Soneto de Amor no Domingo

theee

O amor é coisa de gente grande
Coisa de quem não se esconde jamé
Quem decide não aliviar o instante
E se encanta ao tirar fruta do pé.

O amor é coisa de gente atenta
Coisa de quem faz do amor exercício
Quem segue seu rumo de veia aberta
E aceita ao encanto e ao suplício.

Ame sempre, todo dia, sem mistério
Pois a vida da nó num instante
E se esvai em casos sérios.

Assim, diante das travas do mundo
que antes me falte o brilhante
que propensão para amar ao absurdo.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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love lust

Veja, Matilde, você não entendeu errado. Encontro-me realmente cheia de pústulas pelo corpo. E tal mal sempre me chega como resultado da covardia. Havia afastado-me novamente da literatura. Algumas vezes doi demais. A mesma literatura que estanca a sangria é a que nos mostra que a nossa dor de humanos é um rio com mais afluentes que possamos contar.

Percebe, Matilde, que essa carta na verdade tem natureza de socorro. Tenho vivido nessa convulsão dos sentidos de quem ama e não toca. Estou realmente delirando desde que deixei a cama dele. Por quê os caminhos das pessoas são tão tumultuados, Matilde? Talvez seja por essa sofreguidão de só termos a essa vida para ver tudo. Só temos essa vida para que sejamos todas as versões de nós mesmos.

Sei também que você recebe essa casa com algum juízo de reprovação. Sim, talvez acabem por me por alguma alcunha de amiga egoísta. Só apareço quando algo doi. Quando a solidão incomoda. Pietá é mesmo uma estúpida. Olha, desde já peço desculpas e sei que serão aceitas pois conheço a medida do seu coração de saco de estopa, um coração que só retém o que é grandioso.

Mas retomemos ao problema (lê-se ao meu problema). Distanciei-me da literatura por medo de que os livros cutucassem ainda mais as lembranças que eu tenho dele. Temo cometer alguma loucura maior do que amá-lo tão rápido. Temo abandonar meus gatos, limpar a conta bancária ou queimar meus escritos por pura necessidade de renovação. Sem ele minha vida até aqui me parece apenas tola. Qual o sentido de tanta balbúrdia?

Passei duas semanas apenas com ele, disso você já sabe, como também sabe que, para mim, esse foi um grande passo. E sabia mais: em nenhum dia dessas duas semanas eu tive vontade de fugir. Sumir. Escafeder-me em minha solidão.

Então bem, deixe-me ver o que consigo contar, pois a cada dia, uma revolução diferente. Mas ainda assim todas as nossas revoluções foram feitas com cravos.

No primeiro dia ambientei-me, cheiramo-nos. Decidimos que de fato nos gostamos, embora nenhuma palavra tenha sido dita.

Do segundo ao décimo quarto eu já não sei nem organizar os acontecimentos. Cada segundo passou como um turbilhão de susto na pele e nas íris. Dissolvemo-nos. Perdoa a falta de explicação, é que não tem mesmo.

Inúmeras palavras continuam por dizer, mas de alguma forma elas são desnecessárias. Eu só preciso voltar. Saramago estava certo. Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam.

Assim como também sempre chegam as pústulas a mim quando eu abandono a literatura. Não encontrei os livros o suficiente, fui leviana. Troquei as letras por olhos cheios dedos. A diferença é que a literatura não vai a lugar algum, enquanto eu tive que partir e ele foi destinado a ficar.

No entanto de alguma forma esses dias me deixaram leniente. Por duas semanas eu decidi não por mais nada dentro de mim que não fosse ele. E isso não poderia passar desapercebido. Fui punida.

Este amor de rebeldia, vivido às distâncias aplacou um pouco da minha sede por descolar minha própria retina. Pela primeira vez na vida decidi ver uma coisa por vez. E durante aquele período estive satisfeita. Mas desde que parti me doi a saudade como me doi a parcialidade.

