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Poemas pouco pedem
Despretensiosos, silentes
Angularizam qualquer relação banal
e tornam as excepcionais, perenes.

Poemas pouco pedem
Demandam aos poucos, pé ante pé
Se prostram diante das escadas
Sobem quietos, ardentes.

Poemas pouco pedem
Deitam de lado, serenos
Esperam o tempo da vida
Embora sejam aves, de rapina.

Poemas pouco pedem
Mas fazem um estrago, de fato
Mostram o inconfessável
Os desejos loucos, sem travo.

Poemas pouco pedem
Só transcrevem um olhar, franco
A delícia em te ver
E o coração, aos trancos.

Poemas pouco pedem
Traçam mapas imaginários, delírios
Repetem o beijo de vinho
E o gozo certo, em desalinho.

Poemas pouco pedem
Alguns dias são roucos, representantes
E tomam posse aos poucos
Levam as roupas, e o corpo.

Por completo.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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“O estalo dos corpos,
no vibrar do cansaço
os olhos que açoitam
meu dorso devasso.

‘Em cismar, sozinho, à noite
Mais prazer encontro eu lá’
ao riscar pele com pele
ao mormaço retirar.

Ode ou elegia?
Um desejo de gozo,
Algumas outras fantasias
um lugar para encaixar
sonhos e algumas covardias.”

(Bruna Alencar)

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“Uma mixórdia de lugares, fotos, faces. O face a face que fomos e deixou inegáveis rastros. Um dia nos desconectamos. Acordamos alheios à qualquer tipo de companhia que pudéssemos representar um para o outro.
Levantei, troquei de roupa. Dobrei sua camisa e deixei no sofá. Tomei um café mal feito, com gosto de água e borra. Infelizmente, das muitas lições que aprendi contigo, fazer um café igual ao seu não foi uma delas.
Escovei os dentes. Escovei. Escovei. Escovei e você não acordou. Algumas horas desde que sai da cama e você não notara minha ausência.
Paciência. Paciência. De todos os males, paciência.
Abri a porta do quarto, o rangido anunciou a pretensão. Te olhei de longe mesmo, para não precisar alargar a aresta do barulho. Para manter o silêncio. Não perturbar teu sono urgente.
Mas algo ainda você escutou e soube que vinha de mim. Entortou os lábios, franziu a festa de desgosto e num gesto reto e curto, trocou de lado e escondeu o rosto.
Queria eu poder esconder o meu.

Peguei o que pude, o que ainda serviria para algo. Talvez com a vontade de também deixar uns tranqueiras que você se relutaria em se desfazer. Até que um dia, no meio de uma discussão, uma outra mulher exigiria que você me pusesse porta a fora. Minhas coisas remanescentes, digo.

Épica, latina. Cheia de cenas ensaiadas na calada da noite, ou na calada do dia claro porém cedíssimo. Ah, eu fui tão atriz. Eu interpretei tantos papeis, fui tua mãe, sua amiga, irmã, filha e exponencialmente mais, fui tua amante.

Mas o mais difícil é encarar esse papel de desconhecimento, o ato no qual nossas vidas se descolam. Te imaginar como apenas mais um personagem muito vívido, de um daqueles meus livros de cabeceira. Aceitar que você foi escrito em mim, escrito à prensa. E te ocultar em minha epiderme. E imaginar o teu olhar sobre tudo e que não titubeia em sentenciar: ‘quanta breguice, meu deus’ “.

(As Cartas Que Vocês Nunca Receberão – Bruna Alencar)

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Gosto
do gosto do gozo
dos corpos gastos
dos gestos bruscos
do gênio forte.

Balbúrdia de peles
Te odiar me cansa
Quando a buceta pede.

Tanto mais certo o fim
Mais grave a memória
Que entorta os compromissos
Para não fugir ao galope.

Garanto tua geografia
explorada ao longo da tarde
na qual só a gala faz a travessia.

Ora, se peço clemência
Atende ao chamado
urgente e franco: me fode.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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Viciados que somos, poucos calos nos restam
Indivíduos individualizados, individualmente inquietos
Não ocupo o espaço do outro, um círculo completo.

O outro a quem se deve gratidão
Trouxe-me para casa, plantou-me como uma pera
Planícies de regras, piadas prontas, perenes.

Por um dia ou dois, no máximo, fica,
até que beire o cansaço e protesto.

Presença inconveniente, expulsa com os olhos para os trópicos
A boca diz fica, polido e presencialmente ausente.

Fique, ordeno que fique, faço gosto que fique na minha casa
Fica no meu pronome possessivo, no meu adjunto adverbial de lugar.

Mas não ocupe espaço. Fique quieta.
Nula. Não exija. Tenha calma.
Sem lágrimas, estas me cansam.
Durma muito. Esteja solar. Serelepe.
Satisfeita. Rouca. De preferência, muda.

Quantos aborrecimentos, quanta falta de satisfação
Ofereço a casa e ainda acha pouco.
Fique em casa, não ocupe espaço. Não pretenda mudanças.

Entenda que só nos fazemos bem em doses homeopáticas.
e casas separadas.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

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“Essa dor póstuma é muito pouco, de fato. Talvez uma banalidade crassa. Uma rebeldia leiga. Culpe minha pouca idade, como quiser. Diga que foram os anos de teatro que deitaram mil ideias dramáticas na minha cabecinha frouxa.

Ah, mas essa dor póstuma ainda é muito pouco. Talvez o pior seja não concluir o enterro.

As cortinas ainda estão fechadas. Uma mácula. O sol não segue seu curso e inveja o rio. Quando será aprendida a arte de reconhecer um dano irreversível?

Seguimos salvando os soldados feridos, quando talvez a maior compaixão seria não humilhá-los. Hoje receber tão pouco do que outrora nos veio em abundância deixa essa sensação de vertigem ácida. Sobe pela garganta e fica remoendo no fim do indeglutível. Talvez seja o suco gástrico desses dias gatos nos quais o tombo parece incipiente e repetível.

Essa dor póstuma é muito pouco e não termina. Nunca é a última.

Ah, quanta idiotice, meu deus.

Sofrer por abstrações quando algumas palavras resolveriam o ato. Ou a falta dele.

Não aceitar mais essa terra rasada. Simplesmente ir embora.

Parece tão fácil. Por que mantemos os grilhões? Talvez seja por essa rouca dor póstuma. Que nos viciou nas pausas.”

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)