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Vou te contar qual o segredo
sem firula e sem rodeio:
Não esquecer
de todos os dias
levantar da cama
dar um berro pra por
sua angústia
em movimento.

O tempo não sobra
minha querida Maria
a questão posta
é saber usar a peneira
não construa sua vida
na base dos cascalhos
prefira antes as alegorias.

Tampouco se trata
de simples verborragia
tem que partir pra a ação
pegar a sua picareta
lapidar em si a consciência
que ser maior
do que qualquer conveniência.

Há de fazer solo pra revolução.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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Eu conheci os homens e seus punhais
Testemunhei o chacoalhar das classes sociais
Raspei até o tacho de minha habilidade para o sonho
Quis crer e pela crença me fiz voraz
Meu nome não está liberto
enquanto liberto não estiver o nome
de todos aqueles que, como eu, sofrem
e riem estupefatos diante da vida.

A minha liberdade encontra, portanto
condição para a sua realização:
sentem todos na mesa que eu estou
comam, bebam e dancem
exaltem a arte, conheçam Saramago
leiam a mim e ao meu sorriso de via expressa
o encontro humano sucede
um arcabouço de viveres.

O trabalho não pode ser massacre
meu epitélio não tem fronteira, tem compostos
composto de gozo e composto lacrimoso
o coletivo de mim há de querer sempre mais
perfaz a si por outras retinas
e assim, ao menos em parte
me liberto do ego e do assombro de mim.
Ser humano é iludir-se sobre totalidade.

Representação e transcendência
só me regozijo pela essência daquilo que realizo
O lume da modernidade, da pessoalidade
ou apenas da identidade
é a liberdade de ver-se nos demais.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

06/11/2018

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Meu estimado Carlos, cá estou com minhas letras

Não poderia deixar de pintar com parabéns a sua conquista. Trago então em minhas pobres mãos de pesquisadora uma caixinha simples para compor a sua felicidade. Aqui dentro residem algumas palavras de esperança com o intuito de tornar mais vibrante sua vitória de hoje e, se me permitir dizê-las, as ponho diante de ti com toda a ternura possível entre duas pessoas que nunca se tocaram, mas que se amam pela crença certa nos percursos uma da outra.

Seu mestrado agora é algo certo, em breve começará a recolher os retalhos de cosmovisões para compor a aventura de mapear percursos de ideias, então aprenda com o caminho, aventure-se. Transborde o próprio caminho. Inunde de sentimento tudo aquilo que se propuser a estudar. Ame cada palavra, deguste cada vírgula e sempre que algo te parecer odioso: gargalhe.

Aliás, todos os dias que tocares pretensões alheias, gargalhe. Gargalhe em alto e bom som. Escolha que sua gargalhada imponha o tom da vida. Gargalhe como quem nega qualquer seriedade e arrogância acadêmica.

Não faça isso por eles. Faça por você, pela sua sede de mundo.

E inclusive nesse exato momento beijo sua boca, lânguida e ávida (sua boca ou eu? ambas?) radiante por simplesmente inferir que você também tem sede. Que trajeto delicioso! É exatamente sobre encontrar nossas faltas e supri-las. Ao menos por um momento.

A sede e a fome são próprios de sermos mais humanos que os humanos. E observe que essa categorização não visa nos enaltecer. Trata-se antes do contrário. Por humanos humanos sermos, talvez estejamos mais perto de enlouquecer. A vida nos bate duplamente pois vemos.

E por vermos, e por exercitarmos nossa fome, e por exercitarmos nossa sede, encontramos a pesquisa. Buscaremos impreterivelmente consertar nossa casa interna, a parte de nós situada na escrita. Nessa senda diante da qual nos debruçamos sobre um objeto e por ele também somos vistos.

Pesquisar é relacionar-se, percebe? Abre teu inteiro coração para isso. Põe inclusive teu coração em uma baixela, serve-o gume por gume para alguém que você nunca irá identificar. Doa tudo que puder, pois sempre que achares que esgotou a si mesmo, encontrará um segundo humano em ti.

Sei que farás um trabalho fantástico e novamente te cubro com meus parabéns, apenas te peço para que nunca esqueças que continuarás a vencer todos os dias, mesmo nos dias em que ninguém aparecer para testemunhar o quanto lutaste. Acredita nisso com todo o poder que possui esse sopro de vida humana, pois eu acredito em ti com todo o brilho dos meus afetos.

Brilhe!

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

05/11/2018

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Hoje eu só quero um versinho simples
meramente sobre o poder da continuidade
não quero ramos das flores
meu amor é broto novo e forte
que irá fincar contestação
em tudo que se pretendia revelia.

Eu não arredo o pé, eu fiz meu lugar
meu verso é sobre a bravura do povo
de um povo cansado de chorar
que mais perdido do que pião em bar
refaz os mesmos percalços autoritários
e novamente erra ao tentar acertar.

Ta tudo certo, descansem os olhos por hoje
as pontas e as contas acertamos aos poucos
enquanto tivermos uns aos outros
seremos terrivelmente abusados
e deliciosamente ignotos.

 

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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Não é o momento para as saudades
Mas eu as sinto e as reviro
Não é o momento para casualidades
Mas as contemplo e exibo.

Ausculto meu coração de bandolim
repenso a teimosia das crianças
desobedecer é apresentar um nova ordem
mais viva, ainda que diminuta.

Apalpo o que vejo e às memórias
Na busca do efetivo, do real
as alegorias não me servem,
eu quero o cru do hoje e do homem.

