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Viciados que somos, poucos calos nos restam
Indivíduos individualizados, individualmente inquietos
Não ocupo o espaço do outro, um círculo completo.

O outro a quem se deve gratidão
Trouxe-me para casa, plantou-me como uma pera
Planícies de regras, piadas prontas, perenes.

Por um dia ou dois, no máximo, fica,
até que beire o cansaço e protesto.

Presença inconveniente, expulsa com os olhos para os trópicos
A boca diz fica, polido e presencialmente ausente.

Fique, ordeno que fique, faço gosto que fique na minha casa
Fica no meu pronome possessivo, no meu adjunto adverbial de lugar.

Mas não ocupe espaço. Fique quieta.
Nula. Não exija. Tenha calma.
Sem lágrimas, estas me cansam.
Durma muito. Esteja solar. Serelepe.
Satisfeita. Rouca. De preferência, muda.

Quantos aborrecimentos, quanta falta de satisfação
Ofereço a casa e ainda acha pouco.
Fique em casa, não ocupe espaço. Não pretenda mudanças.

Entenda que só nos fazemos bem em doses homeopáticas.
e casas separadas.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

anx

“Essa dor póstuma é muito pouco, de fato. Talvez uma banalidade crassa. Uma rebeldia leiga. Culpe minha pouca idade, como quiser. Diga que foram os anos de teatro que deitaram mil ideias dramáticas na minha cabecinha frouxa.

Ah, mas essa dor póstuma ainda é muito pouco. Talvez o pior seja não concluir o enterro.

As cortinas ainda estão fechadas. Uma mácula. O sol não segue seu curso e inveja o rio. Quando será aprendida a arte de reconhecer um dano irreversível?

Seguimos salvando os soldados feridos, quando talvez a maior compaixão seria não humilhá-los. Hoje receber tão pouco do que outrora nos veio em abundância deixa essa sensação de vertigem ácida. Sobe pela garganta e fica remoendo no fim do indeglutível. Talvez seja o suco gástrico desses dias gatos nos quais o tombo parece incipiente e repetível.

Essa dor póstuma é muito pouco e não termina. Nunca é a última.

Ah, quanta idiotice, meu deus.

Sofrer por abstrações quando algumas palavras resolveriam o ato. Ou a falta dele.

Não aceitar mais essa terra rasada. Simplesmente ir embora.

Parece tão fácil. Por que mantemos os grilhões? Talvez seja por essa rouca dor póstuma. Que nos viciou nas pausas.”

(Poesia Proseada, Vida Romanceada – Bruna Alencar)

Trova da Contemplação

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Esta trova simples, sente
O orgulho em meus olhos, quentes
Ao te fitar, mesmo que silente
Posto que tiraste os ferrolhos.

Veio a mim essa beleza fácil
Ufania por saber tua vida
Soube mais do que diria,
Coberta de brio tua partida.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

large

Há muito o plantio não valhe a colheita
Em tempos em que o vão da terra se faz oco de propósito
Talvez culpa de uma ato unilateral
Pois o vento se faz escasso assim que a boca diz seu nome.

A única lei que vigora – de fato – é a do silêncio sobre o que se amou
Enquanto as chagas doem quietas, o pesar se esconde por recato
Nessa ciranda incansável
De nunca pesarmos o quanto se errou.

Há muito o plantio não valhe a colheita
E a sede por abraços é vista com enfado
Já que a brisa dita a paz de um amor insípido
Que só encontra guarida no ato covarde de calar.

Das dúvidas que se fazem mundanas
Fica o eco da descrença:
Nunca fostes amada, eras apenas boneca
Desculpa-te, causaste tantos aborrecimentos!

Há muito o plantio não valhe a colheita
Aqui jazem tantas tentativas, terríveis delírios
Quem dera um dia te encontre na vida
Desarmado e insone
Prometo amar-te de xícara cheia,
Até que a falta de açúcar te afaste.

Pelos elos que mantêm o elmo que tu carregas
Estou certa de saber tão pouco da tua estrada
Por vergonha ou reprimenda
Condenou-me a viver do lado de fora
Dessa festa macabra na qual batiza tuas desgraças.

Há muito o plantio não valhe a colheita
E não há condescendência que convença do contrário
Cultuou-se a pessoa errada, nunca fostes amada
Impossível esperar amor de quem a vida toda
Habituou-se à marteladas.

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)

dfgxf

O pio do pássaro que cai
diz muito sobre a queda e sobre o tombo
mas esconde o quanto se quis cair.

O pio do pássaro que cai
é a parte da vida que enoja
se distancia pela permanência de desilusão.

O pio do pássaro que cai
é o protesto por ser tratado como pano
roto e sujo, debaixo do ribombar da vida que passou.

O pio do pássaro que cai
é o som que vem com o asco
daquele que é seu próprio veneno.

O pio do pássaro que cai
é a falta de escapatória, incontido
desvendável fugitivo do concebido em si mesmo.

O pio do pássaro que cai
é o pio que causa vertigem
pede piedade e declara:

“deixe me no chão,
não ouse me levantar
não aguento um dia a mais”

 

(Primeiros Poemas – Bruna Alencar)