mother and son

“Deslumbramento, meu filho. Você sabe o que é deslumbramento? A criança ainda meio sonolenta cravou os olhos na mãe. Parecia que aqueles olhos diziam não. Mas também assentiam em conhecer. Diga-me o que é deslumbramento.

A mãe então mastigou novamente as sílabas daquela palavrinha curiosa. Repetiu-a mais duas ou três vezes de forma pausada. Degustando-a.

Deslumbramento é a sensação de que o mundo todo nos bate a porta. A cada segundo em que a solidão nos é interceptada. A cada beijo. A cada cheiro que nos chega sem razão. Há deslumbramento feliz. Há deslumbramento triste. Mas o deslumbramento nos mostra que a vida não acontece só aqui dentro da gente. Sou eu amando você, é você me amando, Eduardo. É o recado que seu pai deixou em mim quando me amou.

Pietá então abaixou-se para olhar o filho nos olhos. Olhou-se sem pena. Sem qualquer conceito que trazia consigo do que seria um órfão. Agachou-se de forma a sentar nos calçanhares. Aquela criança era o recado mais forte que Heitor pudera deixar.

Deslumbramento é aquela matéria fininha que nos faz fixar o mundo em nós. É uma forma de amor que se projeta no mundo exterior, aquela compreensão de que viver doi, machuca, mas nos queremos. Pelo deslumbramento”.

(Requiem Por Tua Saliva – Bruna Alencar)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s