Não é o palavreado, meu bem
é a inquietude do toque
que denuncia o medo flagrante
de que calem nossa voz com prece.

Não estamos bem estando sós
O peixe não morre pela boca
O peixe morre pelo anzol
que o seduz quando se vê só
mesmo em meio ao cardume.

Deita aqui diante de mim
esses teus olhos de pergaminho
que hoje vou decifrar
a genealogia dos teus sonhos.

Mas não se preocupe
não pretendo te consumir
não vim para me fundir
eu vim para me ampliar
por todas as multidões
que compõem a ti.

Curiosa e metódica
também me socorro de
cartografias
Navego a esmo,
falhei em entender,
agora devora-me.
Pelo amor de deus
devora
a mim.

E no meio de todos essas andanças
concluo em meu diário de ventos e pesquisas,
que:

Todas as vezes que revolto, avanço
Tudo que me prescinde, me alcança

Ao amar os outros, sinto o social e
também concluo que
te amo com desejo e com a balbúrdia
de quem experimenta o mundo com esperança.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

26/10/2018

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Voltei aos queixumes, Alberto Roberto

Nem sei por aonde diabos você anda, talvez só receba e leia essa carta daqui umas centenas de dias, quando finalmente você chegar nessa âncora por meio da qual você estabeleceu domicílio. Ambos sabemos que você optou por ficar em terra firme em alguns períodos por pura falta de opção de a nada se vincular. Seu desejo mesmo é viver a deriva e desbravar. Sim, eu me lembro bem das suas metas e todas elas convergem para o movimento. Vieste para ruir as certezas diante do mundo.

Em razão desse seu perfil inquestionável, só poderia direcionar uma carta com esse tema à vossa magnificência.

Aprendi qual o meu tipo de homem. Gosto de homens macios.
Aliás, só consigo conviver com homens macios. Dóceis. Atentos ao mundo, sem brusquidão.

Só me encontro de fato com homens macios. Homens pontiagudos são absolutamente detestáveis. Violentos. Invasivos. Tolos e normalmente interessados em colonizar o mundo diante da crença de que seus valores e orientações são dignos de imposição. Projetam a si nos outros, apenas. Veja, com homens pontiagudos não há possibilidade de encontro.

Quero homens macios por repudiar a colonização. Definitivamente não me oriento por relações que empregam técnicas de terra rasada. Me deleito por homens que me façam brotar e que estejam prontos – e interessados – por me ver florescer. Preciso de estímulo.

Amo aqueles que estimam amar tudo que for maior que a si. Esses homens de fato vêm quem os cercam. E são homens macios. Nada fechados em suas certezas, são curiosos, ousados, tipos que pisam no mundo para contribuir ao invés de tomar.

Aprendi finalmente a buscar a esses homens pois eles orientam meu sonho de conhecer o estapafúrdio elo entre corpo e mente. Não há foda melhor do que uma foda com conexão. Convenhamos. Olho no olho, igualdade de fúria. Desejo igualável por conhecer cada parte do que carregamos.

Só a esses homens consigo me entregar. O resto são umas fodas delivery que arranjamos quando estamos com preguiça de ficar na estimulação manual. E estar normalmente resultam em arrependimento, cadafalso.

Como pode perceber, ando bem descarada e pronta para por a calcinha no chão do tal tipo de homem macio. Eu quero me excitar por argumentos e sacanagens despudoradas. Não pretendo moralismos, quero encontrar gentes não enclausurada.

Talvez eu também saia em viagem permanente em mim, espero que me responda de forma a contar se a velocidade da suas descobertas é proporcional às renúncias que fizestes. Estou disposta a abandonar tudo que precisar ser abandonado em troca de uma vida na qual as pessoas realmente consigam ver umas às outras. Você não está aqui mas tampouco me deixou sozinha.

Saudade do seu aperto de mão firme, meu amigo.

Meu amigo, quantas saudades.

(As Cartas que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar).

hello

As medidas de tempo político
decretam não ser tempo de poesia
dizem que
O lirismo subverte a atenção
necessária à observação social.

Veja bem, meu bem
todas essas lutas não são ficção
Gente morre e gente nasce
e as perspectivas do cidadão
são cada vez mais diminutas
escassas
não me venha com rimas e abstração
quero o poder das gentes atuantes.

Mas veja, a poesia ainda escorre
o coração encontra seus meios
o sentimento cria seus próprios
sistemas de autorregulação
pensemos então
uma poesia circunstancial
dobras das letras
que nos abrem à ação.

Se é Maria ou João
quem segue pela rua debaixo
os amo pelo simples ato de seguir
e me doem os olhos
por enxergar a construção
do descaminho desses amigos
que sequer me conhecem
mas pelos quais prezo a vida.

Para que hoje Maria e João sigam
tantos outros compuseram esse chão
e não se trata de abstração
a matéria que compõe o mundo de agora
é a mera expressão
da poesia de resistência de outrora.

Embora tal poesia não tenha sido escrita
foi pensada, dita, repensada
nos corpos de outros
nos autos-corpos
pintados enquanto não-lugar
vistas enquanto não-pessoas
Enfim, muitos perderam
o lar
em si
para que você pudesse
comodamente
exercer esse caminhar.

Que te pesem as lutas dos outros
Que te chegue o dever com o povo
Que seus olhos desaguem de novo
Diante da esperança na beleza
Do amor pela caminhada
Em seguir por carregar
tantos os outros em si.

Louvemos os percursos humanos
Eu beijo na boca do tempo
Agradeço por estar presente
Não sinto saudades
Sinto benquerenças.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)