essa

Uma volta no relógio
Uma volta do mundo bambo
Te convido ao meu novo tango
Quero dançar contigo na vida
seja no escuro ou no claro

Uma volta nos espaços e casos
Uma volta no tempo e me parto
Te quero no hoje e te convido
Segue comigo mesmo nos assombros
senda de esperança em ti vejo

Estar na beirada do mundo e
questionar todas as fronteiras
sentir em forma de brilho
percebe o quanto cabe no riso
permita que te ame e descanse.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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do you mind

Meu bem,

Vou te dizer novamente que não cessa meu desejo de desenhar com palavras diante de ti todo o meu assombro sobre o mundo. E veja, também através de toda a vida que escorre dos rostos, de uma caravana de livros e facilmente como escorre dos acordes leves do seu violão risonho.

Me ponho então nua diante de ti e me entrego como quem escolhe acreditar todos os dias em um sistema de significações.

São 13:13 e novamente me encontro em outra biblioteca a remoer práticas sociais e educacionais. Como sempre exerço minha incongruência de jurista intrometida. Visito lugares de fala de pedagoga ou cientista social por pura curiosidade decorrente de inúmeras indignações. Vivo então essa brincadeira aqui dentro do comboio de corda que também ouso chamar coração. Vivo meu sonho de especialista em generalidades, como uma amiga mesmo advertiu.

Hoje estudei economia e pude sacar mais uma dessas vertentes da realidade e dos jogos de poder e, ah, meu bem, percebo com todos os meus seis sentidos que meus desejos anseiam pela abolição das bordas do meu mundo. Viciei-me em abrir portas e apagar fronteiras.

Apenas estou certa de estar faminta. Minhas pálpebras ardem em razão do descanso escasso ao passo que meu corpo arde de volúpia. Eu quero conhecer os fenômenos de que me digam mais, chafurdar em tudo que é humano. Me doi a paixão pela vida e só a combato com o movimento da busca.

A esse ponto já sei que tu lê essa carta como quem perquire: que tenho eu haver com esses teus delírios epistemológicos?

Muito, meu bem, muito!

Você me ensinou a metafísica dos corpos.

Te ver. Te enxergar. Te pressentir e, por fim, te extenuar dentro de mim me pôs de novo no prumo. Ando coberta de ti como quem dança em uma superfície coberta de cal e deliro pelas hastes de ti encobertas pelos anos. Decifro-te um dia, talvez, hoje, quiçá, me debulho em enganos e gosto.

Não te descubro. Apenas tiro-lhe os panos.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

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A magia dos dias
espreita a vida e a aurora
quero sorrir de dentro pra fora
amar sem medida ou momento
quero a poesia que aflora
não mede qualquer contentamento
não vive só em si, extrapola.

A poesia que inunda as vias
limpa vestígios de agonia
acalma o pranto das gentes
limpa a casa pras visitas
e não ousa temer o agora.

A substância da magia nos gestos
cobre toda nudez de encanto
eu quero o gosto dos dias com
o frescor de quem faz festa e dança.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

Insidious

radio

You came in with nothing else than a fox smile
You took my tongue between your eyes and your legs
(and after that) licked me with no regards
Messed me up inside out
Put all your fierce in this minutes of love
all the lucid moments we recognize each other
as a simples animais asking for real feelings.

Mess me up with your insidious face
your diplomatic touch
underneath your daily lies
show you’ve a propensity to be true
put all your hideous memories in my pocket
try not to be such a political animal
at least for a moment
please, allow me to suck your body
as a symbol of release
are we settled? can we agree?

Insidious voice
Insidious saliva
We’re drunk of being alive
maybe we’d try to be vandals
maybe we’d try to love
despite
all the scandal.

(Bruna Alencar)

O Conto da Dona X

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E então veio mais uma onda de calor. A tarde já beirava aos 40 graus, nem sombra de vento, tudo seco como só o sertão permite ser. Mas dessa vez a onda não veio e só foi. Ela também levou.

Dona X sumiu no exato momento em que o relógio-termômetro de sua cozinha marcou 15:15. E com a devida angústia de quem precisa respirar dentro de uma caixa de areia, foi-se.

