sofrer sozinha
por meu biquine de oncinha
e ir pegar uma praia
salvaguardar meu direito
de mudar de ideia no meio do caminho
ir ao museu de última hora
comer torta e depois sair para correr descalça
e olha, não vai dar para fazer isso
se você me espera no quebra-mar.

Cruzes,
o peso dos vínculos sociais agonia
é uma ideia estapafúrdia
eu quero meter o pé no mundo
antes que o mundo meta o pé em mim
decrete minha revelia
não ponha raízes nos meus sonhos
não me condicione à sua covardia.

Chega de por pedras nos bolsos
hoje tenho alergia, amanhã letargia
na maioria eu tenho impulsos medonhos
mas todos os dias tenho desejos insanos
que eu não quero te confessar
quero trabalhar até tarde todos os dias
sem te prestar contas do meu paradeiro
eu quero visitar um galinheiro
eu quero ser puta e ser santa
eu quero dispor do meu corpo
eu quero mudar, manter só o riso rouco.

Me deixe sozinha em meio aos livros
em meio à decadência
no delírio de não atar minhas pernas
às suas (já o Capital não me deixa escolha)
Pretendo continuar nua
e não responder perguntas matutinas.

Eu sei que eu pedi você
eu sei que sinto falta do seu corpo
do cheiro dos seus cabelos
do seu ronco baixinho, do seu tapa olho
das piadas ruins, dos sarcasmos
do abraço, da crença no amor fácil
mas eu fiquei cínica
e de repente eu quero mais
aqueles sonhos domésticos e tolos.

Foi lindo, foi bom
magnânimo, cheio de som e fúria
tivemos crisântemos
mas hoje tenho a poesia
me perdoe, ao menos um dia.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

me

Lilian, não aguentei, precisei escrever

 

Não quero que lembre de mim nesses dias como a amiga fugidia. Sei que estive muito com meus papeis e livros, minhas ideias soltas e sonolentas e talvez um pouco tempo demais só. Mas nós duas sabemos que esta sou eu com exatidão.

 

Ponho então diante de ti, por intermédio dessa carta, o desejo primordial da minha existência: apalpa quem eu sou. Põe as mãos sem pudor da substância que me mantém viva, sente essas teias que ligam a vida aos meus trejeitos.

Essa massa disforme é pesada, é densa, mas por vezes flutua mais fácil do que flutuam as sacolas plásticas. Essa massa expande, contrai, todo dia se vincula à propriedades diferentes – algumas mais do que as outras, é verdade, como no caso da solidão – mas toda essa massa medonha ainda anseia por ser entendida e, posteriormente, amada.

De nada me serve o amor sem compreensão. Quem não vê e não assimila minha substância só ama a aparência, a primeira das ideias falsas. Quando diz que a mim ama, espero que se ponha a tocar esse objeto estranho que sou eu, mesmo que com assombro, e que, por si só, decida que dele gosta. Só acredito nesse tipo de amor, o resto é conversa fiada, confete e cegueira mundana.

Ah! essa carta é tão especial que não pude evitar às lágrimas. Mas na verdade eu acho isso tudo muito engraçado. Lembro-me então das inúmeras histórias – estórias? – que te contei com tom jocoso sobre todos aqueles inocentes que com dois dias se atiravam em meus braços – e outras partes do corpo – sentenciando liminarmente: te amo, Pietá. Te amo com todos os meus órgãos, com todo o meu ser. Pobre diabos.

Aquelas criaturas nunca me amaram e nem poderiam. Nunca deixei de pensar que todos correriam ainda nas demonstrações iniciais de mim. Aqueles convictos de seu amor por mim nada mais são do que enganados. Segurei tantas vezes o tranco de apresentar-lhes quem sou que decidiram me amar pelas frestas. Os coitados nunca passaram nem da porta da frente. Não sabem de nada, são ordinários e isso os confere uma espécie de pureza.

Que ironia que apenas você e eu saibamos que a maioria disposta a me manusear, fugiu. Rimos tanto disso, caçoamos daqueles amores ocos, que, nesse ponto, meu riso se mistura ao pranto e ao desespero.

Lilian, minha irmã, não permita nem por um segundo que, mesmo diante da nossa amizade, você não me veja como sou. Os homens passam como passam os cães farejadores. Nós permanecemos porque somos aço.

Da sua sempre sua,

 

Pietá.

(As Cartas que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)