Escolher amar alguém é como ceder um pedaço de si. Lhe dei meu olho esquerdo e metade do meu dorso.  A parte de mim que lateja é aquela que falta. Há algo no mundo que escolhi deixar de ver, mesmo que isso me pareça pecado. Deixei de ver outros homens, os conflitos parecem menos urgentes e as amizades mais distantes.

Todo o resto do mundo parece me acompanhar menos da empreitada de enganar a morte com o amor. Respiro. Tomo um café. Eu bem sei que no exato momento só cabe a mim aplacar a fúria das pústulas com literatura. Quarenta minutos escrevendo e já se cura uma que estava rubra na palma da minha mão direita. Literatura é autopoiese.

(As Cartas que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

cat 1
Difícil respirar
Difícil respirar
o ar rarefeito,
memórias do corpo
memórias do ar
O ar passa reto
Peço com calma
Breathe in
Breathe out
Mas algo se não para,
desacelera.

Sua ausência me obriga a olhar para dentro.
Veja: estanquei no meio do sonho
talvez até o poema fique incompleto
ou
simplesmente
eu apenas prenda o dedo na porta.

Como respirar sem teu barulho?

Vamos lá, eu consigo
Fiz isso mês passado, na primavera passada
to nessa onda desde de que nasci
quem é você derrubar meu mungunzá?

Uma longa. Duas curtas.
Uma longa. Três curtas.
Duas, três cinco vinte curtas
todas curtas
breathe in-out. Breathe breathe?

Que papel ri-dí-culo
Logo eu que sai da adolescência aos 18
bem melhor e serelepe
mantinha minha paz
de poder respirar sozinha

Aprendi cedo a dançar sozinha
Rodopio em um peito, passo forte
peço outro sujeito, próximo
De quantos escondi
o quanto me esfarelo?
pois ficar me impele ao peso da morte.

Mas o amor é um atrevimento de sorte.

Dançar contigo um forró do absurdo
me pôs diante da argamassa do mundo
diante da substância do ver
e gostar do que se viu.

Entrou no meu primeiro compasso errado
abaixei a guarda, abertura descuidada
Pisou no meu pé, não pediu desculpas
e desaforo não levo pra casa
tive que me vingar com o corpo ou nada.

Tomamos prumo,
Tomamos graça,
respiramos juntos
vimos os dias correndo
vimos os moços correndo
e nosso suor
escorrendo.

Teus olhos cansados do dia
O peito pronto pra a noite
Me mostrou o rumo
Abriu as portas de casa
Ora, só sendo muito louco
Aonde fui amarrar meu burro?

Agora volto,
respiração acelerada
desacertada respiração
respiração desgarrada
e o coração rodopia
que nem pião.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

mother and son

“Deslumbramento, meu filho. Você sabe o que é deslumbramento? A criança ainda meio sonolenta cravou os olhos na mãe. Parecia que aqueles olhos diziam não. Mas também assentiam em conhecer. Diga-me o que é deslumbramento.

A mãe então mastigou novamente as sílabas daquela palavrinha curiosa. Repetiu-a mais duas ou três vezes de forma pausada. Degustando-a.

Deslumbramento é a sensação de que o mundo todo nos bate a porta. A cada segundo em que a solidão nos é interceptada. A cada beijo. A cada cheiro que nos chega sem razão. Há deslumbramento feliz. Há deslumbramento triste. Mas o deslumbramento nos mostra que a vida não acontece só aqui dentro da gente. Sou eu amando você, é você me amando, Eduardo. É o recado que seu pai deixou em mim quando me amou.

Pietá então abaixou-se para olhar o filho nos olhos. Olhou-se sem pena. Sem qualquer conceito que trazia consigo do que seria um órfão. Agachou-se de forma a sentar nos calçanhares. Aquela criança era o recado mais forte que Heitor pudera deixar.