Exatamente assim, inclusive porque sempre fora uma mulher simples. Pluft. Acabou-se.

Dona X nunca se atreveu a ser incógnita. Veja: esposa aplicada, mãe devotada, cozinheira das boas. Dócil quando jovem, segura de sua posição de matriarca quando velha. Muitas configurações, tantos papeis, mas nenhum a impediu de sentir aquele calor insuportável. Aquele calor a consumia por dentro. Devorava até a dobra dos ossos.

No começo da tarde, em prenúncio dos piores momentos que viriam, a garrafa d’água esquecida fora da geladeira já havia perdido o frescor. Dona X serviu-se da água no copo plástico do Mickey esquecido pelo neto. Era até um copinho danado de bom e dava uma coceira boa na lembrança. Tão bom quando matar a sede é lembrar.

Entornou. Quente. Ah, nem quente de fato, mas, ainda assim, desagradável.

Quanto aborrecimento! Repôs mais água no copo e decidiu que o colocaria no freezer. Só a ele. Ela, mais do que ninguém, merecia uma água irracionalmente gelada já que apenas ela tinha realizado o esforço para tanto. Nem as outras garrafas encheu. Os outros que chegassem sedentos e experimentassem o que ela passou, o mesmo aborrecimento. Sentiu-se egoísta pela primeira vez na vida. Sentiu-se bem.

Olhou para a casa impecável depois de mais um dia de devoção às suas funções e achou graça do pensamento de que a ela também era dado bagunçar. Nova onda de calor. Essa foi pesada. Dona X bateu com o leque no ar e o pensamento foi parar longe.

Meu Deus, pra quê isso? Já não bastavam os calores sofridos na juventude? As bacias d’água no quarto pela noite, a vontade de evadir-se. Abandonar o conforto da casa dos pais em nome de seu primeiro e único amor, observar, com a passagem do tempo, a chegada dos ventiladores e acalmar-se na castidade do lar.

Naquela época não poderia imaginar que anos depois, quando o pior mormaço de sua vida chegasse, já haveriam inventado os tais ares condicionados, mas ela ainda não havia merecido tanto e nem achava necessário, pois, afinal, sempre fora muito simples.

A fronte pintada de suor. Até o cachorro que vivia ao seu lado já desistira de ser penitente, refugiou-se debaixo da pia da área de serviço. Bicho esperto, aproveitava a goteira pingando-lhe na cabeça.  E a ela caberia refugiar-se aonde?

Pergunta besta, Refúgio era artigo de luxo, coisa de quem possuía meios para abrigar-se consigo. E veja, como Dona X gostava de lembrar, ela era muito simples e o calor mais uma vez haveria de ser algo contornável.

Molhou uma toalhinha de rosto e resolveu o problema açoitando a si mesma no dorso em frente do ventilador da salinha de entrada. Algum alívio. Bom. Bom. Poderia manter aquele esquema pelo resto da tarde.

Ficou mais alguns momentos a considerar a que pés andavam suas energias para os outros serviços quando escutou um barulho no portão. Abriram o ferrolho. Alguém lhe roubava o momento. Tratou de se recompor. Dobrou a toalhinha e pôs na mesa. Januário chegava da escola.

A mochila maior que a si. Vermelho de calor e já barulhento, anunciou de pronto “Vó, já almocei na casa de Anderson, pode guardar as comida”. Ainda pensou em questionar, mas o menino, assim como o pai, era brusco, sem paciência com ela, com suas insistências e preocupações de mulher.

Certo. “Se já comeu, tá comido. Ande, vá me buscar uns geladinhos na Dona Claúdia, traga pra você também”, “Claro, né, vó”. O menino recolheu o dinheiro embaixo da chaleira de porcelana e raso como veio, foi. Foi deixando Dona X na dúvida se ele haveria obedecido por respeito ou interesse.

De qualquer modo, já antecipava o alívio do doce gelado e isso já era suficiente.

Essa habilidade para contentar-se havia lhe dado uma família numerosa. 8 filhos, 12 netos, muitos distintos, titulados, outros ainda sendo encaminhados pela vida, tudo na mais perfeita harmonia de Deus.

