salvame

Tudo aquilo
que diferencia
o sonho do ruído
o nascer do ocaso
o fluxo da corredeira
a beirada da margem
te diz a mesma coisa:
torna-te tua miragem.

A vida não é cega
nem é coxa:
vê todas as coisas
dribla todos os coices
A balança não é amena
é firme, certa, justa.

Tudo aquilo
que não interpõe:
se interpela
não espera
revoga, anula.

Homem escuso,
de terno, teso
em transe
diante de si
no espelho:
crê ser um dândi
É um torpe.

Tudo aquilo que
Se contrapõe
não convém
escalpela.

O trato da vida é bruto
O poema não é pena
O tempo da fome é obtuso
Todo aquilo que é grande
se assume.

Tudo aquilo
que evidencia
o roto e o lorde
o ateu e o padre
o pária e o líder
te diz a mesma coisa:
o tempo não evoca, assombra.

A inércia é indesculpável
e, ainda que o trabalho
seja insuperável,
há de arar a terra
só o fazer é nobre.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

15/08/2019

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meme pokemon

As linhas que estreitam os dias
entre o prazer e agonia
se viu o mundo,
os conceitos caíram de lado
meu corpo te olha assustado
como conceber a entrada no paraíso?
Contigo usei o gozo de outras eras
Tomei banho no escuro
Todo esse fogo que me consome
É minha fome de absurdo.

Estradas se confundem com varíola
Meu vício é estar sóbria
não hei de perder nenhum segundo
quero ver a dor que me dilui
o brilho de estar sã e só
Da barbárie não me escondo:
só aceito amor astuto.

(Bruna Alencar)

27/07/2019

public spaces

Public spaces
Public spaces
What has life become?
Public spaces
Public spaces
Traffic. Lights.
We assume everyone is crying
inside.
Even in public spaces.

And what else?
have you already
updated your curriculum vitae?
be aware about the
use of being happy
Speacially in public spaces.

Do not forget about
being sympathetic
you should be
grateful for existing
you are lovely!
nothing goes wrong!
love is above public spaces.

Spaces. Public.
Public. Spaces.
A healthy way of
living is
being polite
We are united in our public spaces!
Our bodies are utilities
And this is perfectly normal
Mutual needs, no boundaries
Common thoughts are going
To set us free
from loneliness
Emotions are
in public spaces.

Hurry up to be public.
If you already takes up space.

Bruna Alencar
24/07/2019

Magritte

Olá, grande desconhecido

Ou a palavra falta ou a o turbilhão de palavras não alcança. E eu passo a tarde toda conversando sozinha.
Habituei-me aos solilóquios.
Inclusive tenho contado repetidamente para mim mesma como seus olhos são vivos. Do tanto que lembro, busco a memória que rompe o destino do esquecimento. Eu amei seus olhos durante todos os instantes que os fitei, mas agora, na distância, já temo os ter confundido com os rastros dos olhos do seu predecessor.
Eu quis te dizer tantas coisas. Quis te riscar com tantas sensações. Mas esse afã também passou.
Magritte que estava certo, Le Soir Qui Tombe.
Começo a duvidar do tempo e dos rastros da presença. A vida não seria a própria ficção? os encontros parecem não mais poder ser afirmados.
A nudez foi uma condição de vistas, nos demoramos nos olhares, as palavras até funcionaram em alguma medida, mas outras tantas foram desencaminhadas pelo desejo. Ótimo. A vida é tão mais vida quando o corpo se antecipa ao verbo. Mas os corpos também não ficam.
Os membros correm, os talheres entortam e os copos vazam.
Se te bebi sem ressalvas, mas todo o meu corpo já te expeliu. De que adiantou?
A superfície da memória é uma pedra polida. Tudo escorre. Nada se demora. Não te apreendo. Apenas te imagino.
E eu que me recuso a viver na ânsia de costurar cacos. Deixo tudo pelo chão. Não recolho mais nada. O valor do passado se dissolve nas narrativas não contadas. Volto a viver só comigo no presente, minhas fomes precisam ser saciadas por mim mesma. Que tristeza essa tal de autopoiese. Grande mentira, uma cilada.
Eu quero mais sexo. Eu quero mais gozo. A pele tem urgência, meu querido camarada.

Pietá.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

fogo fogo

Ver o outro de perto requer mais que fagulha
requer estar desperto para debulhar os sinais
não há escapatória:
é preciso retirar a resina,
aprenda a mediar os confrontos – eles são inevitáveis!
sente então a força do ribombo que chega com fogo
o calor lambe a pele, o encontro apraz.

O mundo me raspa
– é o seu papel –
sou áspera.

O dia me queima
– a noite me inflama –
não me deseje casta.

Meu toque é despudorado
meu ardor é certo:
morde e acolhe.
Renova o santo, o ser
fareja o medo
limpa o tento
Explode, consome
fabrica o voraz.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

24/06/2019

liked it

Vejam, senhores
Não habitamos o poema
A nós mesmos apenas cabe
um doce estratagema no verso
a função ligeira e profana
de retirar com palavras
a tampa que separa
o ser da matéria
[da sustância do mundo]
Entender é sentir-se tudo
– não adio os abismos
eu os subsumo –
Calho de oferecer cada
partícula de mim, ainda que só
como pó de ouro e poesia.

Só muito tarde virei flor
Cerzir os sonhos no escuro
ver beleza no obtuso.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

cat meme

Seguem os rumos: os ais e os anzois
como um pêndulo voraz
O futuro lixo com pedra pomes
Tudo é pressuposto? Capaz.

Viver é um dar-se conta
Dos atos que um sopro desfaz.

Seguem os homens: gloriosos e banais
Em meio à meia luz da vida
Arrastam a retina no chão
Placidamente portam seus jornais.

O corpo segue meio quebrado
As lembranças se cobrem de pó
Na dança entre crescer e ser criança
basta um passo em falso.

A sinfonia vira matança
E por muito pouco, morre o ouro do olho
O homem bom perde a esperança
E o tolo se convence com grandiloquência.

Mas não há razão para angústia
Levantar é diariamente recolher os cacos.

Não há penúria
O que há é a coceira do tempo.

Sinto falta daqueles que incendeiam.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

06/06/2019