Deslumbramento é aquela matéria fininha que nos faz fixar o mundo em nós. É uma forma de amor que se projeta no mundo exterior, aquela compreensão de que viver doi, machuca, mas nos queremos. Pelo deslumbramento”.

(Requiem Por Tua Saliva – Bruna Alencar)

solaar

A essência das coisas é muito fina
E toda pretensão de segurança, opaca
Os sistemas são frouxos
Os amores são coxos
E as carta, marcadas.

No final do dia
alegorias de alegria
metáforas de fantasia
diante de camadas e
mais camadas
de trabalho duro,
pele marcada e
odores diurnos.

Mas mesmo assim,
a matéria que compõe as coisas
é muito fina.

Fixa-se na retina
Está longe das lapelas
Não se curva ao toque
ou a quaisquer
verborragias e gente esnobe.

E ainda assim o sentimento
que escorre do tempo
é muito fino
Vidro prensado,
são ais e mais ais
diante de toda
a delicadeza da vida
que desliza, se esvai.

Chegar humano já é piada
contada pela idade do mundo
que faz beleza delével
e contempla a marejada
Isto posto, aceite
logo cedo, ainda no berço:
Sois marujo sem cais
Sois marujo e a vida,
atroz.

Desata teus nós
Pinta teus dias
O que sobra são andanças
Beijos de moça e,
quiçá,
alguma esperança.

definetely

Sinto como sentes
a vida de um poeta
um chumaço de fúria
um gozo profético
os riscos de tardes loucas
em que se encaixou
displicentemente
os gritos do mundo
na superfície do papel
aliás
sinto como sentes
o próprio tom do papel.

Tanto faz,
vire a página
são sensíveis demais
esses tais poetas.

Choram de noite
pelo o que não vivem
de dia
Fingem que não,
mas pagam as contas
São tão banais e vulgares
como todos os demais
que se encontram em demasia.

São sensíveis demais os poetas,
sejam os loucos irascíveis
ou
os doces atletas
pois entendem que compõem
a substância do mundo
com aquela ousadia
de quem arromba uma porta
ou carrega um defunto
e diz placidamente
“ora, não foi nada”.

A verdade é que os poetas
apenas queimam
como queimam as dúzias
de verdades e quimeras
em todos nós. Sós.

Ah! Imagine se um dia
nos tocasse o entendimento
de que os poetas somos nós
em nossos momentos de fantasia
nos tocasse o entendimento
de que os poetas
são os próprios lugares
ao exercer o seu
direito de alegoria.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

jim m

Vim correndo, sem cordas
tirei os arreios
tão logo passei pela porta
por saber que
só a poesia me responderia.

Pisco duas, três vezes
opacidez na retina
vá para o diabo que
o carregue com essa
mania feia de morfina.

Veja que para recorrer à poesia
não se exige preparo
essa peça de mim mesma
só se fará deserta
se fingir que não sinto
pois a franqueza
é o material do poeta
grite à vontade, não temos cota.

Quem disse que o mudo
não alcança um bom gemido?
Trato então desse urro de dor
do meu coração sem boca
sem dentes e sem covardia
nada silente, sem apatia.
Insidioso.

Me cubro de ódio
de quem não nega
de quem não treme
ao dizer o que sente
ao odiar sem ser branda
não tenho nome de santa
só tenho sangue fervente.

Tire suas memórias
do meu encalço
suma com seus bagulhos
quebre uma perna
luxe o tornozelo
morra, desapareça
ou no linguajar jurídico
pereça
ou ao menos,
na menor das hipóteses
bata o dedinho na quina.

Meu ódio por ti dura tão pouco
Já passou, sinto até pena
por que odiar alguém
que não tem cacife sequer
Para encarar o próprio oco crescente?
então
alguns segundos depois
me vejo tola
te odiar parece piada,
comédia mundana
e mais nada.

Boa sorte, meu amigo
eu fui o melhor dos seus planos
mais um que não deu certo
para a sua coleção de enganos.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)