Outras ondas de calor. A toalhinha voltou a funcionar. O ventilador constante como também constantes os suores. 20 minutos. Aonde Diabos se meteu esse menino?

Na impaciência só lhe restava abrir a geladeira para constatar: nenhum docinho minimamente frio. Chega, chega, Januário! As vozes agora faziam coro dentro de si: chega, chega, Januário! Chega, Pedro, chega, Maria Lina, chega, Augusto, chega, Laura, chega, Carminha, chega, Roberto, chega, Inácio Élio, chega… cheguem que eu estou aqui e estou com tanto calor!

E nada do diabo do menino voltar. Entreteu-se no caminho.

Mais e mais ondas. Suportar a agonia consciente era pedir muito, só restava o sumiço para cuidar de si. Aprendera depois de todos esses anos que era a única responsável pelo seu amparo. Os filhos seguem como seguem as dores.

E então, em uma sucessão de imagens, ela considerou que poderia ter sido outras. Os amores poderiam ter sido tantos, ela poderia ter sido louvada para além de tudo isso, mas, afinal, quais eram seus sonhos no começo? Contorceu-se. Não sabia e não sabia se por esquecimento real ou conveniência.

Acontece que ela sempre foi simples e esses foram seus últimos momentos de vida sedenta. PLUFT. Acabou-se junto com o calor enquanto o copo d’água ainda esfria.

(Contos Contorcidos – Bruna Alencar)

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Olha, chego na terça

Podemos fazer de novo aquilo que fizemos no meio dos tempos da madrugada? Recriaremos o mistério de ver o novo no outro e sentir a companhia como uma fisgada? O corpo escorre desejo e da cabeça decorre uma manada de pensamentos desenfreada,
O corpo é uma caixa que comporta o devir de sonhos e pausas.
Toca rude e com cautela.

Os discos aqui no peito junto com uma confusão de referências herdadas
Sempre chegamos a esse sítio no qual nos esperam de peito aberto
Mas nunca chegamos sós em nenhum dos relacionamentos nos quais desembocamos
Trazemos os conceitos de toque, as voltas e voltas nas estradas do ontem.

Recria seus olhos nos meus com a mesma paz de quem pouco sabe e aceita?
Repete os gestos nos quais lemos as cintilâncias da pele?
o sabor do sexo é a sorte
na qual
toda a vida que acontece fora da cama
espera.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)

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Minha única escolha foi carregar a pureza de coração como quem não passa o trinco na porta.

Desleixo. Descuido. Convite?

De alguma forma eu pedi para que as emoções chegassem sem tantas barreiras. Eu quis ceder ao toque fresco de olhar alguém de olhos límpidos.  Cheguei despida e sai despida. Não me cobri com roupa alguma. Olha, eu não tenho nada a esconder. Aliás, eu escolhi ter o coração exposto.

Nada foi premeditado. Foi muito honesto.

Sentir cada pelo do teu corpo no meu com gosto de prensa. Sentir todas aquelas palpitações. O sangue subindo pelo corpo inteiro. O ardor no peito. Os seios consumidos de desejo. Quente. Quente. Você ao meu lado e eu quente. Quente.

Deliciosamente ausente no meu delírio de entrega.

Toma-me por inteira, consome meu ventre e meus olhos diante de todos os meses que estive ausente. Derrama meu útero toda a felicidade ingênua de quem tenta sem cinismos. Crê em mim como um pai crê em um filho, como quem não duvida de que aqueles que têm pernas aprenderão a andar mais cedo ou mais tarde.

Me ama como quem lança uma verdade inadiável perante o mundo. Me ama como quem diz basta. Como quem não segura, não limita. Me ama como quem põe a coragem na fronte e segue certo do caminho.

Apaga todas os vestígios de outros suores. Me permite dançar. Me ergue pelos ombros e encaixa nossos quadris sem quaisquer jogos pueris. Não quero dificuldade para entrar. Vem sem perguntas fugidias. Sem justificativas. Escorrega em mim. Sem graça e sem delicadeza. Me fode como quem defende o próprio lar.

(Poemas Prensados – Bruna Alencar)